Maternidade Consciente

O que é a maternidade compulsória?

Itens pertencentes a bebês e, ao fundo, uma mulher grávida.
New Africa / Shutterstock
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Se a sua resposta foi “sim”, responda: você é capaz de afirmar com certeza que esse desejo é algo que nasceu em você? Ou pode ter sido influência da forma como você foi criada, socializada e ensinada desde pequena?

Se ficou na dúvida, você pode estar sendo vítima da chamada “maternidade compulsória”. Esse termo é usado para explicar a naturalização e a universalização da ideia de que todas as mulheres devem ser mães pelo menos uma vez na vida. Vamos entender mais sobre isso:

O que é a maternidade compulsória?

“A mulher só é completa se der à luz”, “a mulher é a melhor pessoa para cuidar da família”, “a maternidade é sagrada”, “ser mãe faz parte do ciclo da vida”, “os bebês são uma bênção”… Quem nunca ouviu uma (ou todas) frase como essas?

O conjunto de práticas políticas e socioculturais enraizadas em nossa sociedade é o que semeia nas mulheres o desejo de ser mãe, sem que isso seja, de fato, natural ou uma escolha.

Uma mulher grávida apalpando sua barriga.
Prostock-Studio de Getty Images / Canva

A forma como as famílias tradicionais são organizadas (pai, mãe e seus descendentes) encaminham as mulheres a pensarem, desde pequenas, que o futuro delas envolve a maternidade em algum momento da vida — seja parindo ou adotando. É como se ter um filho fosse uma realização social obrigatória, um ato que provoca validação frente à sociedade e que se basta em si mesmo.

Diferentemente do que acontece com as mulheres que optam por não terem filhos. Essas sofrem com os julgamentos, os olhares esquisitos e os questionamentos constantes, já que parece impensável uma mulher decidir pela não maternidade e ainda assim ser feliz.

Mas, na prática, como esse pensamento é instaurado? Confira abaixo:

Por que a maternidade compulsória acontece?

O sistema que induz à maternidade obrigatória tem nome e sobrenome: é o machista patriarcal. Mesmo que as mulheres tenham conquistado avanços importantes dentro dessa configuração, ainda há muito a se fazer para se livrar de vez das amarras do patriarcado.

A escolha de ser mãe é um dos exemplos. Existem dois meios pelos quais as mulheres são levadas a acreditar que precisam querer a maternidade: o subjetivo e o objetivo.

O subjetivo tem a ver com a socialização feminina. Desde pequenas, as meninas são incentivadas a brincarem com bonecas, carrinhos de bebês, brinquedos que imitam tarefas domésticas, enfim… Elementos que mostram, diretamente ou não, que o papel feminino tem a ver com a maternidade.

Os meninos, por sua vez, podem brincar de super-herói ou de qualquer esporte, sem a preocupação de oferecer carinho a outra pessoa (mesmo que apenas uma boneca). Lá na frente, os resultados são visíveis: as mulheres tomam as rédeas do cuidado com a família, enquanto os homens não se veem parte dessa responsabilidade.

Filmes, livros, séries, músicas, peças de teatro, novelas e várias outras mídias apenas reforçam esse pensamento. Quando se casam, as mulheres precisam ter filhos para gerar o fruto (obrigatório) desse amor e, enfim, atingirem o padrão ideal de feminilidade. Caso contrário, são acusadas de não terem vivido plenamente.

Tal dinâmica é ainda mais presente em países nos quais os direitos reprodutivos das mulheres são cerceados, como é o caso do Brasil. É aí que entram os meios objetivos de forçar à maternidade.

Se pararmos para pensar, não existem formas 100% eficazes de impedir que as mulheres engravidem. Os métodos anticoncepcionais são diversos, mas nenhum garante a impossibilidade completa de gerar um filho. Nem mesmo a laqueadura, cirurgia esterilizante feminina, é capaz de prover 100% de certeza. O aborto, nem se fala — proibido veemente pela legislação e pela sociedade brasileira.

Outro ponto é que, em sua maioria, tais métodos são responsabilidade da mulher, já que foram desenvolvidos para que ela os utilize. Como foi criada para a maternidade, cabe apenas a ela a preocupação com a contracepção. O homem, enquanto isso, pode se ausentar do processo sem muitas crises.

Como agravante, as mulheres não são incentivadas desde pequenas a conhecerem o próprio corpo, o próprio ciclo, o próprio sistema reprodutivo ou até mesmo as próprias opções anticoncepcionais disponíveis. Dessa forma, como elas podem se colocar no controle das próprias vidas? Como evitar a maternidade, quando essa for uma escolha? Continue lendo para descobrir.

A importância do planejamento familiar

Para fugir da maternidade compulsória, a primeira coisa que você precisa ter em mente é: conhecimento nunca é demais. Compreender o funcionamento do próprio corpo e entender os efeitos da escolha (ou não) de ter um filho é essencial para planejar o futuro da família que deseja para si.

Uma mulher segurando um bebê em seu colo.
Alena Ozerova / Canva

O tal do “planejamento familiar” é justamente o conjunto de ações voltadas não apenas para as mulheres, mas também para os homens, com a finalidade de auxiliá-los na decisão de quando e como querem ter seus filhos. É um direito que deve ser oferecido pelo Estado por meio do acesso a recursos informativos, educacionais, científicos e técnicos.

Abaixo, separamos algumas dicas que podem te ajudar a preparar a sua vida para a chegada dos filhos ou evitar uma gravidez, se for o caso:

  1. Saiba que relógio biológico não existe: é claro que, quanto mais velha, maiores são os riscos da gravidez. No entanto, com o avanço da ciência, já é possível congelar os óvulos e postergar a gestação. De forma geral, essa pressão do relógio é apenas social, com o objetivo de ressaltar a maternidade compulsória em nossas vidas.
  2. Conheça as suas opções: se você decidiu adiar ou suprimir a gravidez na sua vida, é preciso entender quais são as suas possibilidades. Atualmente, além do congelamento de óvulos, existe ainda a fertilização assistida e uma enorme gama de contraceptivos. Pesquise a melhor opção para a sua realidade.
  3. Converse com o(a) seu(a) parceiro(a): o diálogo é fundamental para quem está pensando em mudar a dinâmica da família. Reflitam juntos sobre se a decisão não tem sofrido influência de outras pessoas, se estão ou não preparados para a chegada de uma criança, se preferem utilizar métodos contraceptivos etc. A transparência é a chave para que ambos estejam na mesma página.
  4. Procure um médico de confiança: o suporte de um profissional qualificado que entenda e respeite as suas decisões é importante para que a maternidade seja uma experiência agradável ou para que a saúde continue sendo uma prioridade no caso da não maternidade. Discuta com o médico as opções contraceptivas até chegar naquela que mais se adapta aos seus planos.
  5. Planeje-se financeiramente: se tiver a certeza de que quer ser mãe, é a hora de preparar o terreno para os cuidados com a criança — que não são poucos. Anote todas as despesas que puder imaginar e veja se é possível combiná-las aos seus rendimentos. Com segurança financeira, vai ser muito mais fácil aproveitar a infância do pequeno.

Como vimos, o planejamento familiar é extremamente importante e deveria ser regra para toda a população brasileira. Na prática, entretanto, não é assim que acontece. A população mais pobre costuma ser excluída desse processo, criando os filhos da forma que for possível. Por isso é preciso refletir.

Por que é importante discutir sobre o assunto?

A maternidade compulsória chegou a um nível em que ser mãe é uma decisão tão natural que ninguém sequer a questiona, mesmo quando não há condições socioeconômicas para tal.

Pergunte a uma mãe por que ela resolveu ter filhos. É bem provável que ela diga que nunca parou para pensar e que sempre pareceu “óbvio”. Quem tem que se explicar é justamente quem decide pela não maternidade — ou até mesmo quem, por alguma razão, não consegue engravidar.

Uma mulher checando um teste de gravidez.
milanvirijevic de Getty Images Signature / Canva

Isso tem consequências diretas na vida dessas mulheres. Aos olhos do senso comum, elas se tornam menos desejáveis, mais solitárias, menos respeitadas e até menos “mulheres”.

Enquanto isso, as mães são endeusadas a um nível absurdamente tóxico, em que expectativas irreais são colocadas no colo de uma única pessoa. E elas não podem reclamar, já que a maternidade deve ser encarada como uma “bênção”.

Até quando vamos continuar assim?

Pelo poder de escolher a hora de ter ou não filhos

A maternidade não é, nem precisa ser, algo inerente à mulher. Hoje, sabemos que, ao planejar a saúde reprodutiva, elas estão menos sujeitas à pressão da maternidade compulsória.

Só assim elas serão responsáveis pela própria vida, levando em consideração tudo aquilo que atravessa a chegada de uma criança, como as perspectivas biológicas, sociais, de gênero, demográficas e de planejamento familiar.

Não há hora certa para se ter um filho — e ninguém deveria ser discriminado por decidir não esperar no “tic-tac” desse relógio.

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Afinal, quantas mulheres podem se dar ao luxo de apertar o “modo soneca”? Quantas mulheres podem parar os ponteiros sem serem julgadas por isso? Quantas delas viram as horas passarem rapidamente e hoje se arrependem de não terem esperado um pouco mais? A maternidade é apenas para quando as mulheres estiverem prontas. Se algum dia estiverem.

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