Convivendo

2020

Pés de corredor à frente do número 2020 em asfalto.
Alexey Zatevahin / 123RF
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio

Tenho escutado por aí que 2020 é o ano que não existiu ou que deveria ser riscado do calendário, e essas falas ficaram ecoando em mim.

De fato 2020 foi bem intenso e difícil, mas que ele existiu é algo incontestável.

2020 não só existiu como consistiu de forma visceral, e constará nos livros de história. Ele não foi um ano qualquer ou com alguns poucos acontecimentos importantes, mas o ano de uma pandemia mundial.

Sua consistência é tão devastadora quanto o número de mortes em todo o planeta, porque não há um só canto na Terra que não tenha sido afetado pela Covid-19.

Solidão versus convivência intensa.

Vida real versus vida online.

Proteger-se e proteger aos outros versus os prazeres das baladas, restaurantes, parques, cinemas, teatros, viagens…

Tudo isso junto e misturado define, representa nossa vida em 2020, e diante disso tudo como dizer que ele não existiu? Como querer apagá-lo?

E se quiséssemos justamente o contrário nunca nos esqueceríamos desses meses? Fazer deles um aprendizado e o motivo de muitas transformações?

E se parássemos agora por uns minutos e nos perguntássemos: o que fizemos diante de tantas novas formas de viver?

Por que queremos apagar um ano que afetou a todos e nos convocou a novos saberes e fazeres?

O que cada um de nós fez com o seu 2020?

Será mesmo que desejaríamos que ele não existisse?

Porque afirmar que o ano foi difícil, triste, devastador, complicado é diferente de não reconhecê-lo ou de querer eliminá-lo da nossa história.

Reconhecer que há meses vivemos com medo de um vírus, da morte, da demora de um tratamento ou vacina eficaz é diferente de fingir que não passamos por isso.

2020 não só existiu como escancarou nossa humanidade frágil, finita e egoísta. Nossa vulnerabilidade nunca esteve tão exposta quanto nestes meses em que a perfeição precisou dar lugar ao fazer o que é possível.

Duas mulheres e dois homens com máscaras.
cottonbro / Pexels

E o que foi possível fazermos? Olhe com generosidade para seus feitos e aprendizados. Eu espero de verdade que você tenha coragem de enxergar e reconhecer as dores, as perdas, as conquistas e as possibilidades que bateram e estão batendo na sua porta.

O meu 2020 foi impressionante! E, sim, vivi o mesmo ano que você, e, sim, senti medo por mim e por todos que conheço, me isolei e ainda estou isolada. Tive que aprender a atender online, dividir espaço físico e coordenar agenda com meu marido, porque um de nós sempre precisava estar disponível para os filhos, cachorros e tarefas de casa.

Foi e ainda é uma loucura, uma confusão, e exige de nós dois flexibilidade, bom humor, respeito e muita vontade de fazer dar certo.

E nesse fazer dar certo não há espaço para perfeições, verdades absolutas ou um jeito ideal. Todos os dias reclamamos e desejamos que a vida volte ao normal, mas em seguida nos olhamos e nos perguntamos: que normal? Porque precisamos admitir que aquele normal era anormal! Trabalhar fora de casa 10, 12, 14 horas por dia não é normal.

Passar horas e horas sentado na frente de uma tela não é normal.

Nos deixarmos de lado, ignorarmos nossas emoções, dores físicas e emocionais.

Não poder adoecer, não poder parar e ficar de bobeira não é normal.

Terceirizar a educação e a atenção que nossos filhos precisam ter não é normal.

Então diariamente estamos nos questionando sobre como será a vida após a vacina e sem nenhuma resposta definitiva seguimos fazendo da melhor maneira que conseguimos, sem nenhuma ilusão de perfeição.

Mão segurando frasco cheio e seringa.
cottonbro / Pexels

O meu 2020 foi surpreendente, porque aprendendo a não ser tão perfeccionista me permiti me expor mais, me libertei de um olhar extremamente severo e criei o Reencontros em Movimentos, o podcast da Îandé e me aventurei em novas formas de experimentar uma terapia. Descobri os grupos enquanto participante e facilitadora e por meio deles conheci pessoas maravilhosas que me mostraram a importância, a eficácia e a riqueza de compartilhar e escutar histórias.

O meu 2020 foi encantador, porque em pleno isolamento nossa família aumentou e me tornei mãe de uma menininha. Se antes meu mergulho era na arte de amar um filho, hoje meu coração é maior e mais doce, amando dois! Conheci a Índia, os mantras, o budismo, minha criança vitoriosa e tantas outras coisas, conheci uma Juliana que em meio à tormenta, às incertezas, à reclusão, aos medos e urgentes mudanças consegue silenciar, meditar, acreditar e seguir contemplando o horizonte, exatamente como ele se apresenta.

Eu tenho certeza de que o seu 2020 também foi extraordinário e talvez isso seja tão assustador a ponto de querermos fazê-lo desaparecer. Nos assustamos e recuamos facilmente diante do novo e é isso, 2020 foi um ano muito diferente dos anteriores.

Um ano que diariamente nos convocou a olhar para nós mesmos e lidar com situações adversas.

Olhem para esse ano que vivemos com um olhar amoroso, com um olhar curioso e enxerguem beleza e tesouro em cada experiência, seja ela agradável ou dolorida, tenha ela te aproximado ou afastado de pessoas queridas. A transitoriedade é uma das certezas que temos na vida e esse ano nos ensinou a vivê-la.

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2020 existiu e deixou marcas, exigiu coragem e fé de todos nós, por isso escolha incluí-lo em seu percurso. Escolha fazer dele um tempo de grandes transformações, e para isso só precisamos tirar as lentes que estamos acostumados a usar e olhar com olhos de quem sabe reconhecer o grande mistério que é estar vivo.

Feliz 2021!

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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