Saúde Integral

O pequeno ditador que habita em mim

Estátua de homem baixinho, dando uma ordem com a mão, em cidade antiga.
Priscilla Herrerias
Escrito por Priscilla Herrerias



Há pouco tempo, descobri um pequeno ditador em mim. Ele se parece com um ratinho de desenho animado, com uma enorme cabeça. Quase não tem corpo. Senta-se no centro de minha mente, sua torre de controle. É avermelhado, de tanta raiva, espuma saindo da boca. Desconfio de que não tenha orelhas, pois não lhe passa pela enorme cabeça escutar, a possibilidade de que ele não tenha razão inexiste.

Ele é duro, dá pulos como uma criança birrenta, machucando os seus calcanhares no chão. Ele grita e dá ordens, fica rouco e sem ar. Ele sabe o que é certo, o que devo ou não fazer, o que devo ou não dizer, como devo me comportar. Ele acredita piamente que sabe o que é melhor para mim. Não se importa com o que eu sinto. Talvez até desconheça o significado dessa palavra, “sentir”. Não se importa com o outro, é egoísta. Sua arma mais eficiente é o medo. Me ameaça, quase me faz perder a fé e a confiança em mim mesma, no outro, na vida…

O pequeno ditador que habita em mim olha para frente ou para baixo. Desconfio que não saiba da existência das estrelas. Jamais olhou para o céu. É um pássaro que bica, gananciosamente preocupado com migalhas. Desconhece o voo.

pequeno ditador

O outro, para ele, é sinônimo de perigo. Nunca experimentou o carinho, a bondade, os gestos simples das pequenas gentilezas de estranhos: um sorriso, um dar passagem, uma informação, um “bom dia”, o mais simples olho no olho. O amor, para ele, é de mau gosto, futilidade, perda de tempo.

O pequeno ditador que habita em mim vai me deixando louca. Triste. Apavorada.
Me faz perder a vontade de sair de casa, me faz sua refém. Eu começo a olhar a vida com os seus diminutos olhos. Sinto o meu corpo tenso, sem espaço, sem fluidez, implorando por um descanso. Começo a acreditar que é assim mesmo, desaparecem os diferentes pontos de vista. Me sinto morta, sozinha e abandonada. Ele está comigo e, definitivamente, não é boa companhia.

 

Eis que no tempo devido, nem antes, nem depois, mas quando é, o mistério se apresenta…

O mistério é a natureza das coisas.

Sou tomada por uma força tão potente e ao mesmo tempo tão delicada.

Ganho coragem e convido o pequeno ditador que habita em mim para deixar o centro da minha mente e se sentar ao meu lado.

Ele fica surpreso, mas também impactado por essa força delicada, maior do que ele, maior do que eu, do tamanho do mundo.

Ele se senta.

É tão pequenino! Do tamanho do meu polegar.

Ofereço ao pequeno um gigante chá. Camomila.

E ele, então, começa a chorar… Sem cessar, com soluços, gritos, raiva, saliva, secreções, com ranger de dentes, com fúria, ciúmes, com medo, tanto, tanto, tanto medo…

Eu o observo.

Ele continua a chorar com ódio, ira, inveja, mágoa e desamor, tanto, tanto, tanto medo…

À medida em que vai chorando, sua cabeça se torna menor e ele vai ganhando corpo. Ele vai crescendo até ficar do meu tamanho.

O choro agora é só um pranto antigo, um rio de lágrimas. Aparece em seu rosto um grande sorriso, sincero e límpido.

Eu lhe olho, lhe vejo, lhe sinto, compartilho sua dor, começo a conhecer em mim a compaixão… O pequeno ditador que habita em mim sou eu…. O pequeno ditador que habita em mim também sou eu!

pequeno ditador

Então, algo luminoso começa a pulsar em seu peito. Um coração. Quente, amoroso e sincero.

Ele se torna um belo homem.

Há um profundo silêncio entre nós.

Há um profundo respeito entre nós.

Nos abraçamos.

Ele me agradece.

Eu o agradeço. Peço que esteja comigo, que me alerte de perigos, que me proteja durante o voo.

Ele consente.

E seguimos juntos, de mãos dadas, sentindo o cheiro da camomila. Agradecendo e soltando uma grande gargalhada.


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Sobre o autor

Priscilla Herrerias

Priscilla Herrerias

Sou formada em Artes Cênicas e por muitos anos me dediquei ao teatro, onde me apaixonei pelas artes do corpo e do movimento. Seguindo este caminho, comecei a me aproximar das terapias corporais. Sou formada em Myofascial Energetic Release (Liberação Miofascial Energética), uma terapia de toque profundo e consciente, pelo fundador da técnica, Satyarthi Deva, na França. Depois de ter feito o caminho de Santiago como peregrina, pude estar durante dois anos e meio atendendo aos caminhantes. E essa também foi uma grande escola.

Atualmente atendo em São Paulo, Vila Mariana.

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