Espiritualidade

Crenças limitantes ou libertadoras – A lógica da fé

Mão com uma casa de papel e uma cruz sobre um fundo de nascer do sol.
natalimis / 123RF
Luiz Roberto Bodstein

É fato conhecido – ou pelo menos amplamente defendido – de que não há racionalidade nas crenças porque se trata tão somente de uma questão de fé, afirmativa de que discordo com toda a segurança de minhas convicções. Por ter desenvolvido um tipo de pensamento altamente questionador, aplicável principalmente a mim mesmo, todas as minhas crenças são resultado de lógica, isto é, calcadas em profunda e incessante reflexão. Seu ponto de partida foi quando passei a questionar a religião em que fui criado, para, em seguida, estudar todas as que encontrei pela frente, até decidir por não ter mais nenhuma, pois que todas – sem exceção – apenas refletem pensamentos humanos conflitantes e inquestionavelmente duvidosos, do contrário não teríamos tantas conflitando entre si. Mais tarde essas mesmas reflexões me conduziram a questionar o porquê da necessidade humana de ter um Deus, até concluir que defender uma crença cega ou posicionar-se como ateu são dois lados de uma mesma moeda, onde apenas se ESCOLHEU um lado que nunca se confirmará, já que é respaldado apenas pelo próprio sistema de crenças.

E foi no ponto da busca em que percebi a profunda diferença entre crenças fortalecedoras e crenças limitantes, estas últimas representadas pela moeda de faces que supostamente se opõem, mas possuem a mesma natureza. É bem verdade que, enquanto crenças, tanto as fortalecedoras quanto as limitantes se apoiam na fé. Mas a grande diferença entre elas é que as limitantes são professadas por aqueles que repetem o que ouviram – como um papagaio o faz – sem sequer entender o significado das palavras que pronunciam, porque assim lhes foi ensinado. A fortalecedora, por sua vez, não deixa de ser um produto de escolha, mas se apoia na DÚVIDA em lugar de falsas certezas, já que não encontra base para pender nem para um lado nem para o outro. Assim sendo, a dúvida é o único lugar onde se pode ser honesto consigo mesmo, já que não se optou pelo “sim” – em decorrência de medos internos ou de interferência externa – nem pelo “não”, sem se dar conta de que tal posicionamento é só mais uma crença “opcional” e não resultado de análise.

Imagem preta e branco de uma mão rezando.
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O conhecimento a que tenho acesso me revela que o Universo inteiro está diante de mim, e isso é fato. O foco de discussão se desloca, então, para a questão desse Universo ter tido ou não um criador. Nesse ponto minha lógica me diz que qualquer elemento constatável – ainda que não vá além de elementos atômicos que colidam entre si – precisa partir de uma fonte inteligente para estar ali ou seria Deus por si mesmo, no sentido em que o entendemos, se não nos limitarmos à alegoria de que precise de cabeça, tronco e membros. E malgrado todas as teses que o homem cria para afirmar ou se opor à existência de Deus, essa realidade permanece, pois se mostra lógica e inquestionável. Assim sendo, tomo-a como uma verdade que devo incorporar e a que chamo de “força criadora”, mas que não precisa de um nome que a defina, de livros para lhe dar crédito, de dogmas que a sustentem, de doutrina que lhe sirva de trilha ou de igrejas para transferir o pensamento de uma única cabeça para as de muitos. O processo completo reduz todas essas necessidades a uma única convicção: a de que não conheço a verdade, colocando o mais profundo e verdadeiro de minha essência sobre essa Dúvida – escrita com “D” maiúsculo – e que ciência alguma se arvora a contestar, pois que mero ponto de chegada da trajetória percorrida pela minha própria lógica.

Uma bíblia aberta.
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Se há uma coisa da qual nenhuma inteligência diverge é o caminho cumprido pela lógica, e é fácil entender o porquê: ele nada mais é do que um processo de construção em permanente transformação, tanto para a frente quanto para trás. É aquela estrada que permanece aberta a todo e qualquer elemento novo, seja para incorporá-la e aperfeiçoar o que já se tinha, ou forçando uma revisão que pode dar um novo rumo à trajetória. Tal jornada poderá apenas ser interrompida pela supressão do agente, mas nunca concluída, pois outros poderão retomá-la do ponto onde parou, precisar reformulá-la inteira ou até abandoná-la por não a perceber plausível, mas então ela já cumpriu seu papel.

O único tipo de crença que não segue o modelo de “fé induzida” é a escolha feita depois de sua lógica havê-lo conduzido até a dúvida, além da qual não existe mais nenhuma resposta passível de ser atingida ou, mais do que isso, honesta, a não ser pelos parâmetros da fé. Sabe-se que a dúvida brota por si mesma, a inteligência lhe oferece a lógica de um caminho, e este o conduz até uma linha de chegada que eventualmente se mostra inconclusiva, intransponível e semelhante ao ponto de onde tudo começou.

Imagem preta e branco de um homem ajoelhado no chão rezando.
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Você sabe que a resposta existe, mas está bem além do que pode alcançar. Suas alternativas então ficam entre assumir sua dúvida, inventar uma resposta qualquer que o deixe confortável ou optar pela mais plausível do caminho que fez e que nenhum elemento novo conseguiu contradizer, alcançando, aqui, o que se pode chamar de fé libertadora. Ela vem como consequência de sua busca inteligente e não como atestado de sua renúncia a ela. Foi a minha que me disse que as partículas em colisão do Boson de Higgs precisariam de uma inteligência por trás delas para que tudo acontecesse, e então escolho chamá-la de Deus. Um Deus que não necessariamente reproduza vaidades humanas que cobram ritos e adoradores, mas se compraz com o uso útil da mesma inteligência de que fomos dotados, em vez de mantê-la distanciada de nossas crenças como se fossem incompatíveis.

Uma cruz no alto de uma montanha com o pôr do sol ao fundo.
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Tomando esse Deus lógico como exemplo, o que menos importa ao fim de tudo é o tempo gasto no caminho que sempre nos devolve ao ponto de origem, mas a consciência da lógica pedindo explicação para aquela primeira partícula que foi se juntar a todas as demais que vão surgindo. E então opto por concluir terem surgido de um criador que não me cobra que eu o entenda ou aceite, mas apenas percorra a trajetória que cumpri, em vez de incorporar uma fé cega “por osmose” sem jamais lhe questionar o sentido ou, pelo menos, refletir se as histórias construídas para sustentá-la se mostram plausíveis. Continua sendo uma escolha, sem dúvida, mas uma escolha inteligente que nos deixa mais fortes, bem distante das crenças limitantes oriundas do “terrorismo psicológico” alheio, das inseguranças frente à vida ou, pior anda, do entendimento de que seu espírito só atingirá seu propósito se trocar dúvidas verdadeiras pelo medo de um Deus cruel e injusto que o condena ao fogo eterno apenas por reconhecer suas dúvidas pelo uso do recurso de que foi dotado, ou por encará-las de frente em lugar de permanecer sob domínio do medo e do obscurantismo disfarçado de “fé”.

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Essa fé no Deus surgido a partir de sua lógica é a que tratamos como “crença fortalecedora”, pois é construída entre a largada e a linha de chegada, e ela será sua até o último de seus dias, independentemente de seu status de cientista respeitado ou de apenas um cérebro na multidão. Seu direito a ela – diferentemente da escolha deliberada e sem base – é legítimo, pois é consciente e construída passo a passo, e não por incapacidade de tirar conclusões ou decorrente de outras mazelas humanas, como a do medo imposto de fora pra dentro ou a covardia trazida de berço.

E mesmo que toda esta preleção já tenha dado resposta às diferentes facetas de seu esquema de crenças, eu resumiria tudo o que escrevi acima nesta frase: se você não consegue deixar de acreditar em algo onde enxerga inconsistências, está claro que não cumpriu seu próprio caminho para emprestar-lhe legitimidade, e então sua crença veio de fora pra dentro e você não ousou questioná-la por uma dessas mazelas que acabei de mencionar. Tudo o que precisa fazer é livrar-se delas e enfrentar com firmeza e determinação o caminho que você mesmo construiu.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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