Autoconhecimento Comportamento

Qual é o segredo para vencer o seu medo?

Mulher de costas com braços para o alto com sol refletindo
Renata Silveira
Escrito por Renata Silveira

Nascemos com o medo; ele é instintivo, biológico, e essencial para a nossa sobrevivência. Mas fruto de cortes não cicatrizados, alguns receios são apenas resultado de uma psique traumatizada.

Rosto feminino com foco nos olhos

Buda conta a história de um homem que viu uma cobra em seu quarto antes de dormir, e ficou imóvel a noite inteira na esperança de que a cobra pudesse o atacar. Na luz do amanhecer, o indivíduo viu que, na realidade, a cobra era apenas a sombra de uma simples corda, e não uma serpente peçonhenta e perigosa. Assim nós também fazemos quando não iluminamos as partes escuras de nosso ser. Ao acender à luz de uma lanterna dentro de nós, podemos ver com mais clareza o que é preciso ser curado e trabalhado. Nem tudo o que está diante de nossos olhos é real. Quando não enfrentamos nossos monstros, também ficamos imóveis, passivos e temerosos.

“O medo tem muitos olhos e enxerga coisas no subterrâneo.” Miguel de Cervantes, no livro Dom Quixote

O conceito abordado no livro ‘Inteligência Emocional’ de Daniel Goleman, nos auxilia a vencer obstáculos cotidianos – tal como o medo – com a ajuda da neurociência. Um dos exemplos mais didáticos para introduzir o tema, é o da bicicleta: se em algum momento de nossa infância nos machucamos caindo de bike, a dor se enraizará no cérebro e evitará um novo experimento. E como reverter isto? Basta analisar o que causou a queda, precaver-se e tentar novamente. Conhecendo e administrando o nosso lado emocional, trocaremos os papéis de ‘reféns, para ‘comandantes’ dos nossos próprios traumas.

“O cérebro emocional responde a um evento mais rapidamente do que o cérebro pensante.” Daniel Goleman

O medo é biológico, mas a capacidade de aprender e administrar, também é. Como Goleman nos ensina, distinguir e caracterizar as emoções para depois reagir, nos liberta das tribulações que estão sempre provocando o medo e a inatividade em nossas vidas. É preciso olhar para dentro para eliminar nossos impulsos frutos do temor irracional, e dar lugar à lucidez da sabedoria e da ponderação. Se não conhecermos nossas fraquezas, seremos, inconscientemente, reféns de todas elas. A covardia se manifesta quando não podemos controlar uma situação, e sobretudo, quando não temos temperança para formular uma solução. Confrontar a ignorância emocional é alcançar novos patamares da autoconsciência.

Homem pulando de pedra em mar

“Devemos aprender sobre o medo, não como escapar dele.” Jiddu Krishnamurti

É muito comum sairmos de um relacionamento conturbado para outro, sem dar tempo a nós mesmos, na esperança de que nossa carência seja tratada por outra pessoa. E é dessa forma que desencadeamos mais doenças e acúmulos emocionais. Tentamos substituir a sustentação interna pela externa usando pessoas, bens materiais, vícios e demais consumos como pilares de segurança. A verdade é que bens, acervos e pessoas, vem e vão.

Quando somos consumidos pelo medo, pela compulsão e pelos impulsos, nos tornamos dependentes das falsas sustentações externas. Se a nossa segurança está cada vez mais ligada a nos conhecer e a nos dominar, nosso ponto de apoio estará sempre dentro de nós mesmos, em nossa morada. Voltar ao nosso lar e ressignificar toda à experiencia vivenciada com sabedoria e manutenção, é autocuidado que se converte em autoconhecimento. Mínimas dores diárias podem ser acumuladas se não forem reparadas com frequência. O caminho contrário é simples: voltar a si e dar os pontos cirúrgicos necessários para as cicatrizações.

Mão saindo do mar segurando velinha de brilho

“Depois de andar os caminhos que lhe levam aos outros, voltar a si. O movimento último de cada dia deve ser o de recolher-se. Que seja uma regra: nunca dormir fora da casa do ser. Nunca ao outro dedicar a última prosa. A última palavra do dia precisa ser consigo. Obedecer ao movimento que lhe acomoda, devolve à intima comunhão, ao estado primitivo, pessoal, inicial […] Depois de tudo oferecer aos outros, retornar em si para realimentar o que amanhã continuará sendo oferecido.” Pe. Fábio de Melo

Vivemos em função dos nossos medos não instintivos, mas sim criados e produzidos por nossas crenças familiares, superstições hereditárias, experiências falidas e, principalmente, por cicatrizes não curadas. Só nós temos o poder de curar debilidades, fraquezas e enfermidades. Na psique, a enfermidade não curada é câncer progressivo; o tumor percorre pelo coração, se aloja no cérebro e paralisa os movimentos da alma, do espírito e da consciência.

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Nenhum trauma será alimentado pelo medo se tivermos local seguro para hospitalização. O autoconhecimento ligado ao autocuidado é cimento rígido que constrói os mais fortes pilares de nossa casa. Tenha para onde retornar, cuide e dê manutenção para o seu lar.

Sobre o autor

Renata Silveira

Renata Silveira

Sou uma jornalista multifacetada. Gerente de projetos, amante da filosofia, pisciana e, nas horas vagas, escritora.

Escolho escrever sobre comportamento humano e desenvolvimento pessoal com o intuito de suprir minha verdadeira paixão, que é o autoconhecimento ligado à filosofia. Não há conhecimento sem reflexão, e não há reflexão sem o estudo da existência humana.

Sou curiosa e acredito que experimentar universos diferentes do meu me revela novas identidades. Por isso, busco na quebra de convicções minhas ressignificações.

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