Reflexões do editor

Entre jabuticabeiras

Árvore Jabuticabeira
caritaliberato/123RF
Anna Bheatriz Nunes
Escrito por Anna Bheatriz Nunes

É primavera, minha estação preferida e também a que nasci. O prazer de acompanhar o florescimento das plantas, de sentir o sol mais quente. Sinto-me com mais vitalidade. O início de um despertar após a interiorização necessária do inverno. E, com a nova estação, vêm os frutos, resultados de longos tempos de espera. As jabuticabeiras me ensinaram isso.

Não costumava andar por novos caminhos e então resolvi mudar. Ao encontrar uma outra rota para uma caminhada, acabei me deparando com um pomar. Eu sempre amei pomares, porque minha criança interior se sente livre. E neste havia muitas jabuticabeiras. Todas com frutos verdes e flores delicadas. Fiquei parada contemplando a beleza do tempo. Fui embora, mas certa de que voltaria para ver os frutos maduros. Depois de alguns dias, fui novamente ao pomar e vi jabuticabas tão maduras, que o chão estava enlameado. Como o local era privado, pedi para colher algumas e assim entrei em um outro mundo.

Jabuticaba com gotas de água pendurada na árvore
caritaliberato/123rf

Havia chovido por dias e estava muito úmido. Cheiro de terra molhada, o aroma que me faz sentir em casa. Passei por uma pitangueira até chegar no que chamei vale das jabuticabeiras. Eram mais de 20 árvores. Eu estava entre elas, em suas sombras, colhendo jabuticabas. Li uma lenda cabocla que diz que a jabuticabeira demora muito a dar frutos e que, quando acontece, tem o desejo de gritar e anunciar para a floresta. E geralmente quem a planta não colhe os frutos. A sua essência floral ensina partilha e generosidade a pessoas de personalidades egoístas, gananciosas.

Entre os sons da mata, das borboletas, pássaros e insetos, parei para pensar na incrível oportunidade que estava tendo. Alguém que não comeu aqueles frutos, plantou as árvores certamente inspirado pelo espírito da jabuticabeira, pois foi um ato de generosidade. Não se importou com o fato de não ter sido o primeiro, pois sabia que a partilha é o que importa, independente do tempo. Há um ditado árabe que diz: “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras”. Porque, no passado, as tamareiras demoravam de 80 a 100 anos para que dessem as primeiras tâmaras. A natureza é muito abundante e generosa, mas nos ensina que acima de tudo o que mais importa é o respeito ao próprio tempo. Cada árvore não apressa a revelação de seus frutos. Pelo contrário, passa pelo estágio de recolhimento, de florescimento até que esteja madura o suficiente para compartilhar. E assim é conosco. Temos um tempo próprio que não segue o calendário e o ritmo de vida acelerado e impositivo da atualidade. Não há cobrança na natureza e sim aceitação. Por isso os olhos precisam estar abertos para enxergar, já que tudo ao redor é espelho do que somos por dentro.

O escritor Ricardo Gondim escreveu uma reflexão sobre o tempo e as jabuticabas nos seguintes versos de um poema:

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Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora

Tenho muito mais passado do que futuro

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas

As primeiras, ele chupou displicentemente

Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço

Saí do pomar com um enorme sorriso, uma sacola cheia de jabuticabas, reflexões e a vontade de compartilhar palavras e frutos no tempo certo.

Sobre o autor

Anna Bheatriz Nunes

Anna Bheatriz Nunes

Eu sou Anna Bheatriz Nunes, arquiteta, urbanista, escritora e poetisa. Autora do livro de poemas "da distorção à transformação", publicado pela Ape'Ku Editora. Expresso-me para dar vazão ao que sou e para me encontrar. Que as nossas expressões criem belos encontros!

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