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Como será o amanhã? Responda quem puder…

Um homem vestindo uma roupa branca está segurando uma bola de cristal nas mãos. Ele tem a feição de dúvida ou curiosidade no rosto.
TommL / Getty Images Signature / Canva
Escrito por Nina Veiga

Entre manchetes alarmantes e rotinas silenciosas, surge uma pergunta insistente: como será o amanhã? Será mesmo tão sombrio quanto dizem ou estamos olhando de longe demais? Entre medo e cotidiano, algo se revela. Continue a leitura e descubra.

A grande maioria dos sentimentos que temos em relação ao futuro é gerada por informações e não por vivências. Se nos esforçarmos cotidianamente a observar a vida-viva mesma, chegaremos, muito provavelmente, à conclusão de que a vida é simples, plena de desafios, os quais, quase sempre, são por nós superados. Chegaremos à compreensão de que há uma distinção entre a experiência da realidade e a representação da realidade. Entenderemos – talvez, e sempre talvez – que aumentamos nossa capacidade de resistência ao prestar atenção ao dia a dia com a mesma intensidade que dedicamos aos noticiários.

A música esquecida dizia: “Como será o amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer?”. Composta para o samba-enredo da União da Ilha do Governador, em 1978, parece que as perguntas, popularizadas na voz da cantora Simone, são cada dia mais intrigantes de responder.

Na TV sempre ligada, desfilam desastres ambientais e sociais intercalados por objetos-do-desejo cada vez mais distantes das possibilidades daqueles que assistem perplexos à composição de uma realidade que só é possível de ser vivenciada através de bits e pixels.

Mulher sentada no sofá em um ambiente com pouca luz, segurando uma caneca e olhando para a televisão, com expressão pensativa e contemplativa.
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Enquanto isso, na vida-viva e mesma de cada um, a cama é feita, a louça lavada, as crianças seguem para a escola todos os dias. As tarefas do trabalho são realizadas pela chefe de departamento, pelo frentista, pela garçonete, pelo bancário e pela balconista.

O carro estaciona na garagem, o ônibus para no ponto. O cachorro pula na calça branca, o gatinho roça na perna. A criança corre para o abraço quando chega em casa. O cotidiano apresenta dor de garganta, excesso de peso, pressão alta. As contas atrasam um mês ou outro, a roupa nova é parcelada, o carnê chega depois da festa, o vestido fica com cheiro de guardado.

Como será o amanhã? A melodia embala as rodas de conversa, onde a resposta incerta se acerta: muito, muito pior. As coisas estão insustentáveis, os políticos cada vez mais corruptos. Os países ingovernados. Seguem os relatos do que se ouviu dizer: os sequestros, os atentados, as barragens, a epidemia, o assalto, a violência, os preços. As conclusões unânimes se fazem ouvir: em outros tempos, em outrora, não faz vinte anos, tudo já foi muito melhor. O amanhã? Respostas precisas se inventam e encerram o assunto, dispensando bolas de cristal, jogo de búzios ou cartomantes.

As conversas se seguem, deixando ouvir outras perguntas e respostas: …entrou na universidade… cursando engenharia… o netinho está com cinco meses… estamos encantados… fez quimioterapia, superando, mas ainda sente dores… passou no concurso… foi em viagem de intercâmbio… sim, mudaram para uma casa térrea, criança precisa de jardim…

A música invade novamente a memória: “E vai chegando o amanhecer, leio a mensagem zodiacal. E o realejo diz que eu serei feliz. Como será o amanhã? Responda quem puder…”.

Sobre o autor

Nina Veiga

A artemanualista e ativista delicada Nina Veiga é doutora em educação, escritora, conferencista. Sua pesquisa habita o território da casa e suas artes, na perspectiva da antroposofia da imanência. É idealizadora e coordenadora do coletivo Ativismo Delicado e das pós-graduações: Artes-Manuais para Educação, Artes-Manuais para Terapias e Artes-Manuais para o Brincar. Desenvolve trabalhos de formação de artífices e escritores. Suas oficinas associam o saber teórico-conceitual às artes-manuais como modo de existir e à escrita como produção de si e do mundo.

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