Autoconhecimento

Caminho de Peregrinação no Brasil como forma de autoconhecimento

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Peregrinação, uma rota de encontros

A palavra peregrinar vem do «lat[im] peregrīno e o verbo peregrinar significa «andar em peregrinação por; ir em romaria» ou «andar por (terras distantes); viajar». Talvez para os praticantes haja uma dicotomia no uso dos termos peregrinação e romaria. O primeiro seria mais usado por aqueles que querem caminhar livre da questão religiosa, como um trekking, e romaria atende aqueles que têm sua fé colocada à prova e normalmente fazem seu sacrifício em nome de uma promessa.

Sendo um ou outro, o ato em si requer sacrifício físico, convida à reflexão e leva a algum encontro, seja consigo mesmo ou com quem quer que seja deste plano ou de outro. Tudo isso pela intensidade das vivências que um longo caminho possibilita. Existe, inclusive, um estudo ainda no início sobre os efeitos que os caminhos contemplativos exercem no bem-estar e na melhoria da qualidade de vida.

Já fiz várias caminhadas e não me preocupo em classificá-las, mas muitas delas foram curtas, até 9 quilômetros em um dia, intercaladas muitas vezes com passeios em carro nos dias seguintes. Por isso, não me atrevo a dizer que foram peregrinações. Além disso, a minha motivação era turismo e a prática “esportiva” da caminhada.

Em julho deste ano fiz o que eu considero a minha primeira peregrinação, pois andei 219 quilômetros em 11 dias “quase” seguidos. Fiz o chamado Caminho do Sol, cuja rota é no interior de São Paulo. Escrevi o meu caminho baseada no significado de “ir a terras distantes”, ao mesmo tempo em que ia para dentro de mim mesma, buscando um ímpeto para seguir adiante e deixar minha dor cicatrizar em forma de saudades pela perda da minha mãe.

O Caminho do Sol foi inaugurado em 2001 pelo seu idealizador, José Palma, depois de sua experiência no Caminho de Santiago de Compostela. O caminho tem 241 quilômetros, passando pelas seguintes cidades: Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu, Salto, Elias Fausto, Capivari, Mombuca, Arapongas, Monte Branco (zona rural de Piracicaba), Artemis (zona urbana de Piracicaba) e Águas de São Pedro.

Neste caso não há alteração, nem de duração, nem de roteiro. São 12 cidades, 11 dias, com encontro marcado numa terça-feira à noite para últimos ajustes, saindo para caminhar efetivamente na quarta-feira cedo e chegando num sábado na hora do almoço. Tem ainda um café com prosa no domingo para quem ficar na cidade de chegada (Águas de São Pedro).

O ato de peregrinar não surgiu ontem, existe desde o século IX, se formos considerar os primeiros registros do Caminho de Santiago. O caminho europeu pode ter de 100 a 800 quilômetros de extensão, há quem faça até 1000, dependendo do ponto de partida e o de chegada. Nele cada um pode definir o trecho, a paisagem e o tempo de permanência que deseja. São muitos caminhos dentro do mesmo caminho, sempre em solo europeu, conhecidos por Francês, Aragonês, Português e o Caminho do Norte. O caminho de Santiago existe há 803 anos e tem uma ligação forte com a religião.

Muitos peregrinos fazem o Caminho do Sol como um treino para o de Santiago. O trecho andado aqui só conta como treino mesmo e não como carimbo para o passaporte espanhol, e dependendo da distância escolhida para fazer em Santiago nem significará o meio do caminho. Já o trecho de Florianópolis, inaugurado neste ano, vale como carimbo, pois recebeu o apoio da Catedral de Compostela.

Talvez as peregrinações estejam na moda e na mídia atualmente porque as pessoas estão buscando cada vez mais saírem de seu dia a dia de rotinas, regras e estresse para encontrarem respostas dentro de si mesmas. Assim como a meditação e os retiros espirituais, as peregrinações permitem uma certa dose de isolamento dos vícios da rotina, de pessoas, de equipamentos eletrônicos, etc.

Os motivos de um peregrino, seja ele iniciante, amador ou veterano, podem ser diversos, cada peregrino escolhe e escreve o seu caminho. Literalmente, há muita pedra neste caminho, os pequenos pedregulhos e as pedras pessoais que cada um quer remover de sua vida.

O silêncio e o cajado são os companheiros mais frequentes nestas caminhadas, pois o calçado pode variar e a mochila você pode despachar (se pagar extra). Afinal, as pessoas podem caminhar até 12 horas por dia, agradecendo uma conquista, pedindo pela cura ou por um emprego, rezando, chorando, conversando com Deus ou com alguém que partiu.

Não sei dar dicas sobre os demais caminhos longos que existem aqui no Brasil ou fora dele, pois só participei do Caminho do Sol, mas é fácil encontrar outras opções na internet, como o Caminho da Fé, o das Missões, o da Luz, entre outros. A melhor forma de se preparar é assistindo às palestras presenciais ou online, lendo, conversando com quem já fez, se preparando fisicamente e tendo os equipamentos corretos. Existem inclusive associações de peregrinos, como a ACACS-SP e a AACS Brasil.

Minhas percepções

Tudo é uma oportunidade de aprendizado neste caminho: tolerância, humildade, respeito, gratidão. Palavras não faltam. Claro que na vida podemos extrair ensinamentos de cada pequeno gesto e você não precisa estar à margem da sociedade e da rotina para pensar a respeito e mudar, se for o caso. Mas numa atividade como esta, as mensagens e os convites à reflexão estão explícitos e acontecem o tempo todo, por isso, esta intensidade facilita a compreensão.

Eu tive vários. Por exemplo: no 3º dia, depois de andar 52 quilômetros, interrompi a caminhada e fiz um trecho de carro porque me planejei mal e minha bota não era adequada. Parei 1 dia para não abandonar a jornada. Assim, dos 241 quilômetros, eu consegui fazer 219 e só conclui porque uma colega me emprestou uma papete que ficou comigo até o final. Consegui terminar junto com o grupo, que diminuiu ao longo do caminho. Começamos em 12 e no final éramos 9.

Fizemos o percurso no inverno, então enfrentamos as temperaturas baixas de julho, em torno de 5 °C, até o tempo mais quente do horário de almoço de um período de estiagem, em torno de 30 °C. Houve névoa, friagem e sol, mas não pegamos chuva um dia sequer. Ou seja, diferentes temperaturas para as quais precisávamos sair vestidos de acordo ou parar no caminho para tirar alguma blusa.

O terreno variava entre asfalto, terra batida, areião a pedregulhos. Ao nosso redor, tínhamos carros nos trechos de estrada, tratores e treminhões rurais, além de plantações, mata-burros, pontes, rios, riachos, muita cana, vacas, galinhas e cachorros. O percurso alternava retas, descidas e subidas. Digamos que nenhuma “pirambeira”, mas algumas subidas puxadas e descidas cansativas.

Andávamos uma média de 20 quilômetros por dia, alguns dias mais e outros menos. O menor trecho foi de 14 quilômetros e o maior de 28 (este foi o que eu não fiz, pois estava com dor). No caminho havia paradas em estabelecimentos comerciais, onde comprávamos água e outras coisas e usávamos o banheiro, quando dava tempo de esperar para chegar neles. Havia paradas no caminho para coletar os famosos carimbos e encher o passaporte do peregrino.

Algumas vezes éramos recebidos de surpresa pelas chamadas nuvens, que pareciam um oásis com sucos e comidinhas, organizadas pelos voluntários do Caminho.

As sensações ao longo de todo trajeto são muitas. Experimentamos cansaço, que ora nos chega doído, ora alentador, muita alegria, muita tristeza, mas no fim chega a melhor sensação de todas: a de dever cumprido, a de paz sem fim.

O encontro

O que chamo de encontro é a resposta para uma busca individual. Pode receber outros nomes, como autoconhecimento. Cada um pode dar o “apelido” que quiser, mas o que importa é a paz que vem depois. Afinal, com o final da experiência vem a descarga de adrenalina e endorfina, neurotransmissores da força incondicional e do bem-estar, que acionam um mecanismo de luta pela sobrevivência e que nos dá disposição para seguir adiante.

Além do físico, temos o espiritual, muitas horas dedicadas a falar consigo mesmo, com entes queridos ou com entidades espirituais. Saíamos entre 7h e 8h e andávamos até às 13h/14h, dependendo do ritmo de cada um e da quantidade de quilômetros de cada trecho. Era impossível, no final de 11 dias nesta toada, não sentir um relaxamento especial, um equilíbrio.

Há muitas dicas para dar sobre equipamento, as hospedagens, os gastos, mas são facilmente encontradas nos sites dos próprios roteiros (vide abaixo). Aqui a proposta era contar um pouco da história das peregrinações e chamar a atenção pela oportunidade de “encontro” que elas podem nos dar. Espero que tenha contagiado vocês!


Escrito por Silvia Prevideli da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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