Autoconhecimento

Peregrinação

Pelegrino observando o nascer do sol
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Andrea Ralize
Escrito por Andrea Ralize

Hoje o dia está ameno. Nada de muito sol, uma brisa mansa passeia pelo meu corpo. Suave… como um toque. Meus olhos se perdem por alguns instantes no vácuo, no vasto horizonte à minha frente, no vaivém de pessoas na rua. Elas usam máscaras. Elas têm medo de adoecer… ou talvez não. Apesar da paisagem verde e colorida e de um céu azul sem nuvens, minha retina não mira nada; conscientemente, minha rotina está perdida na estática de um olhar que mira, mas não vê.

Tenho pensado muito. Os pensamentos, com a idade, vão ficando mais nítidos. Talvez não seja a idade, provavelmente seja por causa da mente que, com o passar dos anos, torna-se menos agitada, mais presente, mais focada.

Os pensamentos estão sempre buscando respostas a perguntas antigas de meu eu, coisas como: por que estou sozinha… por que não há alguém aqui segurando minha mão neste momento… por que não posso dividir essa música com um homem bom… por que, no final das contas, eu sempre estou na companhia única e exclusivamente de mim mesma…

As respostas vêm e vão. Há vezes em que ouço com clareza algumas delas e até finjo discutir a respeito, argumentando e contra-argumentando, tentando convencê-las de que elas não estão corretas, de que se desviaram de caminho e não encontraram soluções eficientes para os problemas a elas apresentados. São relapsas e não se importam em me ajudar a compreender a mim mesma. Isso gera tensão, exaustão, cansaço…

Pessoa caminhando sobre os trilhos do trem desativados
Wonderlost / Getty Images / Canva

Mas nem sempre eu consigo vencê-las. As respostas são coerentes demais para serem desmascaradas… na verdade, não usam máscaras, apresentam-se dispostas a serem vistas com a transparência da verdade. E, se é que existe, qual é a verdade?

Na opinião das minhas conjecturas, eu escolhi fazer uma peregrinação nesta vida, uma viagem interna um pouco perigosa, com caminhos cobertos de obstáculos e, por isso, necessito sempre de roupas de proteção, equipamentos de segurança, muita reflexão e tempo demais para avaliar cada emoção. E essas emoções não são fáceis de lidar, elas machucam, usam espinhos e são amargas. E esse tipo de peregrinação se faz sozinho… Não há espaço para um companheiro, por mais que ele pudesse compreender a necessidade vital de fazer essa travessia.

Então as pessoas que poderiam estar ao meu lado não conseguiram ficar. Elas se cansaram do silêncio, da meditação, da observação cega e da música indefinidamente complexa… Pessoas peregrinas não são interessantes para as demais, elas são caretas, nem um pouco engraçadas, são destituídas de bens materiais e, consequentemente, não podem oferecer momentos divertidos em locais da moda… Pessoas peregrinas não acompanham a moda… são quase sempre esteticamente inadequadas…

Hoje é um dia em que eu gostaria de ter uma mão para segurar, talvez hoje eu desejasse ser uma turista… não uma peregrina… Dá uma solidão aguda em certos momentos, um desejo de dividir ideias de trajetos, de compartilhar experiências sobre pousadas, locais de descanso após uma longa caminhada desértica… Uma vontade grande de sentir um corpo quente à noite… ouvir uma voz amiga… um sussurro de boas-vindas ou de despedida… ou de explosão…

Mas não há ninguém… visível, palpável… Gosto de fantasiar que, em algum lugar deste Universo, há alguém me vendo de longe e torcendo por mim, amando-me tão intensamente que, ao me ver prostrada, faz com que eu me levante de manhã, pegue a mochila e continue seguindo viagem…

Homem caminhando sobre montanha
Pexels–2286921 / Pixabay / Canva

O destino? Não sei. Geralmente turistas sabem com antecedência para onde vão. Fazem roteiros, levam roupas apropriadas, possuem uma reserva financeira para comer e beber, passam a noite em hotéis agradáveis, onde podem relaxar com um banho quente… e essas pessoas, geralmente, estão acompanhadas, têm uma mão para segurar…

O destino de um peregrino? Não sei… Peregrinar é se infiltrar mundo adentro e continuar caminhando enquanto se tem luz do Sol… tomar um banho se houver um rio por perto, uma cachoeira ou a água da chuva… dormir ao relento de si mesmo, escancarando a dor de ser e não saber que se é.

Hoje eu só queria uma mão segurando a minha.

As mãos estão todas ocupadas. Elas já têm pares.

E as que estão ímpares não querem tentar.

Elas têm medo, já sofreram tanto, pensam ser melhor não arriscar…

Eu as compreendo. Respeito.

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Um barulho chama a minha atenção e meus olhos voltam a mirar a paisagem, saem de dentro de mim e vão para fora… vejo pessoas caminhando apressadas, elas usam máscaras… têm medo de adoecer… têm pressa para chegar sabe-se lá aonde… Olho no relógio. Também estou atrasada. A realidade falsa me chama. Preciso ir… Guardo minhas mãos nos bolsos e, conformada, vou sozinha…

Sobre o autor

Andrea Ralize

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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