Autoconhecimento

Fetos de areia

Certa tarde, na praia, moldei duas formas na areia. Formas distintas de si. Depois de uns minutos esperando elas ganharam, finalmente, vida. Contente, contei-lhes como eram frutos de minha criação.

Ambos me olhavam admirados e sem entender. Estava pronto para lhes contar mais sobre de onde vieram e o que eram, mas fui interrompido pelo chamado de minha mãe. Era hora de ir. Me despedi dos dois novos seres e me fui.

As pobres criaturas ficaram sós.

Logo notaram a presença uma da outra. Passaram a conversar. Quem é você?, perguntou o primeiro. A pergunta surtiu efeito profundo nele no que respondeu – Não sei! E você quem é? – E este também não sabia respondê-lo.

Paisagem de praia, um coqueiro está a esquerda e faz sombra na area, o céu está azul mas há nuvens.

Começaram a olhar a sua volta e nomear as coisas. Viram a água, as árvores, as nuvens, pássaros e a areia. Depois de dar nome a tudo o que podiam ver e notar, deram nomes a si mesmos. O primeiro chamou a si de cubo e o segundo de esfera.

Agora tinham denominações para si, que os diferenciavam de todo o resto. Depois de um tempo, começaram a focar demais nessas diferenças e, por não encontrarem nada tão parecido com eles, passaram a se sentir especiais. Acreditavam ter mais importância que tudo ao seu redor.

Mas essa prepotência que crescia não parou por aí. Ambos começaram a perceber as diferenças entre si. Logo começaram a discutir sobre suas formas e cada um defendia que a sua seria superior a do outro. Surgiu disso uma rivalidade que aos poucos se tornava ódio.

Praia no por do sol o céu está com tons de azul e laranja.

Nenhum deles admitia algo de bom no outro. E, nessa guerra, passaram horas. Fecharam os olhos para as belezas ao seu redor e para as suas próprias, só o que importava era provar sua superioridade diante do outro.

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Nem notaram o sol se pôr e a maré subir. Maré que os alcançou e os desmanchou no mesmo instante. Se desfizeram e sem nem notar abandonaram a existência. E na sua breve passagem por aquele mundo que chamavam praia, voltaram a ser areia, sem nunca perceber que areia sempre foram.


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Sobre o autor

Andrews Amoramar

Anos atrás surgia por estas terras um pequeno garoto, um garoto que amou logo de cara o que viu. Um pequeno sonhador, explorador do quintal de casa, curioso pelas coisas afora. Esse pequeno amava desde cedo criar, e explorava sua criatividade com uma folha e lápis na mão, desenhando seus personagens preferidos.

Os anos passaram e o pequeno esticou em tamanho, porém a curiosidade e a ânsia em criar se mantiveram as mesmas. Hoje o garoto tem novas ferramentas e conhecimento para explorar mais e mais. Hoje o quintal é maior, relativamente maior. As experiências muito mais desafiadoras e às vezes assustadoras, mas o desafio maior é manter viva a alegria do garoto, mesmo em meio a tantos obstáculos.

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