Convivendo

Seleção hologramática

banal
Escrito por Thiane Avila

Os dias às vezes parecem travados. A voz muda, o tom desarmônico e as notas erradas. Há dias em que insistimos nos erros, atravessamos os sentimentos e recuperamos lembranças enterradas. Há momentos em que só se quer sumir, mudar a rota, esconder o destino e transmutar os arredores.

Existem pessoas que simplesmente não fecham, não entram, não conseguem ficar. A sincronia das horas, por vezes, parece nunca se alinhar. Não é de propósito, mas acontece de a energia não fechar, de os objetivos não coincidirem e as vontades tornarem-se solitárias. Vãs. Acontece que esperamos pelo próximo sentido, pela próxima risada, pelo próximo dia. Queremos sempre a próxima folga, a próxima festa, os próximos encontros, os próximos beijos.

A verdade é que vivemos mais a espera do que o momento em si. Somos felizes ao planejar, inventar, enriquecer de detalhes os planos. O barato do futuro é o que o antecede, as linhas que intercruzam os imprevistos e o tanto de inesperado que encontramos pelo caminho. Nunca é o dia da formatura, mas os anos estudando. Nunca a festa de casamento, mas os meses organizando. Nunca o fim, mas os meios, os aprendizados, as circunstâncias.

Hoje, olhando para trás, percebo o quanto de nada havia na maior parte do tão esperado “tudo”. Ao longo do percurso, gastamos as energias com o supérfluo, o banal. A vida é senão uma retórica que, a rigor, não permite resposta. Simplesmente acontece e não mensura. Por isso, passei a pensar mais nos elementos da contextualização do que no próprio contexto. Emancipar mais as sensações ocasionais do que as ocasiões das sensações. Procurar menos a identificação e buscar mais o identificar-se.

banal

Ao perceber o monólogo da existência, concebo a exacerbada coletividade de uma vida sozinha. As conversas dialógicas e pouco recursivas, os encontros mais fugazes do que ansiosos. Tudo pelo fim e pelas próprias verdades. Argumentos, pois, travados pela concepção de vencer, de estourar os limites do conhecimento e da informação superiores. A verdade é que as relações tornarem-se pesadas com tanta robustez, com tanto penar pelo ócio e pelo silêncio.

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Tenho sido muito acusada por silenciar em meio a algumas discussões. Apontada como teimosa e dona da razão. Incapaz de assimilar verdades diferentes das minhas. Mas a verdade, preciso confessar, é que tenho ficado exausta com os rodeios que competem unicamente por uma persuasão estúpida sobre o que, honestamente, ninguém sabe.

Não nos damos conta de que apenas descobrimos tudo o que inventamos. A consciência nada mais é do que a percepção da existência, somada ao repertório que carregamos para ler as verdades externadas. A única coisa que fazemos, de fato, é a seleção hologramática do que já está dado. E só.

  • Thiane Avila

    Thiane Avila

    Contos
    [email protected]jundiaionline.com.br/colunistas/colunistas.asp?c=54profile.phpSkype: thianeavila

    Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

    A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

    Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.