Convivendo

Renasce quem morre, morre quem fica

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Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo
Furrequinha – parece que de longe eu te escuto me chamar e a sensação que eu tenho, é a de que você está sempre por perto, onde quer que você esteja. Não lembro ao certo como tudo aconteceu e é difícil desatar o nó desde o acontecimento do seu acidente até o momento da sua morte. É difícil lembrar-se do dia em que você veio aqui em casa e ligou no meu trabalho para saber como eu estava, lembro que você estava tão bem ao conversar comigo pelo telefone e até tínhamos combinado de nos vermos em breve. Mas aí, a vida tomou outro percurso doloroso… Eu me recordo das últimas vezes em que eu te visitei no hospital e não sei se você vai se lembrar da vez em que eu cantei um trecho do hino do Corinthians e pedi tanto que você ficasse bem e saísse logo da UTI.

Dias atrás, teve aquele famoso clássico entre o jogo do Palmeiras X Corinthians e a sensação que eu tive foi a de que você estava aqui perto tirando graça com a perda do meu “Parmeira”. Quarta-feira, eu lembrei exatamente das vezes em que você fazia questão de me ligar só para me lembrar do quanto o meu time joga ruim e o seu time joga tão bem e, pela primeira vez, fiz questão de concordar e ficar feliz pela vitória do Corinthians. Lembrei também dos tantos aprendizados que tive com você. Peguei-me rindo das vezes em que você me levava para passear e, eu tinha a mania de me esconder e, depois nos encontrávamos e caíamos na risada. São tantas lembranças, tanta gratidão por ter tido um ser tão incrível e cheio de luz nessa minha caminhada ao longo desses meus vinte e dois anos.

Já faz uns quatro meses que você se foi e eu sinto uma saudade imensa de você, mas nada comparado ao orgulho e gratidão por ter sido uma grande referência na minha vida. Gratidão que eu sinto em ter te conhecido e ter te adotado como o meu avô. Sinto um orgulho imenso em dizer que você foi e sempre será o avô mais incrível de todo o meu mundo. E confirmo a frase citada pelo CFA:

“- E o que a gente vira quando vai embora de alguém? E o ‘Senhô’ respondeu: – Uns viram pó. Outros caem igual estrela do céu. Outros só viram a esquina. E têm aqueles que nunca vão embora. – Não? E eles ficam onde, ‘Senhô’? – Na lembrança.”

Lidar com o luto é um processo árduo, a sensação é horrível e impossível de explicar. É como um túnel em meio ao tudo e ao nada – um mix de nostalgia e aprendizado. Gratidão por me fazer entender qual é o propósito dessa vida. Gratidão por me fazer entender que a morte é só mais uma passagem para o nosso autoconhecimento. Gratidão por me fazer enxergar que a morte, acima de tudo, é um renascimento. Renasce quem morre, morre quem fica. Brilhe onde quer que você esteja e transcenda essa sua luz.

Com saudade, todo o meu coração e um abraço apertado onde quer que você esteja,

Furrequinha.

Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

É custoso descrever quem sou eu – já que constantemente lapido, modifico e me transformo em um pouco de tudo e muito de cada pouco. Inicialmente posso compartilhar dizendo que sou extremamente curiosa, apaixonada pela comunidade surda, pela língua de sinais e por tudo que envolve a linguística.

Foi na faculdade de medicina e como acadêmica há alguns anos (com a esperança de trabalhar com o ser humano e suas limitações) que eu adentrei para um universo de que eu não fazia ideia que fosse possível existir e que pudesse trazer a bagagem que tenho hoje. Minha busca incessante pelo autoconhecimento e entendimento para muitos dos questionamentos que já tive (e continuo tendo) me fez despertar para o meu atual desígnio.

Minhas tantas outras peregrinações e experiências também contribuíram e muito com o meu desígnio – a começar pelo de compartilhar junto a vocês, leitores do EuSemFronteiras, sobre a primordialidade de enxergarmos para além do que nos visibiliza os olhos e lembrarmo-nos sempre de sermos semelhantes ao sol, mesmo em meio às sombras escarpadas montanhosas da vida.

Com todo o meu carinho e gratidão imensa,

Mãos em prece e um saudoso e caloroso abraço em cada um.

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