Autoconhecimento Espiritualidade

Por um FEMINISMO ético-espiritual

Escrito por Jaciane Mascarenhas
No mês de março um assunto ganha importância: o Dia da Mulher e a repercussão do papel feminino nas esferas social, política, econômica e moral. Nas últimas décadas, houve grandes avanços na igualdade de direitos entre homens e mulheres; vimos que elas alcançaram grandes conquistas no cenário social, político e econômico, e cada vez mais mulheres ocupam posições de destaque e cargos de liderança.

Nos últimos anos vimos ascender um movimento pela igualdade de gêneros no campo material, mas será que no campo ético-espiritual podemos dizer que o feminino ganhou espaço? Não queremos estabelecer uma comparação entre homens e mulheres. Na verdade, o objetivo deste texto é promover uma conscientização, em homens e mulheres, sobre os potenciais femininos no campo ético-espiritual, isto é, no campo do relacionamento consigo mesmo e com os outros.

Para tanto, partiremos de uma premissa básica de que homens e mulheres são diferentes sob o aspecto emocional e psicológico. Assim, sabemos que as mulheres são naturalmente mais propensas à compaixão e à tolerância, enquanto os homens são mais propensos às regras, à justiça e à autonomia individual. A partir disto, este texto quer provocar uma reflexão sobre se ao invés de buscarmos uma igualdade de gêneros, quando se trata de si mesmo e dos outros, pudéssemos dar mais espaço para a manifestação das diferenças de ambos os lados.

Sobre este assunto é muito interessante observar uma teoria formulada pela psicóloga feminista Carol Gilligan, cuja obra “Uma voz diferente” deu origem ao movimento chamado “Uma Ética do Cuidado”. Para a psicóloga, há duas lógicas morais diferentes: a lógica masculina (a voz dos homens) centrada na autonomia do indivíduo, na justiça e nos direitos; e a lógica feminina (a voz das mulheres) que gira em torno dos relacionamentos, do respeito e da responsabilidade.

feminismo

Segundo esta abordagem, os homens se interessam mais pela atividade, ao passo em que as mulheres buscam a união; os homens são mais propensos a seguir as regras, enquanto as mulheres estabelecem vínculos afetivos mais facilmente; os homens olham, as mulheres tocam; os homens tendem mais ao individualismo, as mulheres são mais inclinadas para as relações e para a integração social.

Gilligan nos dá dois exemplos fabulosos dessas duas lógicas. O primeiro é um jogo entre meninos e meninas. Os meninos dizem: “Vamos brincar de piratas?”, as meninas respondem: “Ah, não, vamos brincar de ser vizinhos!”; os meninos dizem: “Não, vamos brincar de piratas!”, as meninas concluem: “Está bem, mas podemos brincar de piratas que são vizinhos?”. O segundo exemplo é um jogo de beisebol, cujo objetivo é rebater a bola e depois correr pelas quatro bases do campo.

Neste jogo, se o rebatedor errar a bola, estará fora até a próxima rodada. Quando isso acontece, os meninos geralmente choram ou ficam aguardando consternados por uma nova oportunidade. Mas nestas ocasiões, as meninas, em sua maioria, dirão algo do tipo “ah, tudo bem! Deixe que ele bata a bola de novo!”. Já os meninos seguirão firmes com as regras e dirão: “Não! Isso aqui é um jogo de verdade! Regras são regras, errou, tá fora!”.

A partir destes exemplos simples, Gilligan nos mostra que os meninos podem preterir os sentimentos para manter as regras, enquanto as meninas não vêem problemas em mitigar as regras para não ferir os sentimentos alheios, pois querem naturalmente ajudar, conectar e curar.

Como dissemos, não queremos estabelecer uma comparação entre masculino e feminino, nem tampouco exaltar o feminino em detrimento do masculino e vice versa, pois sabemos que a vida real é bem diferente de brincadeiras de crianças, mas quem sabe com esta abordagem, homens e mulheres se tornem mais conscientes de seus potenciais naturais; quem sabe masculino e feminino se permitam manifestar e viver suas diferenças para enriquecer as relações e estabelecer mais respeito e compreensão entre si.

Quem sabe, no cenário social, onde ainda impera a lógica masculina, ao invés de buscar uma “igualdade artificial” entre homens e mulheres, pudéssemos dar mais espaço para o feminino se manifestar com suas diferenças, e quem sabe talvez pudéssemos conceber um novo modo de “jogar” o jogo da vida, onde os jogadores conheçam e sigam as regras, mas que cada um busque também cuidar de si mesmo e dos outros, que todos busquem se conectar efetivamente com o outro e estabeleçam relações mais empáticas fundadas na compaixão e na ajuda mútua.

Um Feminismo Ético-Espiritual, portanto, não serviria para exaltar o feminino em detrimento do masculino, mas para promover um equilíbrio saudável entre os potenciais masculinos e os dons femininos em todas as relações, seja consigo mesmo, seja com os outros. Isso é importante para que a partir de suas diferenças, homens e mulheres possam contribuir para a formação de um todo (humano) homogêneo em que, obviamente, valham as regras, a justiça e a autonomia individual, mas estas sejam temperadas pela compaixão e pela tolerância.

 

Sobre o autor

Jaciane Mascarenhas

Advogada, Escritora e Coach de vida e espiritualidade. Seu propósito e missão de vida é ajudar as pessoas a despertar para os potenciais mais elevados e altruísticos que possuam. Acredita que o autoconhecimento e a espiritualidade, com ou sem religião, podem ajudar o ser humano a promover uma cultura de paz, harmonia e compaixão no mundo. Meditadora e buscadora espiritual há mais de 10 anos, pensou não poder conciliar sua profissão de advogada com a missão de ajudar as pessoas a viver mais feliz e em paz consigo, mas num profundo processo de autoconhecimento, descobriu uma nova maneira de ser, ressignificou sua trajetória e hoje vive com um propósito maior de servir o próximo com todas as suas potencialidades e dons.

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