Autoconhecimento

Valores e valores

Duas mãos quase se tocando em frente ao céu.
Lilian Custodio
Escrito por Lilian Custodio


Compreendi que a vida da gente é tipo aspas, “num momento abre e, às vezes, inesperadamente, fecha”. E nós somos tudo que fica pelo meio delas. Minhas lições sobre algumas questões relevantes da vida ganharam mais sentido no dia da partida da mamãe, cada pessoa que esteve lá me contou uma história de como ela se tornou uma mulher de Valor (com V maiúsculo, mesmo). Pena que só ficamos sabendo disso depois que o bonde passa e nos leva. Mas ainda assim, vou preferir que digam: “oh, que pena que partiu, era uma boa pessoa” a: “Vixe, essa aí… foi é tarde!”.

Para se tornar uma pessoa chique é preciso ter valores e não preço.

Mãos de duas pessoas unidas em sinal de gentileza.

O Valor nada tem a ver com graduações, títulos, propriedades, bens materiais, saldo bancário e etc. Esses todos são considerados valores monetários e temporários. Quando fizermos nossa passagem, tudo permanecerá aqui, e dizem que a porta do céu é bem estreita. E naquele momento em que estivermos quase embarcando, imagino que tudo que iremos desejar é ter ao alcance de nossa mão uma outra mão quentinha para segurar e, assim, criar coragem e força para ir…

Nossos filhos devem ser nutridos de Valores para não passarem tantos apertos na vida. Eles devem aprender o quanto antes que, em qualquer circunstância, a fama sempre chega antes do indivíduo. Seja na escola, na igreja, na escolinha de futebol, no balé, no curso de inglês, na roda de amigos ou inimigos. No futuro bastarão dois dias no novo emprego para que todos “os conheçam e vice-versa”. Dependendo da fama criada, se torna uma bagagem pesada a ser carregada durante toda a vida, sem contar com a bagagem que herdamos. Às vezes, conto coisas minhas aos meus, com o intuito de abastecê-los de alguns recursos internos, mas somente eles poderão criar seus próprios baús de valores, embasados nas atitudes escolhidas por eles.

Quando estava na faculdade o dinheiro sempre foi contado. Teve uma vez que minha mãe depositou o dinheiro da semana no caixa eletrônico, achando que eu poderia sacá-lo instantaneamente. Naquele dia eu tinha prova e não podia faltar, minhas amigas já haviam ido para a faculdade e meus pais estavam a quilômetros de mim, então parei e pensei o que deveria fazer. Resolvi descer à portaria do prédio onde morava e contar meu dilema, mas antes que eu pudesse terminar, pude ouvir a solução vinda de um sotaque nordestino: “pegue aqui essa nota de 10 reais para você comer um salgado, eu me viro por aqui (era o dinheiro que ele tinha para almoçar) e vou pedir à D. Maria (faxineira) que lhe empreste os passes do coletivo, ela tem uma cartela que recebe do condomínio, espere um instante”.

Sim, fui salva no meu momento de extrema necessidade e quase desespero por duas pessoas que possuem valores que, quando usados em prol do outro, têm o poder de transformar algo pequeno em grande, ou ainda, o nada em tudo.

Naqueles tempos de formação eu adquiri muitos aprendizados, alguns acadêmicos com minhas ilustres e queridas mestras doutoras, e outros tantos na universidade da vida.

Adulto segurando a mão de uma criança em um lugar cercado pela natureza em frente a um rio durante o pôr-do-sol.

Por isso, eu sempre pondero com meus filhos, não adianta falar 4 idiomas se não utilizar ao menos um deles para falar um ‘bom dia’ a alguém.

Faça comunicação visual e use as palavrinhas mágicas, esse recurso sempre funciona, abre portas, sorrisos e possibilidades; e o seu suco sempre estará no ponto certo de gelo e açúcar, seu espaguete sempre virá mais rapidamente e com muito mais queijo ralado.

Pessoas são mais que os cargos que elas ocupam, são mais que os títulos que carregam, são mais que números nos bancos, são mais que doenças no hospital.

Muitos colegas da área médica não tratam pessoas, mas sim, tão somente, as doenças.

Quando estagiei na Clínica Médica, observei que a palavra inapetente (significa: perda do apetite, redução da vontade de comer) vinha sendo registrada com certa frequência no prontuário de um senhor. O grupo multidisciplinar que discutia o caso vinha investigando as possíveis causas para aquele comportamento e iam nomeando as probabilidades com nomenclaturas de termos médicos. Um dia resolvi ir lá conhecer a ‘pessoa’ do tal homem inapetente. Logo que ele percebeu a minha aproximação, cobriu a cabeça com o lençol, entendi que ele não queria conversa, mas, ainda assim, cheguei perto e o chamei pelo nome, perguntando se havia algo em que eu pudesse ajudá-lo. Ele descobriu a cabeça e me olhou desconfiado, disse que estava internado há 5 dias e eu era a primeira pessoa que o chamava pelo nome, e não somente por paciente do leito 12. Não precisei perguntar o motivo da sua inapetência, pois logo que abriu a boca para se comunicar, percebi a falta dos dentes. A dieta que recebia era uma ‘geral’, que continha pedaços sólidos, como carne de panela, por exemplo. Pediu-me, se possível, uma sopa de macarrão com carne moída, porque estava passando fome, e assim o mistério da inapetência parecia ter sido desvendado. O caríssimo Dr. da Clínica Médica fez uma cara bem feia para mim, e acho que não era de fome, quando sugeri a ele a possível causa… pude ler seus pensamentos pelas suas expressões faciais: “quem essa estagiária de Nutrição pensa que é?”.

Não sou nada! Ou melhor dizendo, a mesma coisa que todo mundo, uma partícula minúscula nesse Universo vasto e intangível, que virará pó um dia. Somos tão passageiros, que nós nem somos, nós estamos por aqui…

Enfermeira cuidando do pé engessado de um paciente.

Se já é complicado para adultos saber lidar com isso, imagine para uma criança ou jovem? Que procura um registro em sua mente que sirva como parâmetro de uma situação de Valor, mas apenas encontra fatos que se baseiam em valores. E daí se perde. E perde a infinita oportunidade de aprender mais, pois pensa já saber tudo. Muitos não são treinados e nem sabem utilizar as palavrinhas mágicas, e, assim, desconhecem os seus efeitos. Se fosse para viver numa redoma particular sem precisar de ninguém, não haveria propósito algum em termos de dividir o nosso espaço com 7,53 bilhões de pessoas. Diante disso, nossa convivência se tornaria mais aprazível no dia a dia se adotássemos, na prática, o que aquela frase pronta sugere: “gentileza gera gentileza”; essa é a lei que move o Universo, que sempre devolve aquilo que jogamos nele.

Eu imagino minha trajetória de existência feito uma estrada.

Há dias em que caminhar por ela fica bem difícil, aparecem obstáculos, pedras enormes, curvas sinuosas; há dias em que o sol arde nas minhas costas, há dias em que preciso enfrentar tempestades, às vezes caminho por longos trechos com neblinas e sem enxergar o horizonte, absolutamente sozinha e sem possibilidade de carona… situações assim acontecem comigo e também com você, tudo faz parte da viagem…

Mas eu tento, independentemente de o dia estar ensolarado ou nublado, ir jogando sementes nesse trajeto, pensando que um dia terei de retornar por essa estrada e eu gostaria de encontrar algumas flores em sua margem, não somente pedras.

Pés andando sobre um caminho de madeira cercado pela natureza.

Certa vez, no consultório, eu acompanhava clinicamente um casal de idosos, ambos diabéticos com algumas complicações, que foram encaminhados pela Endocrinologista. Não conseguiam normalizar seus níveis de glicose, e, consequentemente, um deles não conseguia ajustar a dose de insulina. Depois de um tempo, no meio do caminho, perderam o convênio de saúde e foram se despedir de mim…

Pensei por um instante, sabia que ainda precisavam de acompanhamento e monitoramento e certamente se perderiam novamente. Então, sugeri o seguinte: “tudo bem, vocês continuarão vindo, ok?”. O senhorzinho, muito magrinho, simples, mas de notável honestidade, disse com um semblante sério: “dra., nós não podemos pagar, esse é o seu trabalho, não vamos aceitar vir sem pagar, mesmo com a Sra. oferecendo.”

Eu percebi que feri a dignidade daquele senhor notando o seu constrangimento. Então, tratei de consertar: “e quem disse que não vão pagar?”. Sabendo que eram sitiantes e viviam de uma pequena produção de alimentos orgânicos, completei: “aceito ovos, laranjas, cenouras, tomates ou couves, que tal?!”.

O casal se entreolhou como se estivessem se comunicando e entrando num comum acordo; e, sorrindo, responderam: “se desse modo não vai ficar ruim para a Sra., nós aceitamos sua proposta, já estávamos preocupados porque esse negócio é muito complicado para o nosso entendimento.”

Pois bem, nunca mais fui à feira depois daquele dia. Na semana seguinte chegou à portaria do prédio onde eu atendia uma enorme cesta, não é força de expressão, era realmente enorme; continha ovos, leite, queijos, compotas e geleias de doces, quitutes, hortaliças, frutas, milho, feijão, pó de café, etc… Eu quase chorei quando vi tudo aquilo. Estava tudo cuidadosamente arrumado na cesta, as verduras ainda respiravam de tão vivas e frescas. Os quitutes, embalados cuidadosamente, eram sequilhos feitos pela senhorinha e que derretiam na boca, os vidros tinham em suas tampas pedacinhos de tecidos xadrez arrematados com uma fitinha vermelha. Eu estava encantada com os detalhes… tudo plantado, colhido e feito por eles.

O ‘pagamento’ me surpreendeu, e validou para mim a importância em saber servir. A Gratidão é um prato delicioso que se come quente, degustando cada porção…

Feirante entregando uma caixa de frutas para um senhor na feira.

Não me recordo de uma situação onde eu tenha me arrependido por ser gentil.

Até naquelas situações mais hostis, onde um atendente não está com vontade de atender… a tática do sorriso sempre surte algum efeito. Em compensação, quando entrei na vibe do outro, me dei mal. O custo e benefício de querer ter razão, ao invés de paz, não vale a pena, se paga um alto preço. Definitivamente, podemos escolher ser filtros ou esponjas nas situações.

Colocar-se no lugar do outro também ajuda em algumas horas. No hospital eu lidava com pacientes impacientes, que não colaboravam comigo, nem com a enfermagem, nem com ninguém… mas pensava: “com certeza é tedioso ficar aqui olhando para o teto o dia todo e ainda sentindo dores”. Com o intuito de amenizar isso, nas reuniões com a equipe eu pedia que as cozinheiras fizessem as refeições pensando que eram para alimentar seus próprios filhos, ou pais, maridos ou irmãs doentes; e às copeiras, que entrassem nos quartos sempre sorrindo. O único momento agradável que ainda restava àqueles pacientes era a hora das refeições. E mesmo seguindo tantas restrições dietéticas nós podíamos fazer a diferença na vida daquelas pessoas que estavam sob os nossos cuidados, usando temperos como: o amor, a cordialidade, a delicadeza, etc… “Então, vamos mudar esse conceito de ‘comida de hospital’”, dizia.

Nós temos a capacidade de mudar a nós mesmos e a tudo que está ao nosso redor, basta a gente treinar e acreditar nisso. Somos energia pura e a emanamos por onde passamos. Há pessoas com as quais é gostoso dividir um espaço ou momento, essas preenchem; mas há outras que mais parecem um buraco negro. Os sugadores geralmente são pessoas não gratas à vida, e vivem a reclamar de tudo, pois sentem um vazio existencial que não é preenchido com nada.

Mulher na praia com os braços abertos em direção ao sol.

Enquanto escrevia essas linhas fui tendo alguns insights, como se peças estivessem sendo encaixadas, então percebi que desde que abriram minhas aspas profissionais, estive a receber lições de treinamento sobre os mais diversos tipos de Valores. Precisaria vivenciar muitas situações que iriam fazer aflorar minha sensibilidade, pois já fazia parte do plano confiar em minhas mãos a vida de pequenos seres; sendo estes mais perspicazes, evoluídos emocionalmente e capazes de captar qualquer alteração de humor, mentira ou fingimento. Quanto menores, mais preservados são em sua fórmula original, então a linguagem do amor é sempre bem compreendida. Depois, à medida que vão crescendo em suas estaturas, vão sendo adulterados, mas se dentro de si puderem contar com pilares sólidos de Valores, não se renderão ou venderão por pequenos valores.

Quando minhas aspas estiverem para ser fechadas, quero olhar para trás e perceber que, apesar dos tropeços que levei enquanto caminhava na estrada e das vezes que caí, fiz bem em ter me levantado; e que, de algum modo, eu soube fazer um bom preenchimento delas…

A vida é bela!
E a fórmula mágica da felicidade não está no início ou no fim, mas sim… no meio. Faça bom preenchimento das suas “……..”.


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Sobre o autor

Lilian Custodio

Lilian Custodio

Sou, Lilian Custodio.
Nutricionista, Acupunturista, Mãe, Educadora Alimentar Infantil, Escritora e Fada. Exatamente nessa ordem...
Sim.. é isso mesmo - Fada Lilly.
É assim, que eu consigo convencer a futura geração sobre a importância em se alimentar de forma mais equilibrada e saudável, preservando assim a saúde deles.
Simplesmente, essa é a missão que papai do céu me confiou.
Me formou primeiro Nutricionista para que eu pudesse me abastecer do conteúdo cientifico e técnico da Nutrição.
Depois me formatou na Medicina Milenar Chinesa para que eu soubesse utilizar a primeira ciência aprendida com sabedoria e equilíbrio.
Na sequencia me deu dois filhos, para aplicar e aprimorar a teoria na pratica.
E ainda, como Educadora Alimentar para que eu pudesse repassar tudo isso no coletivo
A Escritora surgiu com a finalidade de ampliar ainda mais esses ensinamentos, e auxiliar mães e professores a também se inspirarem, para me ajudar nessa missão.
E por fim, a Fada Lilly para tornar tudo isso mais leve e encantador.
Essa sou eu!

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Instagram: @tia.lilian.nutri