Convivendo

Escreva algo, aqui, para um recomeço

Vista de uma cidade de uma janela com o vidro molhado.
Daniella de Paula
Escrito por Daniella de Paula

Chovia impetuosamente nessa segunda-feira. Como de costume, esqueci o guarda-chuva. A impaciência que sempre me falta nesses momentos começou a me guiar pelos espaços cobertos. É dia, mas o escurecer precipitado do céu faz os moradores dos edifícios ligarem as luzes. Que bonito! É nessa hora que prestamos atenção na cidade que também se encharca ao nosso lado.

Banhos gratuitos proporcionados por condutores de automóveis, tão impacientes quanto eu, tornavam o caminho mais árduo com suas derrapadas. Embaixo de um espaço coberto, esperando a força do temporal passar, encontro um cartaz que tenta dialogar com quem ali se abriga: “Escreva algo, aqui, para um recomeço”.

Encontrei nesse pardo papel inspirador, meio colado, meio puxado, algumas palavras de quem, antes de mim, também se molhava.

Encontrei nesse pardo papel inspirador, meio colado, meio puxado, algumas palavras de quem, antes de mim, também se molhava: gratidão, justiça, amor, sabedoria e pão — as que me lembro. Tentei inferir o sentido de cada “conselho” contido ali. Nunca me dei bem com conselhos, mas procurei na mochila uma caneta para escrever algo. No entanto, como quem só espera uma oportunidade, saí correndo quando a chuva estiou.

Não escrevi nada no cartaz. Não escrevi nada para um recomeço, como pedia. Muitas virtudes foram escritas, ainda bem, sabemos muito bem por onde seguir. Mesmo que isso nos custe um pouco mais de coragem, otimismo e coerência.

Casal tomando chuva juntos de frente um para o outro.

Talvez o pão simbolize todos os alimentos que podemos ter. Aqueles que comemos e aqueles que alimentam nosso bem-estar, afetos e encontros. Por falar em encontros, há uma pequena chance de nos esbarrarmos por aí, mas, se isso acontecer, podemos nos tornar grandes amigos com as virtudes oferecidas por esse cartaz. Também podemos ser pequenos, não tem problema algum. Quando cabemos em um cantinho, conseguimos buscar quem se apequena e mudar sua direção.

Talvez o pão simbolize todos os alimentos que podemos ter. Aqueles que comemos e aqueles que alimentam nosso bem-estar, afetos e encontros.

A verdade é que cada cartaz de nossa vida vai sendo riscado por todos os momentos que vivemos. As virtudes que cultivamos ou não, também. Não é preciso escrever nada, mas, para um recomeço, talvez seja bom pensar: com todos os dissabores e obstáculos, com menos ou mais dores, vamos em frente – juntos – porque nós ficamos muito bem. Assim, de mãos dadas.


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Sobre o autor

Daniella de Paula

Daniella de Paula

Daniella de Paula é redatora. Propõe breves reflexões sobre a vida cotidiana.

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