Convivendo Educação

O maior desafio a vencer é vencer o desafio proposto

Não, não é um simples trocadilho. Por favor, caro leitor, leia com atenção. Na verdade, esse foi o maior desafio da proposta do ENEM: a leitura e compreensão do enunciado. Claro que como muitos a minha primeira reação foi: “Meu Deus! O que é isso! O que o governo quis com esse tema?”. Mas como disse, foi uma primeira forma de expressar-me. Foi uma surpresa que se fazia por um misto de alegria e tristeza. Alegria porque finalmente o tema “Educação dos Surdos” acabara de ganhar um espaço de grande representatividade na sociedade brasileira, já que o ENEM tem essa força de provocar discussões em torno de várias questões de interesse da sociedade. E por outro lado tristeza por pensar em quantas coisas poderiam ser ditas sem conhecimento dos participantes em torno das questões que envolvem a Comunidade Surda.

Sim. Comunidade Surda. Essa minoria linguística que há muito luta pelo direito a ter uma educação de qualidade, deve ter visto na proposta alguma luz no fim do túnel. Temos a cultura de pensar algumas questões com olhar dicotômico, mas se analisarmos bem a proposta e tentarmos fazer uma análise discursiva, muitas hipóteses poderiam ser levantadas, e, como não pretendo polarizar a discussão, gostaria de expor minhas impressões a respeito.

Sendo assim, a primeira a coisa a pensar é no fio condutor que o ENEM tem procurado suscitar em suas propostas de redação. Nem preciso citar aqui todos os temas ou os últimos, porque é do conhecimento dos envolvidos com a educação que os temas têm sido para discutir questões polêmicas e relacionadas às minorias.

O problema nesse caso específico é que aqueles que ficaram indignados e procurando um argumento para rechaçar a proposta desconhecem o fato de que a Comunidade Surda é uma minoria, porém, linguística, ou seja, são “falantes” de uma língua de sinais. Podem ser oralizados ou não, usar aparelhos de amplificação ou não, mas todos vivem em meio a uma comunidade oral-auditiva majoritária, tendo necessidades educacionais especiais, o que significa dizer: precisam de outros recursos, equipe multidisciplinar, professores bilíngues e de preferência surdos. Além disso, é necessário o acompanhamento fonoaudiólogo, afinal, tudo que lhes permitam viver em sociedade ouvinte deveria ser oferecido, cabendo a cada um escolher qual forma de comunicação lhe convém melhor.

Devo observar que a leitura dos textos de apoio com atenção poderia contribuir com algumas hipóteses que dariam margem para a dissertação dos participantes, se eles tivessem tido em algum momento da escolarização uma discussão sobre o tema ou se tiveram contato com surdos na escola. Mas como discutiriam os professores, como exigir isso se nem mesmo muitos destes têm arcabouço teórico ou conhecimento prático sobre o assunto para fazer uma reflexão?

Dito de outra forma, o maior desafio para a formação educacional dos surdos no Brasil começa onde? Na formação de professores, é claro! A intervenção neste caso é um investimento das políticas públicas na base da educação, nos cursos de graduação e pós-graduação em universidades públicas e privadas. A Libras deveria fazer parte do currículo desde a Educação Infantil, para que houvesse desde cedo uma comunidade bilíngue tanto na escola, como em outros espaços. Assim, a educação desses brasileiros não falantes e não ouvintes lhes dariam os direitos que são negados pela impossibilidade de acessar determinados contextos de trabalho. Os surdos podem ser plenamente competentes em qualquer área de atuação, basta que lhes seja dada uma educação de qualidade desde a mais tenra idade.

Mas prezados leitores, a educação que os surdos querem está longe de acontecer em todo o nosso país. É verdade que alguns municípios têm investido e oportunizado algumas estratégias para propiciar uma formação adequada e dentro do território linguístico dos surdos, mas infelizmente não é uma realidade nacional.

Faltam materiais didáticos adaptados, investimento em tecnologia, livros em suporte digital e sinalizado, intérpretes bem qualificados nas salas de aulas, apoio no contraturno com aulas de português com professores bilíngues, etc. Na verdade, a maior reivindicação da Comunidade Surda é de escolas bilíngues. Se a atenção do Governo não se voltar aos surdos, continuaremos a assistir essa inclusão que exclui e estigmatiza essa parte da população. Eles são pessoas que merecem respeito.

Voltando à proposta, se pensarmos em ferramentas de governamentalidade, o assunto veio bem a calhar. Com os cortes que o governo fez com as verbas para educação, a avaliação serviu mais uma vez de grande peneira, afinal, quem conseguiu uma boa nota? Só aqueles que tiveram contato com surdos, surdos que tiveram a sorte de aprender a redigir um bom texto e compreenderam o enunciado, ou aqueles que já estão cursando ou fizeram algum curso de Libras em algum momento de suas vidas. Ao que parece, a avaliação desta vez surpreendeu também os alunos da “elite” brasileira.

Como podem perceber muitas são as direções que essa discussão pode tomar, mas o que me importa mesmo, e acredito que para todos aqueles que se dedicam à educação dos surdos e à própria comunidade surda, é que a proposta colocou o assunto na mesa das discussões. Tomara que a repercussão disso seja produtiva e que finalmente o governo dê a resposta que os surdos esperam há muito tempo.

“Temos uma língua própria, Senhor Ministro, precisamos de escolas que adotem essa língua, a língua de sinais brasileira, como primeira língua para instrução e para o convívio social. Por não atender a essa necessidade linguística, o fechamento de escolas e classes específicas para surdos não resultou em uma ampliação das matrículas de alunos surdos e com deficiência auditiva, mas em uma exclusão de milhares desses alunos do sistema educacional do país.”

CARTA ABERTA DOS DOUTORES SURDOS AO MINISTRO MERCADANTE, MINISTRO DA EDUCAÇÃO. 08 de junho de 2012.

Sobre o autor

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Prof.ª Dra. Ruth Maria Rodrigues Gare

Doutora em Educação com pesquisa na área de letramento de surdos e formação de professores. Formação em Publicidade/Propaganda; Letras e Pedagogia. Especialista em Libras, Educação Empreendedora, Gestão Escolar, Design Instrucional EaD e Aperfeiçoamento em Atendimento Educacional Especializado. Pós-doutora em Educação pela Universidade São Francisco com pesquisa na área de educação de surdos em aspectos linguísticos textuais. Atuou como docente de Libras na Universidade São Francisco por 7 anos e como docente em curso de pós-­graduação de Libras com disciplinas voltadas ao ensino de português ao surdo e produção de material pedagógico na Faculdade de Jaguariúna. Atualmente é docente com dedicação exclusiva na PUC­ Campinas onde atua desde 2014, quando do regresso de doutorado sanduíche na Universidade do Minho em Portugal.