Espiritualidade Hinduísmo

O que é Bhagavad Gita?

Imagem de um monumento na Índia onde traz uma parte de um trecho do livro Bhagavad Gita.
Belyaev Viacheslav / 123RF
Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Quem segue a religião hindu conhece muito bem Bhagavad-Gita e sabe que se trata de uma obra de extrema importância. É o texto mais venerado pelos hindus e traz lições fundamentais para qualquer pessoa, seguidora ou não do hinduísmo.

Bhagavad-Gita significa “Sublime Canção”, “a canção (Gita) de Deus (Bhagavan) ou ainda “canção do bem-aventurado” e origina-se do sânscrito védico – antiga língua indiana, idioma dos Vedas, que são os mais antigos textos do conjunto de regras e princípios das escrituras hindus.

Trata-se de um capítulo do Mahabharata, um dos mais longos épicos clássicos indianos. O Mahabharata é tido entre os praticantes como o texto sagrado mais importante do hinduísmo e discorre sobre as três metas da vida humana (trivarga): dharma (o que define a ordem moral e social de todos os seres), artha (sustento, desenvolvimento econômico) e kama (vivência de toda forma de prazer).

Após cumprir essas metas, o homem está apto a alcançar o moksha, ou seja, a iluminação espiritual ou plenitude. As três metas são como degraus para o moksha.

Imagem de fundo branco e em destaque o livro fechado denominado Bhagavad Gita, uma obra importante da religião hindu.
Prashant Chauhan / 123RF

O que diz Bhagavad-Gita

Apesar de ser um pequeno capítulo do Mahabharata, Bhagavad-Gita consegue transpor, em seus curtos versos, os ensinamentos de todos os Vedas. Em seus 18 capítulos, a obra narra uma conversa entre o guerreiro Arjuna e Krishna, em um campo de batalha. Explicada em incidentes anteriores à Bhagavad-Gita, essa batalha se deu entre as famílias de dois irmãos, Dhritarastra e Pandu, herdeiros do trono. Como Dhritarastra nascera cego, Pandu assumiu o reinado.

Cada um teve sua família e seus herdeiros (os Pandavas, descendentes de Pandu; e os Kauravas, descendentes de Dhritarastra). O conflito começa quando o ambicioso Duryodhana, filho de Dhritarastra, tenta a todo custo derrotar os Pandavas após a morte de Pandu. Após várias tentativas frustradas, é deflagrada a guerra entre os primos.

A obra é um diálogo entre Arjuna e Krishna – que é o condutor da carruagem do jovem guerreiro. Logo no início, Arjuna pede que Krishna o leve para o meio da luta, onde poderá, então, estudar seus opositores. Logo se surpreende quando depara com seus próprios entes queridos do outro lado da batalha.

Imagem do livro Bhagavad-Gita aberto.
Radek Procyk / 123RF

Em meio a uma verdadeira crise interna, Arjuna paralisa totalmente, seu corpo treme, a boca fica seca. Como combater seus próprios parentes? Mas e se não lutar? São duas condições que, para ele, trariam igualmente sofrimento, uma vez que Arjuna é basicamente a representação do dharma – ou seja, daquilo que é correto (em oposição a seu primo Duryodhana, que vai totalmente no caminho contrário ao dharma). Mas se ele cumprir com sua obrigação, terá de matar vários de seus parentes, mesmo que seja para fazer a coisa certa.

O jovem guerreiro decide, então, desistir da luta, uma vez que não pode lutar contra aqueles que ama, e indaga a Krishna os motivos pelos quais precisa enfrentar seus próprios parentes, tarefa para a qual julga não ter forças. E, então, para aplacar esse sofrimento pela tomada de qualquer decisão, o jovem pede uma luz a Krishna, em busca de uma decisão que evite o sofrimento.

Para a surpresa de Arjuna, Krishna, então, explica o real sentido da batalha: é um conflito interno, que enfrentamos no nosso dia a dia e é fruto dos nossos problemas existenciais. Ao longo dos 18 capítulos de Bhagavad-Gita, Krishna ensina sobre o yoga e seus valores.

As simbologias

Arjuna, por muitas vezes, questiona a sua própria capacidade de vencer – ou mesmo de entrar na luta. Ele representa cada um de nós, pois também vivemos questionamentos se somos capazes, se estamos preparados.

Seus questionamentos são os nossos questionamentos diante da vida, o medo da tomada de decisões, de se livrar de alguns vícios, de fazer o que é certo, mesmo que isso tenha um custo. Porque escolher é ganhar e perder.

Krishna, como condutor da carruagem, simboliza o conhecimento, que guia o guerreiro em sua jornada.

Imagem de Krishna,  um dos avatares de Vishnu, é um dos mais famosos e fascinantes personagens do Hinduismo.
Artem Beliaikin / Unsplash

Os Pandavas são as nossas qualidades essenciais, valores, aquilo que temos de mais nobre. Em contraposição, os Kauravas são as nossas más índoles, defeitos, falhas. Seria fácil deliberar se olhássemos “de fora” para Pandavas e Kauravas, mas, no nosso interior, eles são partes de nós que cultivamos e pelas quais temos as nossas afeições, mesmo sabendo que elas não são boas para nós.

É por isso que se torna bem difícil se desfazer de um mau hábito. E mesmo ele sendo prejudicial em quase todos os momentos de nossa vida, é importante a sua existência para que valorizemos e fortaleçamos as nossas virtudes.

Os valores do yoga mencionados na obra

O ilustre diálogo entre Arjuna e Krishna contido nesse capítulo tão essencial da Mahabharata ensina valores perenes, atemporais e desprovidos de subjetividade, aquilo que podemos chamar de ética. Ou, como já falamos brevemente mais acima, dharma. Valores essenciais para qualquer pessoa, em qualquer circunstância, independentemente de religião (ou não religião), filosofia de vida, época ou região.

Esses valores, segundo bem retrata Swami Dayananda Saraswati, em seu livro “O Valor dos Valores”, são as “qualidades que a mente do buscador deve ter para alcançar o conhecimento do Ser”.

Nessa obra, Saraswati fala sobre eles de forma esquemática, e aqui vamos resumir de forma que você possa entender um pouco sobre aquilo que é ensinado a Arjuna em sua jornada de decisões, além de também poder fazer deles um norte para a sua própria jornada. Esses valores compõem o que podemos chamar de Código de Krishna:

Imagem de uma linda jovem usando um chapéu preto e um vestido florido. Ela está sentada lendo o livro Bhagavad-Gita.
Fa Barboza / Unsplash

1. Amanitvam: ausência de vaidade, arrogância ou necessidade de ser elogiado;

2. Adambhitvam: ausência de pretensão;

3. Ahiṁsā: não violência;

4. Kṣānti: pacífica adaptabilidade;

5. Arjavam: retidão;

6. Acāryopāsanam: dedicação ao mestre;

7. Śauchan: purificação;

8. Sthairyam: firmeza de propósito;

9. Ātma-vinigraha: comando sobre o pensamento;

10. Indriyartheśu vairāgyam: desapego em relação aos objetos dos sentidos;

11. Anahaṅkāra: ausência de identificação com as coisas do ego;

12. Janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam: reflexão sobre as limitações do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor;

13. Aśakti: ausência de apego à ideia de posse;

14. Anabiśvaṅgaḥ putradaragṛhādiśu: equanimidade afetiva;

15. Nityam samacittatvam iśtaniṣṭopapattiṣu: equanimidade constante;

16. Bhaktir avyabhicāriṇī: devoção inabalável;

17. Viviktadeśa sevitvam: apreço por um lugar tranquilo;

18. Aratiḥ janasamsadi: apreço pela solitude;

19. Tattvajñānārthadarśanam: foco e clareza na verdade;

20. Adhyātmajñāna nityatvaṁ: disposição contínua para o autoconhecimento.

Para que você consiga obter uma luz sobre como encontrar o caminho da evolução, é preciso ter em mente que escolhas serão feitas, e isso traz o peso das consequências, seja qual for a sua decisão.

Lute as suas batalhas, não se deixe iludir pelo conforto do status quo, em especial das suas falhas, pois elas se instalam com mais facilidade, já que em muitas das vezes te apresentam atalhos para “resolver” as questões da vida.

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Devemos agir com responsabilidade e consciência, assumindo todas as nossas ações, mas sempre tendendo a fazer aquilo que é correto, buscando sempre melhorar como seres humanos. Porque esse, apesar de aparentemente mais longo e trabalhoso, é o único caminho possível.

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