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Lucid Bag: conheça o guarda-roupa compartilhado

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Imagine poder trocar ou emprestar suas roupas para desconhecidas? É assim que funciona o Lucid Bag, um guarda-roupa compartilhado e construído por várias pessoas, uma espécie de comunidade de empréstimo e aluguel de roupas e acessórios. Conversamos com Luciana Nunes, criadora do negócio. Confira a entrevista e renda-se a um consumo mais sustentável:

Eu sem Fronteiras – Me fale um pouco de você, onde nasceu, cresceu, estudou e mora:

Luciana Nunes – Nasci no Acre, em Rio Branco, mas minha família é toda mineira, meu nascimento lá foi meio que por “acidente”. Fiquei seis meses só e logo fui para Belo Horizonte, morei na cidade por 11 anos. Depois, meu pai foi transferido para Goiânia e permaneci lá por muitos anos, me formei na faculdade e, por isso, tenho uma ligação muito forte com a cidade. Meus pais continuam morando lá, então uma vez por mês acabo voltando; estamos abrindo um Lucid Bag na cidade em abril.

Sou jornalista, sempre trabalhei na área e tive, há uns 7 ou 8 anos, uma agência de comunicação digital. Fazíamos conteúdo para muitas marcas, principalmente, de moda. Trabalhamos para a Cavalera, Cás, Traslaton e várias outras marcas de moda, não apenas de SP, mas do Brasil também. Eu já estava insatisfeita com essa área, não só de comunicação, porque eu gosto, mas, principalmente, com os clientes de moda. Apesar de gostar muito do tema, não concordava com muitas estratégias que a gente tinha que usar para alavancar as vendas, e queria propor algo nesse mercado, mas que fosse realmente diferente do que se conhecia.

ESF – Como nasceu o Lucid Bag?

Luciana Nunes – Em 2014, fui para a Espanha fazer um curso para abrir minha cabeça, descobrir o que eu gostaria de fazer e acabei tendo uma ideia maluca. Na época, ainda não existia nada sobre guarda-roupa coletivo, que pudesse ser utilizado entre a comunidade para variar os looks, e para que as trocas de roupas pudessem acontecer sem a nossa necessidade de ter que comprar. Então, a primeira coisa que eu fiz foi colocar o meu guarda-roupa à disposição para começar o negócio, e a partir daí várias pessoas se interessaram e começaram a entrar e a contribuir.

Hoje, temos 25 meninas que contribuem para o guarda-roupa, não só colocando as roupas para empréstimo, como também assinando o guarda-roupa e utilizando-o semanalmente, de 10 em 10 dias, pegando peças e depois devolvendo. Então, o LUCIDBAG nasceu dessa forma, de uma vontade minha de fazer diferente no mercado de moda, algo que fosse mais sustentável e que pudesse nos ajudar a ter uma atitude mais consciente, na forma como nos relacionamos com o consumo de moda.

ESF – A vontade de criar o negócio veio de onde?

Luciana Nunes – Surgiu da vontade de fazer algo em moda que fosse diferente e mais sustentável. Após alguns estudos e visitas que fiz lá em Barcelona, já tinha visto ideias parecidas para outros tipos de negócios, inclusive uns brechós com ideias bem legais e especiais em moda, e levei isso para o âmbito de algo que fosse emprestado, alugado, que pudesse ser coletivo, mas que depois voltasse para o mesmo lugar, que várias pessoas pudessem usar. Hoje, temos por volta de 25 a 30 assinantes em cada local.

Ainda é pouco, mas o projeto tem agora mais ou menos um ano e meio, então eu já considero uma conquista muito grande, porque é algo ainda muito novo no mercado. As pessoas não conhecem, mas a recepção tem sido maravilhosa, todo mundo tem gostado muito, as meninas que são assinantes são realmente pessoas assíduas da comunidade, estão sempre nos nossos guarda-roupas. Têm rolado alguns pedidos de outras cidades, então já consigo ver interesse de outras áreas também, a procura tem sido muito legal, principalmente, para emprestar as roupas.

Além do guarda-roupa ser compartilhado, um dos nossos princípios é compartilhar o lucro também, então a pessoa que está emprestando a peça sabe exatamente quanto a gente está ganhando com o empréstimo, para onde vai o dinheiro e quanto ela ganha com isso também.

ESF Como funciona o Lucid Bag?

Luciana Nunes – Hoje temos três guarda-roupas físicos. Em São Paulo, um na Vila Madalena e outro na Barra Funda. Estamos abrindo agora em abril, em Goiânia, e se tudo der certo, até junho ou julho devemos inaugurar também em Brasília e no Rio de Janeiro. Fora esses guarda-roupas físicos, temos o site, porque se outras pessoas de outros lugares quiserem pegar emprestado e alugar, elas têm essa possibilidade. O funcionamento é um pouquinho diferente. Com os guarda-roupas físicos, trabalhamos por assinatura mensal, com pacotes de 50, 150 ou 300 reais, para utilizar durante o mês. Isso dá o direito a elas utilizarem 3 bags no mês, com 5 peças cada bag. A usuária vai no guarda-roupas, pega 5 peças, leva para casa, usa alguns dias e devolve, pega mais 5 e por aí vai.

Conseguimos fazer isso 3 vezes, com esse valor de 50, 150 ou 300. A diferença entre os preços é a qualidade e o quão especiais são as peças que a usuária precisa pegar. Por exemplo, se ela quer peças para usar no trabalho, na faculdade ou em festinhas, as de 50 e de 150 atendem muito bem. A de 50 tem peças bem legais, mais festfashion e simples. A de 150 começam a ter itens de mais qualidade, especiais e com alguns designs assinados. O de 300 é bem voltado para roupas de festas, então se a usuária é uma assinante de 150 ou menos, mas tem um casamento para ir, consegue aumentar para 300 e montar todo o look em uma das bags, da mesma forma.

Nos guarda-roupas físicos, temos trabalhado dessa forma, nos site online você tem os mesmos looks. Caso a bag tenha 5 peças, entre eles eu mando 1 item surpresa que pode ser um line, um disco, um quadro ou um cosmético. Não precisa ser, necessariamente, ligado à moda, e a usuária também devolve junto. As outras quatro são peças de moda, ajudamos a escolher 1 item principal do look, 1 peça complementar, 1 acessório, 1 outra peça que a gente chama de “peça de batidão”, como uma camiseta ou uma saia para ela usar no dia a dia e o item surpresa. Já no online, a pessoa pode alugar esse mesmo look, em qualquer lugar do país.

São os mesmos valores, mas a diferença é que a pessoa não é assinante, ela não vai ter como receber 3 bags no mês, vai receber somente 1 bag, para poder usar e devolver em 10 dias.

ESF Qual é o objetivo?
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“@cibellebrito toda iluminada de Lucid Bag nesse sábado para ser madrinha de um casamento temático anos 50. Olha só @raissanosralla seu vestido vivendo novas histórias e o dinheirinho entrando na conta.” Imagem retirada do Facebook.

Luciana Nunes – O principal objetivo é incentivar e fortalecer o movimento do Zunn Fashion, tentar trazer de volta, para circular no mercado, peças bonitas, especiais que, muitas vezes, ficam no nosso guarda-roupa, por falta de ocasião de uso ou de identificação. Ás vezes, você muda o estilo, mas a questão é que outras pessoas podem se identificar com suas roupas e dentro dos meus estudos – porque fora o LUCID BAG, estou estudando muito a área, principalmente, o guarda-roupas compartilhado, para concluir o mestrado – estamos tentando criar realmente teorias e produção de conhecimento em cima do tema e uma das coisas que eu percebi é que hoje, na moda, você tem algumas possibilidades de Zunn Fashion, mas todas voltadas para peças que você já se desapegou.

Então, uma roupa que você sabe que não vai querer mais, consegue trocar com outra, colocar no ENJOEI ou em brechós e vender. Mas e aquela peça que você é muito apegado, porque ela tem um valor afetivo ou econômico grande? Ás vezes, várias peças que a pessoa não usa há uns 3 anos, ela não consegue desapegar para fazer uma troca ou uma venda, porque existe uma ligação muito forte com aquela roupa, e aí a peça fica lá no guarda-roupas parada.

A intenção do Lucid Bag é colocar para circular essas peças que estão esquecidas nos guarda-roupas das meninas e, consequentemente, diminuir as compras por impulso, porque quando você começa a perceber o tipo de peça que está comprando e deixando parada, começa a se conscientizar também das compras mal feitas e desnecessárias que tem feito.

ESF Você acha que a moda e a sustentabilidade estão cada vez mais ligados?

Luciana Nunes – Com certeza, agora é inevitável fazer essa relação. Nós chegamos em um momento climático muito difícil, acompanhamos muitos desastres, o assunto está muito forte na mídia, tanto externa quanto interna. As marcas já estão tendo que se virar para atender essa demanda, são pessoas que realmente são mais engajadas politicamente, mais conscientes do que tem acontecido no mundo e que despertaram para o conhecimento de que a gente pode fazer sim, a diferença.

Muitas vezes, achamos que fazer isso é pouca coisa para o tanto que o mundo precisa, mas esquecemos que a politica é assim, é micropolítica. Começamos primeiro pelo meio da moda, então podemos ver que até a festfashion está tentando se adequar a esse lado mais sustentável e é uma tendência. Quando eu apostei nesse negócio, além de ser algo que eu acreditava muito, era bom para o mercado também, porque tenho certeza que é uma tendência que só tende a aumentar.


Entrevista realizada por Angelica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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