Autoconhecimento

Como chama isso? Empatia?

Par de mãos femininas segurando a mão de outra pessoa.
Juliana Ferraro
Escrito por Juliana Ferraro
Desde pequena sempre tive um problema: não conseguia brigar com ninguém. Minha mãe conta que quando eu e meu irmão éramos crianças (ele era 1 ano e meio mais novo que eu), ele puxava meu cabelo (meu irmão ainda era bebê) e eu chorava, minha mãe falava “puxa o dele também Ju, pra ele ver que dói” e um dia eu puxei e falei: “desculpa Guga, é só pra você ver que dói”. A gente ri disso até hoje. Quando eu tinha uns 3 anos ia sempre brincar no parquinho, lá tinha uma menina que me mordia e minha vó teve que revidar porque eu nada fazia.

Quando tinha 11 anos mais ou menos, briguei com uma menina da escola e ela falou mal de mim pra toda a classe. Passei uns meses sendo zoada e excluída. Fiquei quieta e triste no meu canto, não sabia o que fazer.

Empatia

Só para esclarecer, não estou aqui para me fazer de vítima, só expondo os fatos.

Quando era adolescente eu era meio revoltada com as coisas. Falava palavrão e sempre dizia que eu ia trabalhar e ser independente, que me recusava a casar e ficar em casa e ser submissa.

Nessa época minha mãe trabalhava com adolescentes na prefeitura, ela era pediatra e tinham um serviço com vários profissionais da saúde que acolhiam adolescentes que estavam precisando mesmo de ajuda. Muitas meninas que sofreram violência doméstica e sexual, grávidas dos tios ou avôs. Meninos muito novos já viciados em substâncias psicoativas. Tantas historias tristes que eu ouvia e pensava que poderia ser comigo. Por que acontece isso com essas crianças e adolescentes? Muitos abandonados pelas famílias e alguns, por serem homossexuais, expulsos de casa sem nada no bolso. Eu poderia ser qualquer um nesse lugar.

Um dia estava andando na rua e vi dois meninos tomando um “enquadro” da polícia. No meio de uma avenida movimentada e de tarde. Eu queria brigar com os policiais. Tive medo e fiquei apavorada com a violência com que eles tratavam os meninos e como os humilhavam. Mesmo que eles tivessem feito algo, é justificável tratá-los dessa forma? Eles tinham a minha idade. Cheguei em casa aos prantos, liguei para os meus pais, demorei horas para me acalmar. Poderia ter sido comigo. Foi um pouco comigo…

Não sei se você já leu o livro do Drauzio Varella sobre o Carandiru. Eu li em três dias e quando acabei o livro também não conseguia mais parar de chorar. De raiva e de pensar naquelas pessoas sendo mortas como ratos. Anos depois eu conheci um menino que é neto do general que deu a ordem de invadir a cadeia e matar todo mundo. O menino carregava dentro dele o peso do que o avô fez. Ele ainda pedia perdão pelo acontecido e carregava um peso.

Quando eu tinha uns 10 anos, meus pais e tios estavam assistindo ao filme “1942”, que conta a descoberta da América de uma maneira nem um pouco romantizada. Mostra bem como os indígenas foram catequizados, queimados vivos e torturados. Eu passei meses tendo pesadelos com aquele filme que eu nem assisti inteiro. Imagina ter sido indígena naquela época? Meus antepassados são mais colonizadores que indígenas, mas eu vivia com raiva desses colonizadores que destruíram nossas florestas e devastaram os indígenas.

Quando estudei sobre escravidão na escola, não podia conter minha revolta. Ficava imaginando o tanto de sofrimento. Ainda imagino e tenho náuseas. Como puderam fazer mal assim pra outra pessoa? O que essas pessoas têm na cabeça? Será que nasceram sem coração? Eu ainda não entendo.

Também já assisti filmes sobre a ditadura no Brasil, quem assistiu o filme do Cazuza? E tem um filme lindo com o Antonio Banderas que fala sobre a ditadura no Chile com cenas da protagonista sendo torturada. Dessas cenas em que preciso fechar os olhos e esperar alguém dizer que “passou, pode abrir” porque dói em mim assistir. Poderia ter sido eu ou você ou qualquer mulher sendo violentada na prisão sem poder fazer nada. Eu imagino as cenas quando escuto contarem, é de ficar transtornada. Não consigo achar normal.

Tudo isso para falar de um sentimento que hoje em dia parece meio ultrapassado: a empatia. Sentir o sofrimento do outro. Poder se colocar no lugar do outro. É um exercício que, mais do que nunca, deve ser feito nesse momento no nosso país. Empatia com o sofrimento do outro. E todos estão sofrendo, porque a violência e o ódio que estão sendo disseminados feito fogo na palha serve pra nos dividir. Por que ter empatia só com quem pensa como eu e não ter com quem pensa diferente? Foi isso que levou colonizadores a torturarem indígenas, escravizar negros, estuprar mulheres, humilhar adolescentes… A gente tem a sensação que quem é diferente de nós não sofre como nós sofremos. Pelo contrário, o diferente é culpado pelo meu sofrimento e merece ser punido. Mas, veja bem, punindo outra pessoa você está se punindo, gerando mais raiva dentro de ti e mais sofrimento.

Empatia

De um jeito ou de outro, o que mais precisamos é aprender logo com essa situação sobre empatia e compaixão. Porque, no final, quem mais sofre no próprio inferno é quem sente raiva, ódio, separação. Por mais que você não aceite, somos todos humanos e estamos aqui para aprender juntos que somos iguais. São poucas as coisas que nos diferenciam e elas são ilusórias. Vamos acordar. Eu não sou melhor do que ninguém. Somos muito maravilhosos e amorosos, apenas esquecemos disso.

Semeie amor e contentamento no seu coração e na sua vida e é isso que você vai colher. Semeie ódio, vingança e rancor e é isso que você vai colher.


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Sobre o autor

Juliana Ferraro

Juliana Ferraro

Juliana Ferraro é psicóloga por formação e viajante por amor às coisas novas da vida. Seu contato com diferentes línguas e culturas começou quando ela ainda trabalhava no Club Méditerranée, depois disso fez um mochilão pelo mundo em busca de autoconhecimento. Em pouco mais de 1 ano conheceu diversos países asiáticos, em especial a Índia, onde fundou uma paixão profunda pelo Yoga e pela meditação. Hoje, ela é professora de Yoga e terapeuta reikiana em Paraty, RJ.

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