Comportamento

Cultura do cancelamento: as consequências dos boicotes virtuais

Imagem próxima da tela de um celular apresentando várias redes sociais
Pexels / Pixabay
Escrito por Eu Sem Fronteiras

No reality show “Big Brother Brasil 21”, um dos principais temas discutidos entre os participantes e o público foi o cancelamento. Essa expressão, que até então era desconhecida pela maioria da população, tornou-se cada vez mais disseminada na mídia e nas redes sociais. Mas será que todos entendem o que ela realmente quer dizer?

Observando o “BBB” como exemplo, podemos nos lembrar de pessoas que disseram “Eu não tenho medo de ser cancelada”, ou “Não tenho medo de cancelamento”. Então podemos deduzir que isso é algo ruim, até mesmo porque o termo “cancelar” dificilmente tem um sentido positivo. E muitos indivíduos já se dão por satisfeitos com essa “definição”.

No entanto, por que uma pessoa deveria temer o tal do cancelamento? E por quais motivos ela não teria medo de passar por ele? Para compreender essas questões, devemos estudar de forma aprofundada o que é a cultura do cancelamento. Afinal, quais efeitos ela pode provocar em um indivíduo? E como ela afeta a sociedade? Confira!

O que é a cultura do cancelamento?

Para compreender o que é a cultura do cancelamento, imagine a seguinte situação: uma pessoa pública disse algo que se tornou inadmissível para a sociedade (uma fala machista, racista, LGBT-fóbica ou capacitista, por exemplo).

Em resposta a isso, essa personalidade será maciçamente criticada nas redes sociais, visto que já deveria ter aprendido que esse tipo de comportamento é incorreto. Também se considera que tal figura pública precisaria utilizar a voz dela para disseminar apenas o que faz bem para a sociedade, e não o que pode prejudicá-la.

Assim, no Facebook, no Instagram e no Twitter, muitos serão os comentários de repúdio ao que essa figura disse, antes mesmo que ela tenha a chance de se desculpar. Poucas pessoas irão se dedicar a explicar onde esse indivíduo errou, porque a resposta parece tão óbvia que ninguém deveria perder o próprio tempo oferecendo esse auxílio.

Celular com a página inicial repleto de rícones de redes sociais
Tracy Le Blanc / Pexels

Além de todas as mensagens com alto teor punitivo, é provável que o trabalho dessa pessoa pública também passe por algumas mudanças. Como ela se tornou alvo de críticas intensas, precisará descansar a própria imagem por algum tempo para se preservar e para não prejudicar as marcas com as quais ela tem contrato.

A partir dessa situação, portanto, é possível definir a cultura do cancelamento. Primeiro, uma pessoa pública comete um erro. Essa atitude será divulgada em massa, com a velocidade da internet, e a celebridade será criticada nas redes sociais.

Depois, ela poderá tentar se desculpar ou dar um tempo nas aparições, para conter os danos associados à sua imagem. E com esse afastamento, e com a chuva de punições, ela terá sido cancelada.

Como saber se uma pessoa foi cancelada

Talvez você já tenha se perguntado se uma pessoa foi cancelada mesmo, ou se está apenas passando por uma crítica momentânea. É difícil definir uma regra para todos os casos, visto que eles podem ser muito particulares.

Menina aflita sentada com um celular em sua frente
antonioguillem / 123RF

Ainda assim, podemos observar que uma pessoa é considerada cancelada quando perde contratos de trabalho, quando não consegue fazer uma postagem sem ser criticada ou quando enfrenta comentários ofensivos ao realizar uma aparição ao vivo – no ambiente virtual ou na vida real.

É importante ressaltar que nem toda crítica é um cancelamento. Dependendo do que a figura pública disse e da maneira como ela se corrigiu, a onda de comentários negativos pode cessar rapidamente. Diferentemente disso, o cancelamento é um processo que dura mais tempo e implica prejuízos psicológicos e jurídicos a quem está sendo cancelado.

Consequências psicológicas do cancelamento

Ainda que o princípio do cancelamento seja positivo, já que ele tem como objetivo repreender um tipo de comportamento que prejudica outras pessoas, esse processo também pode ser nocivo.

Isso porque a uma pessoa cancelada é negado o direito de se retratar, de aprender e de se reconstruir a partir do que foi aprendido. Ao contrário disso, ela sempre será marcada pelo erro, como se não houvesse um passado antes dele ou um futuro depois dessa atitude.

Nesse sentido, o cancelamento é obviamente ruim para quem o sofre. Porém você já parou para pensar que ele pode ser ruim também para quem o pratica? A seguir, reflita sobre as consequências psicológicas do cancelamento.

Pessoa triste sentada abraçando as pernas
Pexels / Pixabay

Uma pessoa que é canceladora certamente já cometeu erros ao longo da vida. Provavelmente ela teve a chance de repará-los, ou nunca foi apontada como incorreta. Por causa disso, ela se sente no direito de punir e criticar os outros, como se fosse superior a eles.

Em um primeiro momento, quando esse indivíduo estiver sendo apoiado no ato de cancelar alguém por outros milhares de comentários negativos, a confiança dele irá aumentar. Terá aquela sensação de “eu tenho razão” e sentirá que promoveu uma mudança positiva no mundo, por ter apontado uma atitude incorreta para a sociedade.

E o que vai acontecer quando essa pessoa errar um julgamento? E se ela cometer algum outro tipo de erro? Como isso será interpretado pelo restante da sociedade e por ela mesma? A aprovação que antes fora conquistada com facilidade rapidamente se transformará em desaprovação. De canceladora, ela passará a cancelada.

Nesse cenário, os sentimentos que vão se manifestar são a insegurança, o desejo de se retrair e, por fim, a necessidade de conquistar o perdão, que esse indivíduo tanto negou a outras pessoas. Mesmo uma pessoa que nunca foi canceladora, ao ser cancelada, passaria por essas sensações.

Em primeiro lugar, a insegurança ocorre porque, sem entender onde errou, o indivíduo cancelado não terá certeza sobre quaisquer outras ideias que poderia proferir. Será que todas estão erradas? Apenas o aprendizado didático e paciente sobre o motivo do cancelamento poderia reverter essa sensação tão negativa.

Mulher com as mãos sobre seu rosto
Kat Jayne / Pexels

Como consequência disso, surge o desejo de se retrair. Quando somos resumidos por nossos erros, acreditamos que não temos algo positivo a oferecer, e que é melhor se isolar para não receber mais represálias. Assim, os comentários ofensivos fazem a autoestima da pessoa cancelada reduzir-se muito, podendo resultar em um quadro de depressão ou ansiedade.

Por outro lado, o perdão pelo erro cometido indicaria, para quem foi cancelado, que todos nós estamos aprendendo e mudando e que não somos totalmente bons ou totalmente maus. Esse gesto só poderia ser concedido, no entanto, se a pessoa cancelada estivesse realmente comprometida a agir diferente. E ela precisa que confiem nela para isso.

Consequências jurídicas do cancelamento

Muitas pessoas que são contra o cancelamento referem-se aos canceladores como “tribunal da internet”. Essa expressão é utilizada para dizer que há um grupo de indivíduos que se consideram capazes de julgar e de punir outras figuras, como se estivéssemos em um tribunal.

Mas há uma diferença primordial entre um tribunal de verdade e o tribunal da internet. Isso porque, de acordo com a justiça, todas as pessoas merecem um julgamento justo e podem vir a se retratar quando cometem erros.

O que vemos acontecendo na atualidade, entretanto, é que muitos equívocos se tornam imperdoáveis, e, se traçássemos um paralelo com a justiça de alguns países, seria uma pena de morte. A pessoa que errou deve ser cancelada da sociedade para sempre, como se não existisse mais. Se for lembrada, será lembrada pelo erro.

Martelo preto de juiz
Sora Shimazaki / Pexels

Porém é importante lembrar que em muitos casos as atitudes incorretas não são apenas um pensamento mal colocado. Há situações nas quais um erro é também um crime, e, nesse sentido, é preciso iniciar um processo legal para que a pessoa que o cometeu seja enquadrada na lei.

Além disso, os canceladores também podem estar sujeitos a alguns processos, dependendo da maneira como expressam as próprias opiniões. Afinal, ofender uma pessoa ou disseminar uma mentira sobre ela são atitudes que também configuram crimes, como injúria e difamação.

Ou seja, todos nós podemos criticar as atitudes incorretas de um indivíduo, e devemos exigir um posicionamento, principalmente se tais atitudes forem crimes. Apesar disso, precisamos tomar cuidado com as palavras que usaremos, para não divulgar mentiras ou ofensas a outras pessoas, que também são humanas.

Famosos que foram cancelados

Nada melhor para entender um conceito do que verificar exemplos sobre ele, não é? A seguir, saiba quais famosos foram cancelados de forma mais intensa e como eles deram continuidade às próprias carreiras, apesar das críticas.

1) PC Siqueira

O youtuber PC Siqueira é um caso marcante de cancelamento virtual. Em junho de 2020, um perfil do Twitter divulgou uma suposta conversa de PC na qual ele comenta de forma sexual sobre a imagem de uma criança de seis anos de idade.

Imediatamente após a disseminação do print das mensagens, antes mesmo de o youtuber ser considerado culpado pela justiça, todas as redes sociais foram tomadas por comentários negativos sobre PC. Ele deu declarações afirmando que jamais cometeu ou cometeria algo desse tipo.

PC Siqueira sentado em sua cadeira com um headphone
Reprodução / PC Siqueira

Posteriormente, um áudio no qual o youtuber declarava que “deveria ter traços de pedofilia” foi divulgado. Em seguida, PC apagou do Instagram a declaração de inocência que havia postado, mas manteve o post no Facebook. Então, Cauê Moura e Rafinha Bastos, que trabalhavam com PC no canal do YouTube Ilha dos Barbados, anunciaram o fim do projeto e lamentaram as atitudes do antigo colega.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo passou a investigar o caso, mas isso não importava para o tribunal da internet. Perante a opinião pública, o youtuber era culpado de um crime abominável. Para conter os danos à própria imagem, então, PC apagou seu canal no YouTube.

Depois de cinco meses do cancelamento, porém, PC voltou a postar vídeos no YouTube e afirmou que estava voltando. Mesmo assim, ele perdeu muitos contratos de trabalho – como a Rappi e a Johnnie Walker, por exemplo – e dificilmente conseguirá se reposicionar no mercado como antes.

2) Gabriela Pugliesi

A influenciadora digital Gabriela Pugliesi foi cancelada em abril de 2020. O motivo disso é que a celebridade, que já tinha sido contaminada pela Covid-19 no casamento de sua irmã, promoveu uma festa com os amigos durante a pandemia.

A festa passaria despercebida se a influenciadora não tivesse postado vídeos e fotos nos Stories do Instagram, ainda afirmando que estava despreocupada com a vida, em termos considerados chulos.

Gabriela Pugliesi de biquini sentada em uma escada posando para a foto
Reprodução / Gabriela Pugliesi

Essa irresponsabilidade de se aglomerar em um momento tão delicado, e fazendo pouco caso da Covid-19, foi condenada em poucos instantes. Além de perder milhares de seguidores em algumas horas, os comentários negativos sobre Pugliesi tornaram-se massivos no Instagram e no Twitter.

Para conter as ofensas no próprio perfil, portanto, a influenciadora ficou um bom tempo sem postar fotos e vídeos. Além disso, oito marcas encerraram o contrato com ela, para impedir que a repercussão negativa do caso se estendesse a elas. Por mais que estivesse longe das redes, Pugliesi continuava sendo um exemplo de má conduta.

Depois de três meses do ocorrido, entretanto, a influenciadora voltou para o Instagram com um pedido de desculpas. Em um vídeo, ela disse que aproveitou o tempo afastada para refletir sobre as atitudes que teve e para evoluir, garantindo que se arrependeu do que fez.

Aos poucos, ela conseguiu reconquistar uma parte do público que havia perdido e conseguiu novos contratos publicitários para voltar a obter uma renda financeira pelo Instagram. Porém há quem nem queira ouvir falar sobre ela novamente.

3) Karol Conká

A rapper Karol Conká foi convidada para participar da 21ª edição do reality show “Big Brother Brasil”, da Rede Globo. Ela integrou o grupo Camarote, ao lado de outros famosos, como Projota, Pocah e Fiuk. Ao entrar no programa, a imagem dela era bastante positiva, e muitos apostavam que ela venceria o jogo.

No entanto, o favoritismo de Conká foi perdido rapidamente. Depois que ela agrediu verbalmente os participantes Lucas Penteado, Carla Diaz e Juliette Freire, de forma muito intensa e injustificável, o público identificou uma desarmonia entre o discurso que ela pregava e aquilo que ela praticava.

Karol Conká em posicionada para a foto em um apartamento
Reprodução / Karol Conká

Isso porque, nas redes sociais e ao longo da própria carreira, Conká sempre defendeu a empatia, o cuidado com a saúde mental, o fortalecimento das mulheres e a defesa dos grupos em vulnerabilidade social. Dentro da casa, porém, fez até mesmo comentários xenofóbicos envolvendo a participante Juliette, que venceu a edição.

Como Conká estava totalmente isolada na casa mais vigiada do país, não sabia que estava errando e, portanto, não mudava os próprios comportamentos. O tempo todo, dizia que era uma pessoa debochada, que gostava de fazer comentários ácidos.

Ainda que essa postura mais combativa tenha sinônimo de uma mulher forte e bem resolvida, quando ela se converteu em ofensas e em exclusão de outras pessoas, tornou-se um motivo de cancelamento.

Além de ter sido eliminada do reality com 99,17% dos votos, quebrando o recorde de rejeição de todos os anos de programa, Conká perdeu contratos com marcas que a patrocinavam e passou por um processo de limpeza de imagem na Rede Globo.

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Primeiro, ela foi entrevistada no “Domingão do Faustão” e no “Fantástico”, recebendo a chance de pedir desculpas pelos excessos que cometeu. Depois, começou a ser produzido um documentário sobre Conká pela emissora, chamado “A Vida Depois do Tombo”.

Aos poucos, algumas pessoas começaram a perceber que ela poderia ser perdoada pelos erros cometidos, visto que um dos principais alvos da rapper, Lucas, perdoou-lhe. Inclusive a nova música que ela lançou, “Dilúvio”, chegou a um milhão de visualizações no YouTube.

Com base em todas as informações apresentadas, concluímos que o cancelamento virtual é nocivo para a sociedade. Apontar erros e crimes de figuras públicas é algo que todos devemos fazer, mas precisamos oferecer a oportunidade de essas pessoas serem corretamente julgadas e de se retratarem por aquilo que fizeram. Somente dessa maneira poderemos transformar a sociedade!

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