Comportamento Relacionamentos

O impacto da era digital nas relações humanas

Casal tomando café da manhã cada um com seu celular
Renata Silveira
Escrito por Renata Silveira
Que a modernidade tem nos acorrentado com seus avanços tecnológicos não é novidade. A mesma praticidade que nos auxilia no dia a dia e gera grandes inovações é a mesma que nos molda como sociedade. A velocidade das mudanças socioculturais oriunda da ascensão digital fragiliza os alicerces das relações humanas e, consequentemente, o modo como guiamos a vida.

Um belo dia meu liquidificador quebrou, imediatamente comprei outro pelo celular com apenas alguns toques; viva a praticidade! Em conversa com a minha mãe sobre o ocorrido, ela resgatou o aparelho antigo, levou para o técnico do bairro e o trouxe em perfeito estado gastando menos de 1/3 do que gastei comprando um novo. Não satisfeita, se apropriou do eletrodoméstico enquanto advertia: “o que se quebra se conserta”. Passei a semana refletindo sobre como a tecnologia mudou nossos hábitos e automatizou nossos atos.

Bem-vindo(a) à era pós-moderna! Um mundo em que compramos roupas com um clique e resolvemos pendências bancárias usando a nossa digital. É com essa facilidade que a mente se educa e responde da mesma forma quando se trata de interações sociais, de relações afetivas, meio ambiente, fé religiosa e até mesmo de mercado de trabalho. Freelancers e serviços terceirizados são muito mais viáveis para os contratantes que preferem experimentar profissionais que suprem carências esporádicas. Nas instituições religiosas não é diferente, quantos você vê suplicando por bens materiais? O fato é que, quando não são atendidos com o que almejam, descreem do poder divino pregado naquela congregação.

Todos esses conceitos já foram estudados e divulgados pelo sociólogo e filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman, que denominou a doença como “modernidade líquida”, em que nada se faz sólido, pois absolutamente tudo é fluido e flui em eterno movimento. Tudo é dirigido pelos nossos desejos e pela rápida substituição dos mesmos. Os filósofos da antiga Grécia acreditavam que os vícios e os anseios que nunca se saciam são provenientes da falta de virtude e do apego ao mundo externo. Para eles, não há como viver uma vida plena se o nosso tempo for preenchido com prazeres que se repetem e tomam-nos a autonomia de vida.

Mulher em café com notebook mexendo no celular

Eis a pergunta: o consumo em excesso é resultado de nosso vazio ou só estamos exigentes demais? Voto na primeira opção. Quando estamos em um caminho de evolução pessoal, queremos preencher absolutamente tudo, menos o ego. Pois sabemos que o ego é o grande pai dos excessos, e o excesso, por sua vez, só cabe em vazios. Perceba: os indivíduos que mais consomem pessoas, lugares, objetos, alimentos e status são os mais doentes emocionalmente.

“Numa sociedade de consumidores, tornar-se uma mercadoria desejável e desejada é a matéria de que são feitos os sonhos e os contos de fadas.” Zygmunt Bauman

Olhe em volta das mesas dos restaurantes; quando uma criança não gosta do ambiente em que está, basta ofertar o tablet em troca de disciplina. Uma resolução a curto prazo e bem perigosa. Todas elas crescem com a convicção de que o que não agrada pode ser evitado por distrações, ignorando e rejeitando a realidade ali vivenciada. O quanto isso é prejudicial para o amadurecimento e desenvolvimento humano? Se quando criança posso descartar o que não me deixa 100% satisfeito e o que não me convém, replicaria o mesmo para todas as áreas da minha vida neste contínuo desdobramento?

Mulher com crianças assistindo iPad

Leia também: “A vida é líquida”.

Já viram os aplicativos interativos de celular que prometem achar seu par perfeito? São perfis rotativos com descrições limitadas sobre quem somos. Dois cliques, uma curtida, uma combinação entre contas e a possibilidade de uma interação. Um catálogo online onde os “produtos” são pessoas. Assim como as redes sociais, esta seria uma ótima ferramenta de interação se não fosse pela cultura do consumo desenfreado. Nesta era consumista, a experiência interpessoal tornou-se uma experiência mercadológica. Assim como temos recursos que são ágeis e que se adaptam à nossa rotina por meio da tecnologia, também buscamos no outro essa satisfação imediata, tratando-o como se fosse um aplicativo.

Uma mercadoria que permite uso imediato e fácil descarte, suprindo o que me carece e me livrando de qualquer responsabilidade e afinco.

Mesmo inconscientemente, sabemos que a modernidade também nos coloca à prova dessas incertezas. São elas que nos causam medo quando estamos fadados pelas paixões. E, vestidos em armaduras, desbravamos somente a superfície, um território limitado que incita o repetitivo desejo ligado ao encantamento temporário e à enganosa saciedade.

Pessoas encostadas mexendo em celulares

Quão desconfortável é entrar em terras inexploradas e desconhecidas? O mergulho nas incertezas não nos dá garantia de troca, a nota fiscal torna-se inválida quando encharcada pela água. Todas essas disfunções causadas pelo receio são as principais causas da ansiedade, da irracionalidade, insegurança e instabilidade emocional que contaminam o cerne das relações. Bauman explica que, tomados pela ilusão da modernidade e pelo aliciamento do ego, tendemos a achar que amamos o ser amado, sendo que, na verdade, estamos praticando a autoadoração. Se estamos apenas projetando no outro os aspectos que amamos em nós, o amor nada mais é que o próprio narciso; como em um reflexo, estou amando a mim mesmo. Frustrante será quando relembrarmos que não somos feitos só de grama verde, aquela que expomos nas redes. Somos feitos de partes defeituosas, algumas com consertos e outras irreparáveis. Para retornarmos à nossa natureza, é preciso lembrar todos os dias de nossa essência em matéria; somos espécie humana. Nossas relações não funcionam como APIs com perfeitas integrações e mínima margem de erro.

“Nós não consertamos mais relações humanas, nós as trocamos. E ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos por outras pessoas, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da novidade. Ao trocar alguém, imediatamente eu me torno alguém mais interessante e não percebo que aquele espelho continua sendo o drama da minha vaidade.” Leandro Karnal

Homem em pé em sala mexendo no celular

Estaríamos acostumados com as serventias digitais e projetando isso no convívio com nossos amigos, namorados, familiares e demais pessoas do nosso núcleo social? Ah, mas uma coisa é certa: jamais alcançaremos o estado perfeito e nem mesmo seremos 100% compatíveis uns com os outros. Sendo máquinas, talvez; sendo humanos, nunca. Não só nos tornamos uma sociedade mimada ao luxo do consumo como também estamos fertilizando o mesmo na mente de nossos filhos, sobrinhos e netos. Depois de um período, com o cérebro imerso neste contexto social, começam as determinações: o que não é prático ele trata como descartável. E se não agrada ele não tolera. Quando não mais beneficia, ele pede por substituição. Se existe imperfeição, incompatibilidade e se não supre constantemente nossas carências emocionais, não nos serve.

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“Isentar o desejo é respeitar a matéria como ela é. Não por tratá-la pior, mas por tratá-la infinitamente melhor. Porque você respeita as coisas por elas mesmas, e não porque elas podem um dia te servir.” Lucia Helena Galvão

Mão segurando celular

Automatizamos nossa vida como robôs racionalizados por fiações elétricas e perdemos o grande sentido da existência na Terra. Não podemos relançar versões 2.0 de nós mesmos enquanto não admitirmos a nossa matéria. Que respeitemos cada qual em sua substância e função: a rede social a fim de manter nossos vínculos; a religião para hospedar nossas crenças; o trabalho para nos edificar como profissionais; e o ser humano tal como é. Que consumamos todas as tecnologias como privilégio desta era, mas que não esqueçamos quem somos, criaturas de natureza biológica. Afinal, nosso coração bombeia sangue, e não ondas eletromagnéticas.

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.” Carl Jung

Sobre o autor

Renata Silveira

Renata Silveira

Sou uma jornalista multifacetada. Gerente de projetos, amante da filosofia, pisciana e, nas horas vagas, escritora.

Escolho escrever sobre comportamento humano e desenvolvimento pessoal com o intuito de suprir minha verdadeira paixão, que é o autoconhecimento ligado à filosofia. Não há conhecimento sem reflexão, e não há reflexão sem o estudo da existência humana.

Sou curiosa e acredito que experimentar universos diferentes do meu me revela novas identidades. Por isso, busco na quebra de convicções minhas ressignificações.

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