Autoconhecimento Comportamento

O que nos faz humanos?

Mulher de costas com braços abertos para a cidade ao fundo
Marisa Pretti
Escrito por Marisa Pretti
Os símbolos matemáticos têm a vantagem de serem entendidos em qualquer parte do planeta por qualquer pessoa em qualquer idioma.

Entretanto, a língua portuguesa apresenta múltiplas interpretações.

O sinal de diferente: 1+1 ≠ 3 indica termos ou valores distintos.

Da mesma forma, termos ou palavras que utilizamos possuem diversos significados.

E, assim como na matemática, o que pode ser óbvio para você pode ser incompreensível para o outro.

Minha atividade profissional com pessoas com deficiência visual, como audiodescritora, tem como característica básica investigar e entender as diferenças de modo irrestrito.

Fuçar tudo mesmo. Buscar informações de nomes, de coisas e pessoas. Significados e aplicações de objetos.

Dimensionar proporções. E depois do trabalho pronto duvidar.

E recomeçar. Mudar tudo de um dia para o outro.

Estudar o roteiro e apresentar. Entrar em uma cabine quase sempre abafada, de transmissão simultânea, seguir o texto iluminado pela luz fria de um abajur e sentir o peito aquecer com a expectativa de ser um bom intérprete da imagem. Ouvir as pausas por meio de um fone e na hora H o olhar atento ainda enxerga mais e a boca vacila antes de soltar o verbo e aí entra a rapidez para improvisar!

Juntar as palavras como um quebra-cabeça e narrar frases descritivas que exprimem com exatidão o que vejo e não o que penso.

E depois de feito eu ainda questiono se poderia ser melhor.

Talvez daí venham minhas dorezinhas chatas de cabeça.

E, sem pestanejar meus cílios alongados com rímel preto, que ampliam meu necessário olhar, te garanto: os cegos somos nós!

Os enxergantes, os videntes, os que têm a visão razoavelmente nítida, com algum grau de miopia ou astigmatismo, como eu.

Com um desconfortozinho que os óculos ou as lentes corrigem, e pronto! A gente enxerga. Ou pensa que enxerga.

Mão segurando óculos de grau

Tenho vivido experiências fantásticas com esse público e por eles me defino como uma incansável chata, que sempre fala sobre acessibilidade, diversidade e empatia.

Convivemos com pessoas interessantes e com as quase insuportáveis.

Trazemos para o nosso convívio as interessantes, os amigos especiais. No meu caso, muitos amigos com deficiência, a grande maioria cegos ou com baixa visão.

Se algum dia você se referiu, ou por falta de conhecimento ou achando que seria mais bonitinho, a alguém com deficiência, como especial, nunca mais!

Chamar alguém com deficiência de especial é como dizer que a terceira idade é a melhor idade. Parou, né! Honestamente?

O especial que mencionei refere-se às particularidades da personalidade, à individualidade pessoal com esse poder de encantar, e daí partirmos para um mútuo conhecimento que

no resumo se traduz em: eu sinto você e você me sente.

E, para fechar o assunto, as pessoas com deficiência, é claro, têm lá suas limitações, impostas mais pela falta de acessibilidade do que pela falta do órgão, mas vivem uma vida perfeitamente normal.

E, por falar em normal, dia desses assisti na televisão um tiquinho de um show do Iggy Pop. O tiozão loiro do rock, hoje com 72 anos, que desde os anos 60 já barbarizava.

Um maluco camicaze praticante de tai-chi, algo contraditório, mas a receita parece que deu certo.

Ele está inteiraço e com uma energia vital contagiante.

Iggy Pop sem camisa em palco

Os olhos azuis intensos me chamaram atenção, os cabelos lisinhos como fios de seda também, porém só nesse dia notei o andar cambaleante.

Fiquei observando. Ele buscou no canto esquerdo do palco uma cadeira e arrastou-a até o centro com a elegância de um modelo.

Apoiou os pés da cadeira no chão, sentou-se de ladinho, enroscando as pernas e os braços com o estilo de um gato sagrado, sem parar de cantar, com os ombros totalmente assimétricos, mas com postura de quem é puxado pelo topo da cabeça por um fio invisível.

Levantou e deu alguns passos, procurando alguma marcação ou um cantinho amigo para se escorar, em pé apoiado pela perna esquerda ou esticado como uma iguana, com as pernas dobradas, no chão.

Logo pensei: está chapado, como sempre. Ou vai que, depois de tantos voos insanos sobre a plateia, desmantelou a coluna!

Falei que pesquiso muito, né? Bora lá googlear.

Iggy Pop tem um ombro deslocado, perdeu cartilagem do lado direito da bacia, os dois joelhos quase não suportam mais o corpo esguio e bronzeadíssimo.

Aos 13 anos tomou um tranco em uma partida de futebol americano.

Centímetro por centímetro até os dias atuais, perdeu 4 da perna direita.

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Nos anos 80, levou um tombaço enquanto se contorcia e rebolava em cima de um amplificador.

E naturalmente ele diz em uma entrevista: me deixou um pouco manco e com a coluna torta.

E acrescenta: sou mais notável pela mente do que pelo físico.

Então, me dei conta da dor que ele certamente sentiu e sente a cada apresentação.

Prestei mais atenção nas pausas que ele faz, disfarça, posa de sexy sentado no amplificador (lembre-se que antes ele pulava lá de cima), deita-se no chão provocante e estende as mãos para os fãs.

E os fãs deliram. Ele novamente levanta, procura um ponto de equilíbrio e arrasta a cadeira com visível olhar de dor e superação, antes de sentar.

Drogas? Medicações? Meditação? Terapias alternativas? O alívio para a dor é receita de cada um.

Mulher em posição de meditação

E não era sobre isso que eu pensava. Pensava apenas na dor.

Tenho uma hérnia na coluna lombar, sei bem o que é sentir muita dor e pude minimamente imaginar, e só imaginar e ser solidária com a dor do Iggy Pop. Virei fã!

E eu pra variar fico aqui pensando: Iggy se Iggy não fosse seria considerado apenas um doido com uma perna mais curta que a outra. Como seria visto na rua? Como um velho cambaleante com rugas e dobras sulcando cada pedaço do seu corpo e atitude de quem está totalmente fora da casinha? Provavelmente sim. Mas Iggy Pop é star.

Deficiências todos temos, desde as visíveis até as piores que ninguém vê.

Uma perna mais curta, um olho ou os dois que não funcionam, um cérebro que faz sinapses pela metade, uma orelha linda e cheia de brincos que não escuta, um nariz torto como o meu, que respira muito mal, ou a falta do nariz!

Aprender a conviver com todas as diferenças e peculiaridades é um exercício de humanidade.

Em um trecho do belo texto da peça “A Golondrina”, do autor barcelonês Guillem Clua, baseada no atentado homofóbico que ocorreu na boate Pulse, em Orlando, em 2016, a personagem Amélia, senhora idosa, pergunta ao jovem Ramón:

O que nos faz humanos, Ramón? De todas as coisas que somos e fazemos, o que você acha que realmente define nossa humanidade?

Garota apoiada em ombro de mulher

E Ramón responde com uma pergunta: Não sei… o amor?

Amélia discorda: Isso não é suficiente, eles também amam

(“eles” são os terroristas do atentado).

Ramón não sabe a resposta, então Amélia afirma segura:

A resposta é a dor. O que realmente nos faz humanos é conseguir sentir a dor dos outros.

Amélia que era mulher de verdade!

Porém, penso eu, não só a dor, mas sentir verdadeiramente a alegria dos outros,

como se fosse nossa.

Abraços acessíveis!

Sobre o autor

Marisa Pretti

Marisa Pretti

Amigo leitor...

Caro leitor...

Querido leitor...

Prefiro chamar você de Passageiro leitor.

Afinal, você está aqui de passagem como eu. Caminhando nesta Terra cheia de buracos e tanta água que haja braços fortes e pernas ligeiras para não se afogar.

Viver, a começar pelo ato de nascer, é para quem tem pacto fechado com a teimosia. O ar inflando os pulmões e o primeiro choro para que ninguém se engane: não estamos aqui só para sorrir, mas principalmente. Sim!

Sou mãe por vocação. Atriz por formação. Entusiasta por opção. Audiodescritora por paixão e profissão desde 2010.

Minha profissão, em uma breve descrição, se resume em traduzir imagens em palavras com o maior detalhamento possível para a pessoa com deficiência visual. Um recurso acessível também para idosos, disléxicos, pessoas com deficiência intelectual e para quem mais sentir necessidade dessa ferramenta assistiva. Simples e complicado assim. Trabalho com filmes, espetáculos de dança, teatro, vídeos, suportes empresariais, e o maior desafio foi levar acessibilidade visual ao Carnaval paulistano, desde 2017.

O mundo é visual, estímulos visuais são constantes! Por meio da audiodescrição qualquer produto pode ser traduzido em palavras.

Trabalhar com inclusão é estar atento ao outro, é ser um facilitador e igualar oportunidades.

Provavelmente foi esse gosto pelas letras encadeadas, mastigadas e saboreadas na língua como um demorado beijo que me trouxe até aqui.

Pretendo contribuir com minhas vivências e reflexões sem pretensão alguma, apenas para compartilhar alguns saberes. Uma leitura leve, um livre pensar, mas nem por isso descompromissado com a sua inteligência.

E porque creio na humanidade, na diversidade e na inclusão aceitei colaborar com o #EuSemFronteiras.

Abraços acessíveis!

OBRIGADA.

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