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A conturbada relação de uma aranha e sua mosca: aprendendo a lidar com portadores do Transtorno de Personalidade Narcisista – Episódio XV

É bem sabido que narcisistas são grandes manipuladores, acumulando sempre um arsenal praticamente inesgotável de ardis para exercer o máximo de controle sobre as pessoas ao seu redor, independente de serem ou não o centro de sua atenção. Em outras palavras, é claro que ele terá um objetivo bem definido com relação à vítima que já tem em mira, o que não quer dizer que as demais pessoas estarão livres de serem manipuladas, pois que, como mentiroso contumaz, na tentativa de não ter suas artimanhas descobertas, ele usará sua habilidade de dissimulação para manipular outras que possam ameaçar os seus planos.

Neste episódio, iremos colocar nosso foco sobre uma das formas mais cruéis de manipulação utilizadas pelo narcisista, pois que induz suas vítimas a duvidar até mesmo da própria sanidade quando faz uso de tal artimanha. A psicologia, há algum tempo, passou a chamar essa modalidade de manipulação de “gaslighting”, caracterizada por um tipo de persuasão em que o narcisista gradualmente faz a outra pessoa questionar a própria memória, percepção ou avaliações a respeito do que a rodeia, servindo de “cortina de fumaça” para induzir a vítima a duvidar da realidade.

Um homem manipulando cordas de um fantoche.
VALENTIN SUPRUNOVICH / Canva

O principal objetivo do artifício é deixar a outra pessoa completamente insegura em relação ao que pensa ou está afirmando, dessa forma, tenderá a acreditar que fez um julgamento precipitado, por mais evidências ou constatações que já tenha reunido a respeito. Pelo uso do “gaslighting” o manipulador não precisará de muito esforço para convencer o outro de que está cometendo um erro, pois que a pessoa começará a duvidar de si mesma pela frequência com que “falsos positivos” são introduzidos na sua linha de raciocínio. Ele poderá, por exemplo, repetir que a pessoa disse coisas que ela nunca disse, ou fez algo que, na verdade, não fez, de modo a deixá-la confusa e começar a duvidar da própria memória ou, pior ainda, até de sua sanidade mental. E quanto mais o fato se repetir, mais sua vítima passará a acreditar na narrativa perversa do manipulador e a duvidar de si mesma.

Esse tipo de tortura psicológica foi usada como tema de muitos filmes de drama por se tratar de um comportamento abusivo extremamente tóxico, em que o manipulador não poupa sua vítima de todo tipo de artifício que possa minar sua autoconfiança. O “gaslighter” pode conseguir que a vítima se sinta tão incapacitada para as coisas mais comuns do dia a dia, que, não raramente, começa a desenvolver sentimentos capazes até de fazê-la atentar contra a própria vida. Que não se subestime, portanto, os resultados a que uma ação desse tipo possa conduzir suas vítimas, pois ela vai acontecendo de forma gradual e sistemática, mas sutil a ponto de as pessoas não perceberem o que está acontecendo. Daí ser considerado uma das formas mais cruéis de se manipular pessoas, uma vez que, pouco a pouco, o abusador vai-lhe minando a energia vital até que a própria vítima desista de viver.

Pessoas no domínio de sua capacidade física e mental exibem uma sensação de conforto físico e estabilidade emocional para se sentirem confiantes nos ambientes em que atuam e em seus relacionamentos. Sabendo disso, o “gaslighter” buscará minar essa confiança, não permitindo à vítima desfrutar da necessária sensação de bem-estar que lhe mantenha o equilíbrio. Dentre os meios utilizados, a projeção do próprio comportamento no outro é um dos mais comuns, como acusar o parceiro ou parceira da traição que pratica, ou de fazer abordagens agressivas quando o abusador é quem habitualmente procede dessa forma.

Como sabemos, o narcisista sempre deseja controlar a vida dos que estão à sua volta, e um recurso de que frequentemente lança mão é jogar pessoas umas contra as outras na expectativa de destruir seu círculo de apoio. No caso do “gaslighter”, esse ardil particularmente é muito útil para destruir a segurança de suas vítimas e, assim, assumir controle total sobre elas. Quando consegue convencê-las a duvidar até dos próprios pensamentos, ele se sentirá no domínio absoluto da vítima, pois fá-la sentir que ninguém acreditaria em nada que ela contasse sobre a manipulação que sofre. O objetivo será manter suas vítimas sempre dependentes, e ele no controle total da situação, até tentando convencê-las de que todos lhes mentem, o que o torna especialmente perigoso.

Uma mão masculina apontando em direção a um homem.
leolintang de Getty Images / Canva

Um dos recursos mais comuns no “gaslighting” é o de provocar reações emocionais nas pessoas para depois acusá-las de agir de forma irracional, pois que isso reforçará a tese de que estão desequilibradas. Normalmente o artifício é usado de tal forma que a reação da vítima aconteça na presença de testemunhas, já que pode conseguir o apoio de terceiros para aumentar seu controle sobre a vítima. Em se percebendo a manobra, a melhor forma de reagir a ela é não entrar no jogo e manter a serenidade para que o estratagema não alcance o seu propósito. Diante da armadilha que tenta fazer com que a vítima seja vista como insana, a melhor forma de reação será resistir à provocação da forma mais neutra que se consiga e, principalmente, resistir a ideia de questionar o próprio comportamento. Se esse tipo de pensamento com frequência se fizer presente na cabeça da pessoa que o narcisista busca manipular, o melhor que ela pode fazer por si mesma é procurar ajuda, pois se essa ideia se tornar recorrente, é bem provável que ela acabe mesmo sendo afetada em sua sanidade. Na ausência de um especialista em saúde mental, conversar com uma pessoa com quem se mantém relações de confiança e não esteja envolvida no caso pode ser uma boa alternativa.

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Seja para se recuperar de uma relação tóxica ou se fortalecer para tomar uma decisão que a livre dela de uma vez por todas, a terapia pode ajudar bastante. Quando se perceber que não há nada mais a salvar na relação, não há solução melhor do que buscar o afastamento e cortar todo tipo de acesso pelo narcisista. Se bem que, em se tratando de narcisistas, dificilmente haverá um motivo que justifique a continuidade da relação, a menos que a “mosca” já esteja tão acostumada ao domínio da “aranha” que isso deixe de incomodá-la, o que é um forte sintoma de que o problema não está mais apenas no abusador.

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Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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