Autoconhecimento

Quem se importa?

Quarto com sofá cinza encostado na parede e um gato sentado.
Alena Ozerova / 123rf
Andrea Ralize
Escrito por Andrea Ralize

Nem todos os dias estamos bem. Aliás, neste período que estamos vivendo, ficar bem tem exigido de muitos de nós uma força sobre-humana, já que o que era comum e normal se transformou sobremaneira e não se reconhece o mundo, que vem se tornando difícil e confuso, dependendo do enfoque que se dê a ele agora. Pensando assim, gostaria de compartilhar com vocês uma maneira que tenho de lidar com a dor, confusão, medo, angústia, desde bem pequena… Eu pego um pedaço de papel e uma caneta e deixo minha mão escrever o que vem, sem questionar, sem julgamentos. Isso geralmente é como um curativo para a ferida, que ainda está muitas vezes bem aberta, mas com atividades como essa, a escrita, a dor do machucado fica menor, pois o pus e a sujeira saem… e o sangue pode correr mais solto e livre, levando embora, no tempo certo, a lembrança da ferida. Muitas vezes restam cicatrizes, mas essas com certeza são amadas no futuro como um prêmio de consolação.

Ontem eu escrevi isto:

Ando me perguntando o motivo de ser tão difícil controlar a minha própria mente, deixá-la serena e tranquila, possibilitar a ela condições de não se deixar afetar por situações externas. Minha mente, apesar de tantas tentativas, continua mandando em mim. Ela se agita e cria armadilhas nas quais eu muitas vezes caio e não consigo me libertar. Apesar de ela ser minha, é impossibilitada de ser uma companheira. Torna-se minha mais hábil inimiga. Coloca fora de mim a culpa, projeta fora de mim meus anseios de ser amada, dificulta a compreensão de mim mesma e faz barulho, muito barulho, não ouço mais nada a não ser essa confusão de pensamentos que ela tem.

Neste momento da vida, eu estou novamente passando por uma situação tão conhecida. Uma situação de descontrole mental, uma situação tão comum no meu funcionamento: colocar no outro a chave do meu bem-estar, colocar no outro a capacidade de eu ser feliz, colocar no outro o controle remoto de meu equilíbrio. Finjo que o pouco amor e atenção que recebo é o suficiente para eu me levantar todo dia e ter esperança. Mas esse pouco amor não é sequer migalha ou sobra, é resultado de muito implorar, de muito me humilhar para conseguir atenção.

Close no olho verde de um homem branco com a mão ao redor do olho.
Adrian Swancar / Unsplash

Como meditar e tentar agir com retidão se a confusão mental gera essa dor que dilacera e me separa do meu eu? Tudo me deixa desestabilizada e infeliz, não há vontade de sair, ver gente, experimentar coisas novas, abandonar a segurança da cama vazia.

Isso é depressão? Isso é consequência dessa doença crônica que nasceu comigo e tem sido minha fiel companheira? Isso são traços da depressão que, em muitas fatias da minha vida, me tornou refém de pensamentos desordenados e emoções turbulentas? Não sei ao certo. Mas, neste momento, em que há uma pandemia solta lá fora, em que a morte ronda em todos os lugares, em que não se pode confiar em ninguém a não ser em si mesma, eu acho que isso se chama depressão. O mundo está em depressão… as florestas queimam… os bichos inocentes morrem… algumas pessoas insistem em comportamentos egoístas…

Esse estado mental de querer parar tudo, desistir de tudo, evitar tudo, fugir de si mesma é um estado mental que já conheço bem, mas não controlo. Essa realidade mexe com meu sentimento de impotência, detona com minha autoestima, faz com que eu desacredite totalmente da minha capacidade de estar só. Mas eu sempre estive só. Paradoxo. Eu sempre, desde que me entendo por gente, estive só. Um mundinho tão meu e tão protegido por todos os lados. Abuso. Abuso. Abuso. Solidão. Autoestima destruída. Solidão. Incapacidade de me sentir bem com qualquer pessoa, em qualquer lugar. Vontade de viver um grande amor. Grandes amores não existem. Não existe Papai Noel. Não existem fadas e duendes. Mas eu acredito. Eu acredito.

Quem se importa?

Mulher branca de cabelos ruivos no rosto com expressão calma
Juli Kosolapova / Unsplash

Conselhos vêm de todos os lados. Todo mundo acha que pode dizer o que se deve ou não fazer. Fala-se que é falta de Deus, falta de fé, covardia, frescura. Mas será que se sabe como é morar dentro de uma alma depressiva? Será que se sabe que dentro dessa alma falta o ar, mas é preciso respirar? Falta carinho, sente-se necessidade de carinho, mas o medo de recebê-lo é maior que o buraco de solidão que foi crescendo com o tempo? Viver uma ambivalência emocional o tempo todo, todos os segundos da vida… querer ser amada e temer isso… querer amar e perceber que se é incapaz de reconhecer o amor…

Quem se importa?

De verdade, no fundo da verdade, quem se importa com o que se passa dentro de mim?

De verdade, quem pode curar essa dor milenar?

Quem se importa?

Tenho a resposta e não desconfio dela. Eu sou a única que me importo e posso me curar. Só não encontrei ainda o remédio, a terapia, o local para repousar e renascer. Não encontrei o caminho que pode levar-me ao encontro de mim mesma. Ainda não pude mirar meus próprios olhos, pois existe uma neblina que me afasta da verdade, e talvez isso seja bom. Será que estou pronta para mirar meus olhos? Existe um muro alto que me impede de chegar até mim.

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O barulho da mente está gigante, está estrondoso. Não sei onde encontrar o botão para diminuir o volume. Eu não aguento mais. Não sei se vou suportar mais tempo. Preciso de ajuda, preciso segurar minha mão para não cair no abismo da incapacidade de me encontrar. Quem se importa?”

Ao terminar essa quase “psicografia” de mim mesma, sentindo-me então mais calma e mais segura, quero falar um pouco sobre como as pessoas podem assumir diferentes papéis, e tá tudo bem! Assim é a dinâmica da vida. Por vezes se está mal a ponto de querer desistir de se levantar, preferindo ficar na cama o dia todo, escondendo-se da realidade, por outras vezes, a mesma pessoa pode querer ajudar quem está vulnerável, ouvindo quem precisa de apoio emocional, sem julgamentos, sem aconselhamento, com uma postura compreensiva, ou seja, colocando-se empaticamente no lugar do outro. Não é uma tarefa fácil, pois exige que se consiga olhar o problema apresentado com o ponto de vista de quem está desabafando e não sob o nosso ponto de vista, sem fazer projeções de valores, sem se sentir superior apenas porque se está na posição de ouvinte.

Uma das alternativas para quem precisa desabafar é o CVV. Fundado em 1962, em São Paulo, ele atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio pelo telefone 188, por chat, por e-mail e também pessoalmente (não na época em que estamos agora, de isolamento).

São mais de 4 mil voluntários espalhados em mais de 120 postos no Brasil, atendendo 250 mil ligações por mês, em média.

Mulher branca e loira de cabelos curtos, usando jaqueta rosa.
Ilya Shishikhin / Unsplash

Além de escrever, colorir mandalas, fazer yoga para tentar se encontrar, também é possível ser uma das 4 mil pessoas que, voluntariamente, oferecem no mínimo quatro horas semanais para ouvir quem precisa se ouvir. Sim, quando se ouve o desabafo de alguém de maneira empática, isso faz com que a pessoa possa se ouvir. Não como acontece no dia a dia, quando alguém vai contar algo que a aflige e logo vem o “ouvinte” e diz: “Comigo foi pior… vou te contar…” O ser humano está sem tempo para ouvir o outro… Somos surdos de sentimentos alheios… muitas vezes, ouvir cansa… dá preguiça… então, quando alguém quer desabafar, quase sempre se arrepende de ter tentado, pois vai ouvir histórias, conselhos, reprovações, julgamentos… melhor se calar. A cabeça de quem está passando por um desajuste emocional está a mil por hora, ela só precisa falar, precisa esvaziar, precisa se ouvir e, assim, tirar a pressão que pode, inclusive, levar ao suicídio.

Aproveitando o Setembro Amarelo, faço dois convites. Se precisa conversar, desabafar, se abrir, ligue no 188. Se tem vontade de se juntar a esse trabalho como voluntário, entre no site www.cvv.org.br e faça a sua inscrição para o próximo curso de seleção.

Precisamos nos sensibilizar… mesmo sendo uma grande e infinita dualidade. Todos nós somos essa dualidade, pois, ao mesmo tempo que causamos o nosso próprio sofrimento com nossas escolhas, somos a única maneira de encontrar a cura.

Sim, há quem se importe! E você? Se importa?

Sobre o autor

Andrea Ralize

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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E-mail: [email protected]