Convivendo

O que somos enquanto realizadores de coisas?

Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo
Hoje, parada no ponto de ônibus com um amigo trocando uma prosa, surgiu um Senhorzinho de aparentemente ter os seus sessenta e poucos anos, todo atrapalhado vindo em nossa direção. Não lembro bem como começou a conversar com a gente e não conseguia compreender muito do que este falava, além de palavras repetitivas. Entre umas olhadelas do meu amigo e uns minutos de silêncio deste Senhorzinho, questionei-o então sobre a vida, e este nada me respondeu, além de repetições e tropeços por entre as mesmas palavras.

Olhei para o Senhorzinho, e comecei a me questionar sobre quem somos nós. Somos tantas coisas e ao mesmo tempo não somos nada. Permaneço parada onde estou, olho para o meu amigo, volto o meu olhar para o Senhorzinho e por um instante, vem um flash na minha cabeça. Começo a analisar o gesticular desse Senhor e percebo o quão triste é o seu olhar e como está perdido dentro de si mesmo. Triste, o corpo estava presente ali, mas a alma… Pobre alma a deste Senhorzinho, senti dó.

Comecei a me questionar sobre quem somos nós.

Por entre os flashes das minhas sinapses, começo a questionar – quem seria esse Senhorzinho, afinal? Quem seria eu? Quem seria você? Será que seríamos todos os diversos lugares ao qual frequentamos durante a vida? As pessoas, as histórias, as infinitas possibilidades de experiências dentro de uma montanha-russa chamada vida? Seríamos aquilo ao qual carregamos conosco entre tropeços e conquistas? Seríamos os problemas? Ou as soluções? Seríamos aquilo que ninguém vê? Ou talvez que só enxergue o que de fato nós mostramos? Seríamos o que, afinal? Penso que talvez sejamos um pouco de tudo e muito de cada pouco – por um breve momento.

Passa alguns segundos, observo-o e antes que o Senhorzinho volte para as suas repetições de prosa, dou-lhe um simples aperto de mão e abro um sorriso. Em troca, recebo um pequeno olhar e outro sorriso. Nada mais diz o Senhorzinho e sai andando. Perdido. Em meio às palavras. Em si mesmo. No mundo. Ali, naquele instante. Por entre as minhas sinapses. Não sei para onde este Senhorzinho estava prestes a ir, mas desejei-o o melhor por onde quer que ele fosse.

E ali, naquele mesmo instante, senti vergonha de mim mesma. Pedi perdão por ter tido dó e ter passado pela minha cabeça milhões de pensamos tais como o que de fato nós somos. Percebo que somos o que nós quisermos ser. Somos todos os tipos de pessoas que cruzam as nossas vidas – de alguma forma e independentemente de suas diferenças. Somos tantos outros quês – cheguei à conclusão de que somos todos um e agradeci.

Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

É custoso descrever quem sou eu – já que constantemente lapido, modifico e me transformo em um pouco de tudo e muito de cada pouco. Inicialmente posso compartilhar dizendo que sou extremamente curiosa, apaixonada pela comunidade surda, pela língua de sinais e por tudo que envolve a linguística.

Foi na faculdade de medicina e como acadêmica há alguns anos (com a esperança de trabalhar com o ser humano e suas limitações) que eu adentrei para um universo de que eu não fazia ideia que fosse possível existir e que pudesse trazer a bagagem que tenho hoje. Minha busca incessante pelo autoconhecimento e entendimento para muitos dos questionamentos que já tive (e continuo tendo) me fez despertar para o meu atual desígnio.

Minhas tantas outras peregrinações e experiências também contribuíram e muito com o meu desígnio – a começar pelo de compartilhar junto a vocês, leitores do EuSemFronteiras, sobre a primordialidade de enxergarmos para além do que nos visibiliza os olhos e lembrarmo-nos sempre de sermos semelhantes ao sol, mesmo em meio às sombras escarpadas montanhosas da vida.

Com todo o meu carinho e gratidão imensa,

Mãos em prece e um saudoso e caloroso abraço em cada um.

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