Convivendo

Uma menina que tem uma sandália velha e vende um site de produtos usados

Sol Felix
Escrito por Sol Felix

Neste mundo, há espaço para todos. Há um lugar reservado para cada ideia maluca ou texto sem nexo. É certo que há uma linha em branco ou um caderno sem pauta à espera de alguém que possa escrevê-lo. É certo!

Até eu duvido, às vezes.

Porém toda música vai sempre encontrar alguém que ressoe com seu ritmo e se alinhe com seus passos. Esta é uma lei da vida muito mais profunda do que o ditado “para todo pé descalço há sempre um chinelo velho”, pois ela não diz respeito ao conformismo de se adequar ao que tem pra hoje.  Mas assumir a possibilidade de realmente providenciar o que falta. Se você sente que falta algo, é porque isto existe. Você acredita em mim?

Conheci uma moça rica que comprou um caro par de sandálias por um valor que poucas pessoas poderiam pagar. Usou uma vez, não gostou. Vendeu pela internet por um valor que uma moça pobre do litoral pôde pagar.  Uma encontrou a paz de não ter em sua posse e em seu campo de visão um objeto de desgosto e fora de moda; a outra encontrou o par de sandálias mais lindo que já teve e que estará registrado para sempre em seu álbum de formatura.

Me diga você qual é a palavra mágica que faz o encanto acontecer, pois eu não sei, apenas sei que existe.

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A moça rica, em seu anseio inexplicável, comprou mais 14 pares de sandálias até decidir, descontente, que o queria mesmo era um tênis assim-assado. Vendeu todos os pares, exceto um. Estreou o tênis levando o cachorro para passear. Neste dia, conheceu um amigo que a apresentou a outra moça e esta moça a apresentou a um rapaz que era irmão de um homem que, conforme ela descobriu futuramente, se tornaria o grande amor de sua vida.

A moça pobre guardou as sandálias e seus enfeites de cabelo numa caixa e nunca mais voltou a usá-los. Com o tempo, os strass dos acessórios perderam o brilho, mas as sandálias permaneceram intactas, exceto pela estranheza de olhá-los depois de tantas modas com diversificadas variedades de saltos que surgiram posteriormente. Esta moça não compra tantos calçados porque prefere caminhar sem eles, com pouca roupa, na beira do mar. Ela já teve muitos grandes amores e sabe que, se jogar o desejo para o mar com o coração sossegado, Iemanjá mandará mais um amor de algum lugar, da mesma forma que mandou os calçados certos.

Ela nunca saberá que suas sandálias viraram história, mas talvez descubra  que eu aporrinho Iemanjá diariamente para me levar onde ela está.

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Sobre o autor

Sol Felix

Sol Felix

Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e Designer Gráfico (Universidade Paulista). Nesta vida, resido em São Paulo desde sempre. Não sou viciada em tecnologia e amo chocolate amargo. Acredito, de forma encantada, que o ser humano é, por excelência, Arte e Artista.