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Como parar a ação: a comparação em tempos de redes

Mulheres amigas tirando selfie sorrindo fazendo sinal de "pare" com a destra
Kampus Production / Pexels / Canva
Escrito por Alex Gabriel

Conta-se que certa vez um pai de família saiu madrugada afora em busca de trabalhadores para a sua vinha, acertando com estes o pagamento de uma moeda. Sendo muita a demanda, tal situação se repetiu por mais três vezes ao longo do dia, indo esse senhor às ruas a aliciar trabalhadores.

E eis que, à tarde, o generoso homem reuniu todos os trabalhadores convocados ao longo do dia para dar-lhes o pagamento devido, começando pelos últimos convocados para o serviço. Assim, vendo que o senhor havia pagado a estes uma moeda, os trabalhadores que haviam labutado desde a madrugada acreditaram que lhes seria dado pagamento superior. Qual foi a sua surpresa ao receberem, tal como os demais, uma única moeda!

Sentindo-se naturalmente injustiçados, esses trabalhadores questionaram o comportamento do patrão: “Peraí, o senhor está dando a esses homens pagamento equivalente ao nosso, sendo que trabalhamos ao longo do dia enquanto eles chegaram há pouco mais de uma hora?”. Ao que o patrão, pacientemente, responde: “Não estou a cometer com vocês injustiça alguma. Não foi o pagamento de uma moeda o acertado com todos vocês?”.

Representação de pessoa mexendo nas redes sociais no notebook
ipopba / Getty Images Pro / Canva

Essa pequena narrativa é, na verdade, uma passagem bíblica (Mateus 20, 1-16), famigerada pela máxima “os últimos serão os primeiros”. Essa analogia entre o reino dos céus e os trabalhadores da vinha muito me fez refletir sobre a comparação que paralisa, que estagna, o que faz desse comportamento tão apropriadamente traduzido em:

Comparação = como + parar + a + ação.

Não se trata, claro, de uma abordagem etimológica, mas de uma maravilhosa e pertinente analogia que, devo dizer, não foi inspiração minha, mas do meu terapeuta, quando discutíamos a estagnação comumente provocada pelo uso excessivo das redes sociais. Em especial, do Instagram.

Se o meu valor enquanto ser humano é mensurável pelo meu número de seguidores, qual é a minha importância se comparado àquele perfil com milhares, às vezes milhões de seguidores? Se a minha popularidade no Instagram é o que define o meu raio de ação e o meu impacto sobre o mundo, quem serei eu em meio à infinidade de influencers, artistas, terapeutas, coaches e afins?

O advento das redes parece ter intensificado uma humana tendência de considerar quantidade em detrimento de qualidade. Se eu não impacto centenas ou milhares de indivíduos, logo tudo o que eu faço é dispensável e medíocre.

Pessoa mexendo no smartphone
SARINYAPINNGAM / Getty Images Pro /

E é aí que eu deixo de me dedicar a atos nobres e simples, como doar uma cesta básica, ajudar um vizinho em necessidade ou ligar para um amigo devastado pela depressão. E é aí que se revela uma faceta nossa muito mais preocupada com o reconhecimento do que com a ajuda genuína e desinteressada.

É o nosso “bom” e velho egoísmo dando as suas caras… Se as redes sociais em seus primórdios (orkut) tinham como foco a conexão entre amigos, na atualidade elas atuam como vitrine da vida perfeita, do (falso) “good vibes lifestyle” e de uma popularidade que, comumente (não sempre), envolve posses materiais, branquitude e beleza padrão.

Poucos são os que conseguem utilizá-la sábia e beneficamente. Nesse sentido, se ora me parece salutar a desconexão ou pelo menos a drástica restrição da minha existência virtual, faço-o não apenas em nome de uma saúde mental já debilitada, mas, também, em nome de uma vida real há muito carente de ser vivida.

Nada contra as redes sociais em si, até porque boicotá-las seria como se livrar do espelho em razão de uma espinha. É sempre bom, porém, considerar a nossa atuação em um contexto pensado para viciar a muitos e enriquecer a poucos…

Nesse sentido, a desconexão me parece, sim, salutar se nos ajuda a redirecionar o foco para aquilo que deveríamos estar fazendo. A grama do vizinho ou a moeda paga aos trabalhadores da última hora perdem a importância quando nos atentamos às nossas tarefas, tomando-as como um fim em si e não como meio; quando nos atentamos simplesmente ao que ficou combinado quando fomos designados a atuar por entre as videiras da existência.

A vida nada nos deve, mas muito nos exige. Pode parecer cruel à primeira vista, mas deixa de sê-lo no momento em que compreendemos a que viemos; no momento em que, já maduros, aprendemos a concebê-la não como vilã, mas como uma professora que tão somente nos submete às provas necessárias à nossa evolução.

Sobre o autor

Alex Gabriel

Mineiro de Belo Horizonte, Alex Gabriel é graduado em Letras e especialista em Revisão de Textos pela PUC Minas. É poeta, pai adotivo das vira-latas Diva e Nathalie, tem sempre um bom livro a tiracolo, acredita na Educação e vive cheio de fé na humanidade.

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