Observo as massas sendo movimentadas por lançamentos incessantes e batidas sintéticas. Muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas um vazio ruidoso ocupa o espaço.
Em boates e festivais, os passos são pequenos, contidos. As cabeças fazem, no máximo, o movimento de olhar para o celular e levantar o braço para um story.
As pessoas parecem ter esquecido a divindade envolvida no ato de dançar. Esqueceram que o corpo é um templo vibratório, um rádio sintonizado no cosmos.
Nossos ancestrais percebiam essa energia porque tinham tempo e espaço para sentir a vida e a natureza. Eles sabiam que a dança não era lazer; era devoção e sobrevivência.
A ginga como escudo e a guerra silenciosa
A capoeira é o maior exemplo dessa alquimia. Ela não nasceu em academias espelhadas, mas nas areias e portos, de influências de brigas de pescadores e da resistência africana. Da Angola e das brigas de rua, herdamos a malandragem: o saber passar a rasteira, o fugir, o olhar de soslaio. A ginga não é um enfeite; é uma postura humana diante das diversidades. É o corpo que aprendeu a ser fluido para não quebrar sob o peso da chibata.
Hoje, a capoeira contemporânea se organiza em graduações, terços de sangue e cordões, mas a essência permanece na variação: no Bantu com o bambu, nas danças de guerra que usam o pau e a fibra para manifestar a força. São as variações rítmicas que mantêm o espírito alerta.
Diz-se que o brasileiro é um povo pacífico, sem guerras externas. Mas isso é um mito que esconde uma guerra interna e calada. Uma guerra de identidades, de silenciamentos e de heranças não resolvidas. É por isso que as danças de guerra são tão vitais para nós: elas abrem espaço para esse grito contido. Elas dão forma ao conflito que a palavra não ousa dizer. Quando batemos o bastão de bambu no chão, estamos acordando a terra e expulsando os fantasmas da passividade.
Corpo, território e memória: o Jazz que sangra
Essa insurgência do corpo encontra eco no trabalho de gigantes. Pensar em jazz no Brasil sem olhar para a afro-referencialidade é erro histórico. O jazz é uma extensão do blues, que é uma extensão do lamento e da força negra. Como bem pontuava o mestre Otelo, o jazz negro é um manifesto artístico permanente.
No Rio de Janeiro, a Cia dos Comuns e a Cia Étnica de Dança transformam o palco em um Corpo-Território. Eles não “apresentam” uma coreografia; eles performam uma memória. É a Ópera Carmen sendo despida de suas rendas europeias para revelar uma Carmen de pele retinta, que carrega o destino nas ancas e a liberdade na voz. São estudos afro-referenciados que transformam o “Jazzy” em uma ferramenta de elevação espiritual e política.
A mulher do fim do mundo e o duelo das drags
Nesse cenário de guerra e dança, a figura feminina emerge como a comandante-em-chefe. Elza Soares já nos avisou: “eu sou a mulher do fim do mundo”. Nós somos essa mulher manifestada aqui, neste patriarcado que desmorona. Enquanto homens, em um movimento de busca, tentam render sua masculinidade ao divino feminino através da exaltação das “Drag Queens”, surge um duelo inevitável.
O universo trans e drag muitas vezes exalta a estética feminina, mas onde cabe a mulher biológica nesse duelo? Cabe a ela encarar o masculino em si. Cabe a ela incorporar a sua própria “Drag Queen” — não como uma caricatura, mas como o direito ao exagero, ao poder, à autoridade cênica e espiritual.
Vi mulheres guerreiras em performances de afrodança manifestando sua existência com cabos de vassoura — o instrumento da opressão doméstica transformado em lança. Um manifesto por Mamãe Oxum, mas também um salve para as muçulmanas, para as guerreiras das tribos, para as ancestrais indígenas. Sem anistia para o esquecimento.
A elevação da Kundalini coletiva
Essa é a dança de guerra do fim dos tempos. Uma manada, um exército de poder feminino que usa a iluminação e a expressão para elevar a Kundalini — em ti e em mim. É o Femme em nós, não como um rótulo de beleza, mas como uma voltagem elétrica.
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A vibração do átomo (próton, nêutron, elétron) encontra seu auge no giro da capoeirista, no salto do bailarino de jazz e no transe da passista. Do micro ao macrocosmo, tudo é uma elipse de energia.
Se o mundo lá fora tenta nos manter rasos, olhando para telas e movendo apenas o pescoço, nossa resposta é a profundidade. É o pé no chão, o bambu na mão e a ginga na alma.
Porque enquanto houver corpo, haverá guerra.
E enquanto houver dança, haverá vitória.
Axé. Jazz. Ginga.
