Convivendo Educação

Presenteie seu filho: deixe-o sofrer

Happy loving family and Father's Day. Father and his daughter. Cute child girl gives a gift to dad.
Rafael Mansur
Escrito por Rafael Mansur

Existe uma coisa que me deixa inquieto quase todos os dias da minha vida. Digo quase todos, porque, em alguns dias, prefiro comer a pensar em questões existencialistas. Esta coisa se chama criança (junto ao papai e à mamãe).

Como é o que me deixa de fato inquieto, eu resolvi falar disso neste meu texto inaugural aqui no Eu Sem Fronteiras. Desta maneira, você que me lê já entende – de cara – do que eu falo e penso.

Criança me deixa inquieto, mas não falo de criança sozinha. Só fico inquieto quando vejo criança perto de adulto, criança sozinha é bicho esperto. Sabe o que faz, como faz e a melhor maneira de fazer. A gente quando cresce fica bobo, desnorteia a cabeça e só vira adulto quando, com certeza, substituímos boa parte das sinapses por ganância.

O ruim é que bicho adulto acha que sabe das coisas e acha que sabe mais que criança. E a criança, sem ter – infelizmente – muita voz dentro das discussões, se cala diante um adulto. É aí que a gente erra.

A gente erra achando que adulto sabe muito e criança não sabe de nada.

Erramos feio.

A gente erra quando passa a vigiar todos os passos da criança, erramos quando criamos o conceito de que a criança deve ser feliz sempre, não se machucar nunca, sentir tudo o que há de bom e se blindar das maldades da vida. A gente constrói uma bolha, coloca a criança dentro e achamos que estamos fazendo um bom trabalho. Erro!

A gente tem que parar de proteger criança, parar de ofertar só felicidade, deixar a criança se machucar e vê-la, sozinha, se recuperar das feridas. Tirar a casquinha, cicatrizar novamente e assim aprender. Adulto é um bicho tão besta que vive para o ontem e acumula para o hoje. Só esquece do amanhã.

Não se esqueçam, adultos, a gente nunca sabe se existirá o amanhã.

É preciso atentar-se à morte e não ter medo dela. Saber que nosso destino será, inevitavelmente, cair em suas mãos.

Quero dizer que, um dia, a gente morre e, quando a gente morre, tudo aquilo que nós privamos às crianças de aprender e sofrer – só para nunca vê-las infelizes – vai ser cobrado em dobro.

É um cordão umbilical que nunca é cortado. t

Eu sou gestor de um colégio e o que mais me dói é ver um monte de mães e pais superprotegendo as crianças. Se a criança cai, a mamãe chora; se a criança perde uma competição, o papai esperneia; se a criança quer, a mamãe compra; se a criança nega, o papai emburra. E aí a criança vai crescendo e achando que o mundo é só alegria e que a bolha em que ela vive é real.

Pobrezinha, um dia ainda vai ver o que é real e como o real não é só cor de rosa. Machuca às vezes.

Sad little child boy hugging his mother at home isolated image copy space. Family concept

A gente tem que carregar na cabeça a ideia de que não dá para proteger ninguém o resto da vida. Porque um dia a gente morre e a bolha estoura.

Se você quer, de alguma maneira, a felicidade eterna para seu filho, esqueça. Isso não existe. O que sugiro é: veja-o sofrer, mas ensine-o resiliência, a como curar a dor que a vida oferece. Vai ter felicidade também, ensine-o a aproveitar. A melhor maneira de criarmos uma criança feliz é permitindo-a ser infeliz.

A dor faz parte da vida. Aceite isso como um verdadeiro conselho e deixe seu filho sofrer, nem que isso doa em você.

Sobre o autor

Rafael Mansur

Rafael Mansur

Graduado em pedagogia pela UEMG com MBA em gestão de projetos pela USP, Rafael Mansur desenvolve projetos educacionais há oito anos e culturais há seis. Premiado nacionalmente por quatro projetos de educação, Rafael é o idealizador e curador da Bienal do Livro de Contagem, que segue para a sua terceira edição.
Em 2020, Rafael assumirá a curadoria do I Congresso Internacional de Educação para o Desenvolvimento Sustentável (Belo Horizonte) e a curadoria de uma das casas parceiras
da Flip 2020.

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