Convivendo

O cínico e o político

Homem barbudo coma mão em seu óculos.
Luis Lemos
Escrito por Luis Lemos
O cinismo é uma maneira contraditória de ação humana. Ele pode ser identificado no famoso ditado: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. No Brasil atual, em vários campos da atuação humana, na religião, na economia, etc, o cinismo ressurge com força total. São inúmeras as imagens, os vídeos, os depoimentos, que atestam o crescimento do cinismo na política nacional.

O cínico age sempre com segundas intenções. Nunca age de forma transparente. Dessa forma, o cínico não respeita os sentimentos e valores estabelecidos nem as convenções sociais. É alguém que é desavergonhado, descarado, imprudente, impassível, obsceno. Geralmente, o cínico fala uma coisa e faz outra.

Não cabe aqui citar nomes, no entanto, no campo da política nacional ou local, certamente você deve conhecer uma porção de cínicos. O cínico adora confundir a população. Vive invertendo o sentido das palavras, da história. Geralmente o cínico fala da mentira como verdade e a verdade como mentira.

Algumas vezes, o cínico é levado a pensar o que a maioria pensa.
 Apoiado por uma falsa opinião de que “a maioria sempre vence”, ele não fica sentado em frente à tv, “com a boca escancarada, esperando a morte chegar”, como cantou Raul Seixas. O cínico age para ganhar a confiança de todos.

Homem desconfiado.

O cínico sempre pensa em benefício próprio. Nunca pensa no outro. Quando se aproxima de alguém é sempre por interesse, para levar vantagem em alguma coisa. Geralmente o cínico é um “sequestrador sentimental”. Quando o cínico lança-se a cargos públicos é para atender os próprios interesses. Dessa forma, o cínico acredita que fazer política é a forma mais rápida de colocar em ordem a vida da família, dos amigos e dos parentes.

Em primeiro lugar, somos radicalmente contra a ideia de que “a maioria sempre vence”, isto porque reconhecemos a existência das ideologias dominantes. Marx já dizia que “As ideias dominantes de uma época são sempre as ideias da classe dominante”. O maior desejo do cínico é esconder a verdade.

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Em segundo lugar, todo cínico pensa que a política é o meio mais fácil e rápido de subir na vida. O trágico é que aos poucos, o cidadão acaba se acostumando com toda essa situação. Pior, a indignação, quando aparece, acaba sendo canalizada para alvos antidemocráticos, como por exemplo, fechamento do Congresso Nacional, perseguição aos migrantes pobres e assim por diante.

Geralmente o cínico, em sua totalidade, é inteligente e possui humor elevadíssimo. Tem a capacidade de observar a realidade que o cerca e de perceber um acontecimento rapidamente. O cínico raramente confia nas pessoas, na realidade, suspeita de todos. Quase sempre o cínico é oportunista.

O antídoto contra o cinismo deve ser à liberdade de expressão, liberdade sexual, liberdade de opinião, liberdade de ação, liberdade política. Norberto Bobbio, sociólogo italiano contemporâneo, considera que a liberdade política deve ser condição elementar para a tomada de decisões. Liberdade política significa educação de qualidade para todos, liberdade de cátedra, respeito às minorias étnicas.

Mulher com expressão de dúvida.

Dessa forma, a maior virtude da liberdade política é a exclusão do cinismo. Ou seja, ao trocar o cinismo pela ética, o político renunciaria os bens e prazeres terrenos até conseguir uma total independência das necessidades vitais e sociais, assim como pensava Antístenes, discípulo de Sócrates, fundador do cinismo na filosofia grega.

De toda sorte, tenho a mais absoluta certeza, o cinismo que se constata na política brasileira atual não é aquele defendido pelo filósofo grego. Para Antístenes, a filosofia cínica, permitia ao homem, em primeiro lugar, alcançar o autoconhecimento e chegar à verdade das coisas.

Assim, o verdadeiro sentido da filosofia cínica era levar o ser humano à felicidade, entendida como não ser afetado pelas coisas más da vida e convencionalismos, que eram valorizados de acordo com o grau de conformidade e com a razão. Enfim, o cinismo que se constata atualmente na política brasileira é a versão descabida da famosa expressão “cara de pau”.

Sobre o autor

Luis Lemos

Luis Lemos

Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); Bacharelado em Filosofia pelo Centro do Comportamento Humano (CENESCH).

Professor de Ciências Naturais na Secretaria Municipal de Educação de Manaus (SEMED/AM). Professor de Filosofia da Educação, Ética e Filosofia Jurídica na Faculdade Martha Falcão/Devry Brasil.

Tem experiência na área de Filosofia da Ciência, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente com os temas: Educação, Ensino de Ciências, Epistemologia, Ética e Ética Profissional.

Autor dos livros: O primeiro olhar – A filosofia em contos amazônicos (2010); O segundo olhar – A filosofia em temas amazônicos (2012); O terceiro olhar – A filosofia em lendas amazônicas (2014); O homem religioso - A jornada do ser humano em busca de Deus (2016).