Comportamento Convivendo

Para quem é o direito à vida?

Vista aérea do Rio de Janeiro, do lado direito, uma favela acesa em topo de morro, enquanto na parte de baixo, perto do mar, prédios grandes de classe alta.
123rf/Donatas Dabravolskas
Vanessa Delfino
Escrito por Vanessa Delfino

Atualmente, estou morando em um bairro de classe média alta de São Paulo, no qual as pessoas estão respeitando a quarentena desde o início — para ser mais específica, desde antes mesmo da quarentena ter sido decretada na cidade. É claro que é mais fácil para quem mora aqui fazer isso. Eu mesma continuo trabalhando home office. Divido o apartamento com mais uma pessoa e cada uma tem o seu espaço. A convivência é tranquila.

Da janela da sala, na mesa onde geralmente me sento para trabalhar durante a tarde, vejo janelas do prédio vizinho, através das quais posso ver os moradores, cada um fazendo uma coisa. É como se estivesse assistindo ao filme “Janela Indiscreta”. Às vezes me distraio e fico reparando o que cada um está fazendo nos seus apartamentos.

Desenho de várias janelas de apartamentos diferentes, com silhuetas de pessoas fazendo atividades diferentes.
123rf/spicytruffel

Uma moradora fica tomando banho de sol na varanda com um biquíni vermelho enquanto lê um livro. Outro faz seu trabalho num laptop da Apple, sem camisa e com as pernas em cima da mesa. Outra faz pilates sentada numa bola, acompanhando os exercícios pela televisão, enquanto segura seu bebê nos braços. Dois cachorros ficam brincando, se mordendo, correndo pela sala. Se eu me levanto e olho janela abaixo, vejo a piscina do prédio. Ninguém está nadando, mas três pessoas estão tomando sol na beirada, cada um com o seu celular. Tudo isso às três da tarde, mais ou menos.

Ainda de pé na janela da minha sala, olhando para baixo, consigo ver as várias casas ainda existentes no bairro. Acho as casas tão bonitas. São antigas, com telhados de barro, cercadas por árvores, várias árvores (outro dia saí e reparei nos pés de manjericão, de salsinha, de abacate, de romã espalhados pelo caminho). Esse bairro é rico, não só pela quantidade de dinheiro das pessoas que moram aqui, mas pela preservação da própria natureza. Você até sente a presença de Deus e, se ficar em silêncio, consegue ouvir uma música tocando baixinho vinda do ar. O vento te faz querer dançar.

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É uma paz tão grande, é tudo tão bonito… Como não querer ficar em casa com um cenário desses? Qual a dificuldade? Praticamente nenhuma. A casa ou o apartamento já tem tudo o que precisamos e mais até. Pode-se tranquilamente pedir comida em casa, que chega rápido, em 10 ou 15 minutos, devido à grande quantidade de restaurantes, padarias e lanchonetes aqui; pode-se, confortavelmente, bater panela da janela e gritar “Fora Bolsonaro” e todos os xingamentos que quiser.

Tá tranquilo, tá favorável.

Mas minha mãe, e boa parte da minha família presente na cidade, mora na periferia de São Paulo, onde eu também morava até três anos atrás. Lá as pessoas não estão isoladas. Elas não querem ou não podem ficar. Ou pior: não entendem que é para ficar.

As casas geralmente são habitadas por muitas pessoas, que estão sendo obrigadas a conviver sem mal ter condições de se manterem. Crianças e adolescentes estavam acostumados a comer na escola, mas agora não tem mais escola presencial e os pais — geralmente a mãe — não têm condições de alimentar todo mundo parado em casa. O auxílio emergencial do governo ainda não foi aprovado para milhões de pessoas, um mês após terem se iniciado as inscrições. Muitos estão sem emprego. A maioria não tem um trabalho que possa ser feito home office e, ainda que pudesse, tem gente que nem acesso à internet tem dentro de casa. Lembro que costumava ver várias pessoas, jovens e velhos, sentados na praça perto do ponto de ônibus principal do bairro usando o Wi-Fi da praça até de madrugada. E agora as pessoas precisam ficar trancadas dentro de casa. Fazendo o quê? Sem trabalho, sem estudo, sem internet, com pouca comida. Acha mesmo que as pessoas vão parar quietas? Nessa situação o alívio é continuar indo para a rua. Brincar na rua ainda é uma realidade para quem mora em periferias ou em favelas. Sentar na praça para jogar dominó é um passatempo bom, é o que dá para fazer. Além de usar drogas, muitas drogas.

Rua em meio de favela, com muitas pessoas andando a pé.
123rf/Matyas Rehak

Mas e se elas pegarem o vírus? E se ficarem muito doentes e acabarem morrendo?

A pior parte de viver na pobreza é que você se acostuma com o sofrimento. Se acostuma a tal ponto que nada mais importa. “Se morrer, enterra.” Meu pai dizia isso e eu às vezes ainda repito essa frase, porque é isso: quando você cresce numa região marcada pela dor e pela violência, tudo fica naturalizado. A doença é natural, a violência é natural, a morte é natural. A gente chora, talvez se revolte, mas no dia seguinte levanta e vai trabalhar, porque precisa se sustentar. E também não pensar. Quem pensa muito fica atrapalhado da cabeça, dizem alguns. Quando era criança, era relativamente comum as pessoas saltarem os corpos mortos que ficavam largados nas ruas e nas calçadas. Corpos, geralmente de jovens que morriam pela polícia ou pelo tráfico, que o carro funerário só vinha buscar uns três dias depois, quando o corpo já estava completamente rígido, esbranquiçado e com moscas em volta. O máximo que se fazia era colocar um saco de lixo preto aberto em cima para ninguém ficar olhando muito. Mas se estivesse numa área de passagem, era só saltar e seguir caminho. E dar graças a Deus porque não foi você que morreu.

A população mais rica tem um enorme cuidado com a vida porque não convive com o sofrimento, a violência e a morte 24 horas por dia, todos os dias. Assim, qualquer susto já é o suficiente para a pessoa até mesmo exagerar no cuidado com o intuito de preservar a vida. Se falar que comer muito carboidrato faz mal para a saúde, a pessoa vai parar de comer na hora. Se o prefeito e o governador dizem que é para ficar em casa para conter o vírus, a pessoa fica porque tem condições, porque não quer ficar doente, não quer ser responsável por adoecer ninguém e porque quer e SABE que pode viver bem. A população mais pobre muitas vezes não acredita que pode viver bem. Para muita gente a vida é uma sucessão de sofrimentos, com alguns poucos momentos de diversão e prazer. Por isso a pessoa não vai parar de comer um determinado alimento se ele fizer mal, porque talvez aquele seja um dos únicos prazeres na vida da pessoa. Ela não vai ficar presa em casa sabendo que se sair pode pegar o vírus e ficar doente, com grandes chances de morrer, porque é o que disse mais acima: “Se morrer, enterra.” Ou queima. Já vai estar morto mesmo, que importa (outra coisa que meu pai vivia dizendo).

Desenho de dois morros, com um abismo no centro. No da esquerda, mansões, dinheiro, e áreas verdes. Do lado direito, barracos e casas precárias, cinzentos.
123rf/Artisticco LLC

Por ter crescido em contato com pessoas de classe média para cima eu sempre percebi que havia algo de errado, além das diferenças sociais. Há uma resistência, sim; uma perseverança, um instinto de sobrevivência. Mas, nos últimos anos, essa energia de vida foi se apagando cada vez mais. Quando ia para lá, sentia um clima depressivo no ar, bem diferente da música que é possível ouvir aqui. Um aperto tomava conta do meu coração. O clima de tensão era forte. Essa energia de vida está represada, querendo escapar mas cada vez mais represada para o fundo da alma dessas pessoas. Eu tinha vontade de gritar com eles, até mesmo de bater às vezes, para ver se despertavam, se saíam dessa inércia, se conseguiriam fazer uso da força do ódio para jogar todo o peso da opressão para bem longe. Vontade de dar um tapa na cara e mandar parar de aceitar tão pouco. De gritar para que voltem a ter fé. A acreditar que podem ter uma vida realmente digna. Era tão bonito quando na minha infância eu via manifestações da população contra a violência: padres, pastores e freiras caminhavam juntos com membros de ONGs, todos cantando e exigindo seus direitos. Há muitos anos que não via mais isso acontecer. Geralmente a morte chega primeiro na alma, para depois chegar ao corpo. E a alma de muitos está morta. Nem o vírus está despertando.

Como eu gostaria que eles acordassem, que acreditassem que eles também têm o direito à vida.

Sobre o autor

Vanessa Delfino

Vanessa Delfino

Aprendiz da vida, acho que esse é o termo que melhor me define, além de louca, é claro.

Tenho um amor profundo pela arte e me mantenho aberta a todas as experiências que a vida tiver para me ensinar. Através do teatro, da dança, da música e da escrita eu me descubro, encontro habilidades infinitas e encaro melhor a vida. Cada experiência é uma descoberta e uma aventura que quero compartilhar com o maior número possível de pessoas.

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