Convivendo

Precisa-se

Pai e filhos brancos, com criança sentada nos ombros do pai segurando um pipa.
Evgeny Atamanenko / 123rf

A paternidade é uma parte da vida do homem ainda pouco explorada, pelo próprio homem.

A paternidade é uma parte da vida do homem muito fantasiada, pelas mulheres.

A paternidade é uma parte da vida do homem muito desejada, pelos filhos.

A paternidade poderia resolver ou atenuar muitos dos problemas mais urgentes da sociedade atual.

Precisa-se, mais do que nunca, de pai que saiba que é pai e haja como pai.

Não precisa ser um superpai, desses, como nas mídias, que aparecem malhados, felizes, bem-sucedidos e seguros de si, fortes e sensíveis. Só precisa ser de verdade, nada mais.

Na psicologia, aprende-se que a função paterna pode ser exercida por qualquer pessoa, de qualquer sexo, gênero ou grau de parentesco, o que no popular se diz: “Pai é quem cria.” Embora essas duas ideias, uma científica e outra, senso comum, convirjam e venham muito a calhar em uma sociedade machista e precária como a nossa (assim aumenta em muito a chance das pessoas terem um pai), fica a pergunta: por que é tão difícil para o homem, hoje, ser pai?

Claro que essa pergunta é inquietante e, por si só, gera outras. Em alguma época, ser pai foi fácil? Ainda que se queira que os homens assumam seu lugar de pai, há espaço para isso? É tão bonito e desejável, como se diz, ver e ter um homem em casa sendo pai? E por que tanto espanto e alarde quando um homem decide, ou tenta, ocupar seu lugar de pai, dedicando-se mais aos filhos em detrimento de um maior rendimento ou mesmo da carreira? Por que gera notícia um pai que assume suas responsabilidades com os filhos, fazendo nada mais que sua parte?

Pai negro beijando bochecha de filho branco
Kelly Sikkema / Unsplash

Poderíamos continuar com as perguntas, mas a dificuldade talvez esteja nas respostas que encontraremos, se por um minuto conseguirmos vencer a barreira das aparências e acessar um pouco mais do que se pensa e espera, realmente, da vida após o advento da gravidez.

Quando nasce um bebê, não nasce uma mãe, tampouco um pai. Ambos estão em situações que precisam entender, e saber lidar com coisas que demandam muita energia e maturidade, porém com a mesma disposição e a mesma maturidade que tinham antes.

Ter um filho não amadurece ninguém, mas o processo de criá-lo e educá-lo, sim. Ser pai é uma escolha, como qualquer outra na vida.

Ser pai tem a ver com sexo, com gravidez e com uma delicada noção do que é estar presente, já que após a concepção, o papel do pai na gestação é, no mínimo, confuso (sobretudo para ele).

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Um homem que acredita ser pai apenas após o parto já perdeu muita coisa da história de seu filho, mas é fácil imaginar que estar disponível e ao lado de uma mulher enquanto ela se encarrega de tudo dentro de si, pode ser confundido com ser subserviente e ceder a frescuras e desmandos, que são melhor traduzidos em nossa cultura (e não só na cabeça do homem) por caprichos femininos. Esse incômodo pensamento poderia muito bem se aplicar a todo o resto de circunstâncias na vida familiar.

Será esse distanciamento no “quem faz o que” durante a gestação, que se perpetua na vida do homem? Certamente, temos aí uma questão, mas há muito mais de onde saiu essa.

Curiosamente, ser pai convoca o homem a romper com o machismo e afirmar-se como homem por ele mesmo. Pode-se supor o quanto isso é complicado, uma vez que todos fomos, ou estamos sendo, criados e educados em meio ao predomínio forçado do masculino sobre o feminino.

Pai e filha negros, a filha com mão levantada encostando na bochecha do pai.
Biova Nakou / Pexels

O pai é o não. O pai é o limite. O pai é quem se deixa prender por vontade, já que, por natureza, é sempre o terceiro na relação. O pai é o provedor, e isso muito pouco tem a ver com dinheiro. Difícil de entender? Muito mais difícil de empreender!

A época em que vivemos, muito bem definida por Bauman, é líquida. A função do pai, muito bem pensada por Freud e companhia, é dar forma, contorno, continência ao conteúdo que corre o risco de escorrer, se perdendo.

Sobre o autor

Eduardo Marchese Damini

Eduardo Marchese Damini

Eduardo Marchese Damini é psicólogo clínico, docente do curso de Psicologia no Centro Universitário Fundação Santo André e Mestrando em Psicologia da Saúde na Universidade Metodista de São Paulo.

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