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Transtorno Dissociativo de Identidade: entenda os sintomas, tratamentos, mitos e verdades

Você já deve ter ouvido alguém dizer para outra pessoa, de um jeito ofensivo, que ela parece ter mais de uma personalidade. Mesmo que isso pareça impossível, aqueles que foram diagnosticados com o Transtorno Dissociativo de Identidade, TDI, podem apresentar identidades distintas em momentos específicos, sem que possam controlar ou perceber essa variação. Aprofunde-se no assunto.

Se você conhecesse uma pessoa que tem mais de uma identidade, como se sentiria sobre ela? Em geral, a sociedade julga como loucos os indivíduos que apresentam alguma característica fora do que entendemos como normal. Por esse motivo, aqueles que sofrem de Transtorno Dissociativo de Identidade, TDI, são vítimas de preconceito, desconhecimento e incompreensão.

No conteúdo que preparamos, você vai entender o que é essa condição de saúde, quais são os sintomas do transtorno e de que maneiras ele pode ser tratado. Afinal, a partir da conscientização e da informação, podemos entender o TDI como ele realmente é: um problema de saúde, que deve ser estudado, acolhido e acompanhado por profissionais da saúde. Continue lendo para se aprofundar no transtorno.

O que é o TDI?

Anteriormente conhecido como Transtorno de Personalidade Múltipla, o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) é um problema de saúde mental. De forma simplificada, ele é caracterizado por duas ou mais identidades se alternando dentro de um só corpo, como define o psiquiatra David Spiegel, da Universidade de Stanford, em um artigo revisado em 2021.

Considerado uma condição psiquiátrica severa e rara, não se sabe exatamente quantas pessoas apresentam o transtorno. Porém, um estudo de maio de 2023 publicado na National Library of Medicine estima que 1,5% da população mundial sofra da condição, que pode se manifestar em duas formas:

Mulher segurando máscara preta e máscara branca. Conceito de Transtorno Dissociativo de Identidade.
Yana Tikhonova / Getty Images / Canva Pro

1) Transtorno Dissociativo de Identidade com possessão

No TDI com possessão, a pessoa diagnosticada com a condição perde o controle sobre si, deixando de agir e pensar de acordo com as próprias convicções. Nesse caso, é como se um agente externo (alguém próximo que faleceu) assumisse o comando desse indivíduo de maneira indesejada e imprevisível, fazendo que ele tome atitudes que normalmente não tomaria.

2) Transtorno Dissociativo de Identidade sem possessão

A forma não possessiva do TDI é mais difícil de ser diagnosticada porque não envolve um agente externo assumindo as redes da pessoa que apresenta o transtorno. Nessa modalidade, o indivíduo sente como se ele mesmo estivesse fora do próprio corpo, assistindo ao que ele faz como se fosse outra pessoa.

Independentemente de qual seja a modalidade do TDI, quem sofre dessa condição pode ter a própria qualidade de vida seriamente comprometida, já que não tem domínio das próprias ações em alguns momentos.

Sintomas de TDI

Identificar os sintomas incapacitantes do TDI é uma maneira de percebê-la com mais precisão. Entenda:

1) Amnésia

A amnésia se manifesta de algumas formas no TDI. Num primeiro caso, o indivíduo não se lembra de momentos que viveu na infância ou na adolescência.

Num segundo caso, a pessoa se esquece de eventos ou de algo que ela faz diariamente, tornando-se incapaz de lembrar o que fez há dias ou de usar o próprio celular, por exemplo.

No último caso, o indivíduo encontra evidências de que fez algo que não se lembra de ter realizado. Seria como encontrar um texto com o próprio nome assinado e não se lembrar de o ter escrito.

2) Comorbidades psiquiátricas

É comum que o indivíduo diagnosticado com TDI também seja diagnosticado com outros transtornos mentais, como depressão, ansiedade, Transtorno do Estresse Pós-Traumático, entre outros. Ou seja, a pessoa pode experienciar tristeza profunda, medo extremo sobre o futuro, estresse constante etc.

Conceito de transtornos mentais.
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3) Dores no corpo

Fortes dores de cabeça e dores musculares inexplicáveis também são sintomas do TDI, que ainda é identificado por ferimentos autoprovocados.

4) Alucinações

As alucinações acontecem na forma de flashback, quando uma pessoa recorda-se de cenas das quais não se lembra de ter participado, ou de uma maneira mais convencional. Na segunda manifestação, o indivíduo pode ouvir as vozes das identidades que o controlam.

5) Despersonalização

A despersonalização acontece quando uma pessoa sente que não está dentro do próprio corpo, mas ainda consegue se ver. É como se ela assistisse a si mesma em um filme, sem estar no controle do que faz.

Homem olhando para suas múltiplas personalidades e expressões.
cyano66 de Getty Images / Canva Pro

6) Alterações bruscas no comportamento

Uma característica marcante do TDI é a alteração brusca no comportamento de um indivíduo de uma hora para outra, fazendo o indivíduo ter uma explosão de raiva repentinamente e sem causa aparente, por exemplo.

Possíveis causas do transtorno

Embora não seja possível afirmar uma mesma causa para todas as ocorrências de TDI, a maioria dos casos surge quando um indivíduo experiencia um trauma durante a infância e não recebe qualquer tipo de apoio para lidar com ele.

Esse trauma pode ser algo pontual, como a perda de um ente querido, ou algo constante, como ter crescido em um contexto de abuso psicológico, físico ou sexual. Qualquer experiência profundamente estressante e agressiva nos primeiros anos de vida pode ser a origem do TDI.

Tal causa é a mais associada ao TDI por se acreditar que as identidades que se manifestam com o transtorno são mecanismos de defesa para um trauma intenso que o indivíduo viveu. Sendo assim, a identidade que assume o corpo dele é capaz de lidar com aquela situação, por mais que isso não aconteça de um jeito seguro e saudável.

O exemplo ideal da causa do transtorno é o personagem Norman Bates, do livro “Psicose”, que foi inspirado no criminoso Ed Gein. Na série “Bates Motel”, desenvolvida a partir do livro, Norman vive sozinho com a mãe, Norma Bates. Durante a infância, ele conviveu com um pai abusivo, que o traumatizou de inúmeras maneiras.

Anos depois, enquanto está gerindo um hotel ao lado de Norma, Norman sente que algumas pessoas são uma ameaça para ele e para a mãe. Mesmo que ele não consiga tomar uma atitude para se defender, essas pessoas começam a aparecer sem vida, com as evidências apontando para Norman.

É evidente que a situação fictícia é um extremo do TDI e não devemos acreditar que as pessoas que sofrem da condição agem assim, mas é uma ilustração de como o trauma da infância pode gerar uma nova identidade, que se manifesta em momentos aleatórios, sem o conhecimento do indivíduo.

Diagnóstico e tratamento

De acordo como Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM-5, o diagnóstico do TDI é realizado pelos psicólogos e psiquiatras com base nos seguintes critérios:

A) Ruptura de identidade com dois ou mais estados de personalidade distintos, com experiência de possessão observada pelo indivíduo ou por outros;

B) Lacunas recorrentes ao lembrar de eventos cotidianos, informações pessoais ou eventos traumáticos;

C) Os sintomas que o indivíduo manifesta trazem prejuízo no funcionamento dele em qualquer área da própria vida;

D) A mudança de identidade não faz parte de uma prática religiosa ou cultural, mas em crianças pode ser considerada como a presença de amigos imaginários e brincadeiras do tipo.

E) Os sintomas identificados não são um resultado do uso de alguma substância ou de outra condição médica.

Isso significa que uma pessoa será diagnosticada por um profissional da saúde se ela atender a todos os critérios apresentados acima. Dessa maneira, a identificação do TDI só será precisa com uma série de consultas e observações de todos os elementos da rotina do indivíduo.

Mulher deitada em sofá em processo de hipnose.
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Uma vez que o TDI seja diagnosticado, o tratamento consiste em integrar as identidades distintas em uma só, por meio da psicoterapia ou da hipnose, além de controlar os outros sintomas que podem fazer parte de outros transtornos, como depressão e ansiedade. Contudo, somente o profissional da saúde especializado poderá indicar a maneira certa de lidar com o transtorno.

Mitos e verdades sobre TDI

Depois de aprender mais sobre o TDI, vamos resumir as principais informações, superando alguns mitos e revelando as verdades que envolvem o transtorno.

1) Pessoas com TDI são agressivas – Mito

Não é possível saber como são todas as manifestações de identidade de todos os indivíduos diagnosticados com TDI. Enquanto algumas podem ser mais agressivas, outras são mais passivas. Também é importante lembrar que, caso haja uma identidade mais agressiva, ela não se manifesta o tempo todo. Logo, é um mito dizer que esses indivíduos sempre serão agressivos.

2) Pessoas com TDI fingem os sintomas para ganhar atenção – Mito

Mesmo sendo uma condição rara, o TDI atinge cerca de 1,5% da população mundial. As pessoas que convivem com o transtorno foram diagnosticadas por profissionais da saúde e enfrentam uma série de dificuldades em decorrência disso. Se elas estivessem simulando os sintomas para ganhar atenção, os primeiros a saber disso seriam os psicólogos e os psiquiatras.

3) Pessoas com TDI têm mais de uma personalidade – Verdade

Como o TDI costumava ser conhecido como Transtorno de Personalidade Múltipla, está correto dizer que o indivíduo em questão tem mais de uma personalidade. No entanto, é essencial reconhecer que ele não tem controle sobre as outras identidades que pode manifestar, nem mesmo consciência sobre elas.

4) Pessoas com TDI são loucas – Mito

A sociedade considera que as pessoas loucas são aquelas que fogem ao padrão de normalidade, usando a palavra de maneira pejorativa. Entretanto, ter um transtorno mental não é sinônimo de loucura. É um sinal de que há uma condição de saúde que precisa ser tratada com respeito e atenção.

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A partir das informações apresentadas, você já sabe os detalhes sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade. Com o conhecimento que adquiriu, você já pode conscientizar outras pessoas sobre o TDI, de forma empática e altruísta, ou procurar auxílio psicológico caso se identifique com os sintomas apresentados.

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