Convivendo Educação

Educação: urgência e compromisso social

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Alex Gabriel
Escrito por Alex Gabriel



Observando os reflexos da greve dos caminhoneiros já em seus primeiros dias, peguei-me entristecido diante do caos jamais causado por uma greve dos profissionais da Educação com duração de trinta dias ou mais. Não, em momento algum estou a desmerecer a greve dos caminhoneiros, o que seria atestado de excessiva humildade intelectual de minha parte.

A greve dos caminhoneiros foi justa e bem-vinda no sentido de atingir e, consequentemente, unir setores sociais diversos. Enquanto servidor da Educação, no entanto, não posso deixar de lamentar a notória ausência de comoção social diante das reivindicações dos professores e profissionais afins. A questão é complexa, mas podemos elencar algumas das muitas motivações para tanto.

O primeiro ponto a ser observado é o que há de óbvio nesse contexto. A greve dos caminhoneiros, bem como uma suposta greve da PM, dos rodoviários ou da Saúde (por mais sucateada que também seja), apresenta reflexos imediatos, que, de pronto, levam a uma reação social e, por conseguinte, governamental (ainda que insatisfatória ou até mesmo indecente).

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Tomando como exemplo a greve inicialmente mencionada, os efeitos apresentam-se a olhos vistos: trânsito caótico, lojas sem abastecimento, redução das frotas de ônibus, absenteísmo e até canibalismo animal. Uma greve de professores, no entanto, não resulta em nada instantaneamente: o trânsito não fica consideravelmente babélico, ninguém fica sem comer e as filas não se tornam quilométricas. Enfim, não acontece nada de imediato.

Sim, as consequências da falta de Educação não se dão em quatro dias ou meses, mas convém nos perguntarmos se o país e o mundo no qual vivemos hoje não seria resultado de décadas de má Educação (e, infelizmente, eu nem estou falando do filme do Almodóvar desta vez). Não quero me enveredar aqui por aquela romântica ideia da Educação que pode salvar o mundo, dado que os problemas do mundo são resultado de uma gama de fatores, não tendo a sua origem em um único elemento em especial (o que, convenhamos, nos possibilitaria soluções relativamente mais simples).

Não creio que a Educação seja “a solução”, mas estou certo de que seja ela um caminho decisivo, tal o seu poder de transformar pessoas – conforme defendido pelo grande educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire (1921 – 1997) –, capacitando-as à transformação social.

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Isso me faz lembrar daquela frase do antropólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997) exaustivamente compartilhada nas redes sociais:

“Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios.”

Premonição? Não. Apenas o raciocínio lógico de um homem lúcido que “profetizou” um Brasil com 622 mil presos, cada qual custando em média treze vezes mais que um estudante de Ensino Médio, e tantos outros candidatos à prisão livres em Brasília, tendo um custo infinitamente superior que qualquer cidadão comum… E aí revela-se um dos problemas básicos do nosso país: governantes que se dedicam ao tratamento dos sintomas, ignorando as causas…

Outro ponto a ser considerado é a notória desunião existente no âmbito da Educação, o que nos leva a fazer um recorte tomando como exemplo a Educação pública na esfera municipal ou estadual, subdividida em categorias cujas reivindicações comumente não convergem. Assim, tem-se um pessoal técnico-administrativo que não adere às reivindicações do pessoal do magistério, e tampouco se regozija com suas conquistas. Tais subdivisões se veem até mesmo entre os servidores técnico-administrativos.

Não estou de maneira alguma invalidando os intentos de cada categoria, até porque, se os governos fazem distinção entre elas, me parece justo que cada uma mostre a sua luta e o seu valor. É importante pensar, no entanto, o quanto se reivindica por interesses pessoais em detrimento da Educação propriamente dita. Reivindicar por aumento salarial e outras demandas financeiras é digno, justo e necessário, mas não é lutar pela Educação em si, cujas melhorias dependem, sim, do investimento financeiro, mas não com exclusividade.

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No que tange ao histórico descaso com a Educação pública, pouco se vê manifestação de revolta por parte dos professores do setor privado de ensino, da mesma forma que esses, em recente greve em Minas Gerais, não receberam apoio dos professores da rede pública. E, além de não encontrar unânime apoio entre si, professores também não encontram apoio dos pais dos discentes, que querem que os filhos recebam um ensino de qualidade – sobretudo se matriculados em uma escola particular, a quem cabe não falhar na entrega da mercadoria (o ensino) mediante o pontual e dispendioso investimento –, mas não querem envolver-se de verdade na luta por uma Educação de qualidade.

Não há dúvida quanto à necessidade de cada categoria fazer, isoladamente, suas reivindicações, dadas as especificidades das demandas de cada uma. As questões aqui levantadas, porém, visam a reflexão sobre a real importância que nós, enquanto profissionais da Educação e enquanto sociedade, damos à Educação propriamente dita.

Longe de mim eximir os nossos governos de sua responsabilidade no tocante à Educação, mas penso que não podemos ser hipócritas ao ponto de atribuir ao governo a responsabilidade exclusiva pelas deploráveis condições da Educação brasileira, eximindo os próprios profissionais da Educação, pais, mídia e sociedade de modo geral de sua responsabilidade. Isso é fato: nem à direita e nem à esquerda surgirá um governo, por mais bem intencionado que seja, que dilua todos os problemas da Educação sem que antes haja uma mudança no seio da sociedade brasileira, da qual o governo é apenas reflexo.

Há que se mencionar os discentes nesse contexto – peças-chave no processo de ensino-aprendizagem –, dado o descaso com que são tratadas suas manifestações, como ocorrido durante as bem-vindas ocupações nas escolas em 2016, pensadas como forma de oposição à reforma do ensino médio e à implementação da PEC 241, acabando por, oportunamente, abranger outras demandas específicas da Educação no Estado, no município ou da escola especificamente.

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Praticamente ignoradas pela mídia, não raro as ocupações tiveram os seus pontos fracos exaltados por alguns, muito embora esses pontos fossem compreensíveis, dada a naturalmente restrita bagagem teórica dos manifestantes, bem como os problemas característicos de toda e qualquer forma de protesto. As ocupações, contudo, representaram um importante momento de politização de alunos das escolas públicas pelo Brasil afora.

Faz-se necessário, a partir de então, seguir com o protesto por meio do afinco nos estudos, do respeito e valorização dos docentes, do uso da biblioteca escolar, do estudo extraclasse, da proposição de projetos e melhorias para a escola, da leitura e, sobretudo, da compreensão da Educação como um direito.

Todo estudante já é um agente de transformação no momento em que se percebe com alguém que estuda com o propósito primeiro de melhorar o mundo que o cerca, decidindo-se, a partir daí, pelo melhor desempenho possível de seu papel.
Pois a luta por uma Educação de qualidade não pode restringir-se ao discurso, e isso, infelizmente, não vale apenas para os jovens…

Vivemos em um país cujo grande valor da Educação raramente extrapola as barreiras do discurso. Discurso esse que, merecidamente, exalta o papel do professor, mas não condiz com uma prática na qual, como se não bastasse não valorizá-lo de fato, atribui-se a ele total responsabilidade sobre o processo de ensino-aprendizagem.

Não sejamos ingênuos. O professor tem, sim, o protagonismo nesse contexto, mas por trás dele há toda uma equipe técnico-administrativa da qual também depende o sucesso do processo de ensino-aprendizagem, mesmo que indiretamente; há toda uma família que pensa que o seu compromisso com a Educação restringe-se a matricular os filhos em uma instituição de ensino; há toda uma mídia que não alardeia as questões pertinentes ao contexto educacional, ditando, assim, aquilo com que a sociedade deve ou não se importar. E há toda uma sociedade, que toma as ruas para fazer carnaval, para defender criminosos e até para pedir ditadura; uma sociedade que viraliza o último clipe da Pablo, que forma juízes e juízas por meio do Facebook e fomenta a desinformação e a violência por parte de quem dá à política tratamento equivalente ao que se dá ao futebol, sem nunca abrir os olhos para a urgência do real investimento – o qual transcende o financeiro – em uma Educação viva e consciente pautada na cooperação, na alteridade e no autoconhecimento em lugar da competitividade e da (des)informação.

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É de todos a responsabilidade sobre a Educação, sendo o compromisso com ela não um sinal de bondade ou elevação espiritual, mas exercício da cidadania. Vai na contramão desse exercício o pai que, ao optar por matricular o filho em uma escola privada, exime o governo de sua responsabilidade com o ensino público; os professores e demais servidores da Educação cujas reivindicações se restringem às demandas financeiras, por mais reais e dignas de serem atendidas que elas sejam; a mídia, que repercute a vingança da protagonista da novela, a polêmica em torno da exposição artística ou qualquer outro tema que seja interessante para ela, sem nunca colocar a Educação no cerne das discussões; os discentes, que veem o estudo mais como um árduo dever, um fardo, do que como direito; os pais, alunos, educadores, pedagogos e demais profissionais da Educação que nela não acreditam de fato.

Isso me traz à mente uma antiga charge que, pegando carona na última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, fazia uma crítica ao tratamento dispensado ao ensino público. Numa sala de aula em condições deploráveis, havia no quadro negro a frase “É frequente o descaso com o ensino público”, ao que a professora -, fazendo referência à ausência do trema no advérbio “frequente” – pergunta aos discentes o que havia mudado na frase, ao que um deles responde “Nada!”. Essa, infelizmente, é a verdade. Nada mudou nessa frase, e assim será enquanto não houver, de nossa parte, uma revolução com fulcro numa revisão de valores e estabelecimento de novas, nobres e mais elevadas prioridades.

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Sobre o autor

Alex Gabriel

Alex Gabriel

Mineiro de Belo Horizonte, Alex Gabriel é graduado em Letras e especialista em Revisão de Textos pela PUC Minas. É poeta, pai adotivo das vira-latas Diva e Nathalie, tem sempre um bom livro a tiracolo, acredita na Educação e vive cheio de fé na humanidade.

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