Convivendo

As Aves Que Aqui Gorjeiam, Não Gorjeiam Como Lá – Uma Quarentena Canadense

Porta trancada com fechadura de ferro, presa com um cadeado com a bandeira do Canadá.
123rf/trustieee
Geise Machulek
Escrito por Geise Machulek

Hoje acordei mais cedo do que de costume. Na verdade, despertei com a algazarra matinal que gaivotas e maçaricos fazem à beira mar. Estamos na primavera e a escuridão e o frio do inverno estão cada dia mais distantes aqui na ilha, mas, depois de tanto tempo longe de casa, confesso: estou mesmo é com saudades de acordar com a cantoria dos galos, naquele cocoricó que só quem já morou no interior é que sabe. Ahhh, definitivamente, o poeta (Gonçalves Dias) tinha razão: “As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”.

Praia de pedras com gaivota dando rasante.
Pexels/Ilse Olive

Pulo da cama para preparar o café, mas não vou sair para lugar algum, não se pode sair de casa por esses dias, estamos em isolamento social por causa da pandemia do novo coronavírus e a música do Belchior “Galos noites e quintais” começa a martelar aqui com força total:

“Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
O mal que a força sempre faz…”

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Fronteiras fechadas, limitações, quarentena, incertezas assombram a todos nós, e o tal tempo negro que diz a música certamente já chegou.

Na TV o primeiro ministro do Canadá pede: “Please Stay Home” – Por favor, fiquem em casa!

O cheiro de café percorre a casa. Casa. Lembro-me do cheiro do café pela casa no Brasil, da minha gata fofa Serena, dos meus filhos, do jardim florido e do sol, ahhh, aquele sol do meu Mato Grosso do Sul!

É verdade que o espaço é mais restrito aqui na casa vitoriana do que na ensolarada casinha campo-grandense, o clima também é diferente, a comida é diferente, os costumes, o idioma. A família toda está distante, mas a fé que me acompanha é a mesma: Isso vai passar, claro que vai!

Enquanto isso, as horas passam e eu escrevo, cozinho, estudo, faço exercícios no tapete, cuido da casa e, entre uma atividade e outra, peço proteção divina e cutuco meus filhos e minha mãe por telefone: “Fiquem em casa, lavem as mãos”, sem me dar conta de que, além de ser mãe, sou também filha, e minha mãe deve estar exatamente feito eu aqui: em oração pelos filhos.

Mulher de costas para a câmera, de frente para um fogão com duas panelas. Ela mexe o conteúdo de uma das panelas com uma colher de pau.
Pexels/One Shot

O dia segue aqui dentro, olho pela janela, ninguém na rua, tudo parado, ainda assim, minha alma poeta, que se encanta com as coisas simples da vida, canta ao som de Belchior e se enlaça em cada pedacinho da “Canção do Exílio” do poeta Gonçalves Dias, definitivamente não, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá!

*Geise Machulek – Ilha de Vancouver – Victoria, Colúmbia Britânica, Canadá.

Sobre o autor

Geise Machulek

Geise Machulek

Nutricionista, terapeuta corporal, mestre em psicologia, pós-graduanda em nutrição clínica, ortomolecular, biofuncional e fitoterapia.

Uma aprendiz de cerâmica manual, fotografia e restauro de antiguidades, amante das coisas simples da vida. Autora do livro “Autoimagem Corporal”, Editora NEA (Novas Edições Acadêmicas), e “Antologias Poéticas”, Editora Beco dos Poetas e Câmara Brasileira de Jovens Escitores (CBJE).

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Site: panaceiaagridoce.blogspot.com/