Pode parecer ignorância, ingenuidade ou urbanização excessiva da minha parte, mas o fato é que eu nunca tinha escutado a voz das lagartixas.
Alguém aí já escutou a voz de uma lagartixa? Confesso que fiquei surpresa e impressionada. A bichinha grita. Tec-tec-tec-tec-tec, um barulho nervoso, ligeiro, como as próprias lagartixas.
No Sul de Minas Gerais, já vi muita gente chamando lagartixa de camaleão. Não admito. Sei que estas pequenas variações regionais são comuns na língua.
Sei que língua é consenso, não norma. Mas convenhamos, como podemos achar que uma lagartixa (principalmente agora que sei que elas gritam) pode ter a calma camaleônica do disfarce? Um camaleão pode se passar por um tronco, estar totalmente inerte.
Ficar lá, ao sol, sobre uma pedra, horas imóvel, parecendo a própria pedra. O camaleão é um meditador. Um observador perspicaz e paciente. Sabe a hora. Sabe o lugar. Sabe esperar. Poderia ser chamado de Calma-leão. Só seus olhos e sua língua demonstram a atividade que pulsa por baixo dos inúmeros disfarces.
As lagartixas (o próprio nome já diz, com seus “is”, “tes”, “xis” e “esses”: lagar-tiii-xa-ssss) são serezinhos nervosos, escorregadios, estão sempre prontos para correr. Investem contra suas presas sistematicamente, avançando e fugindo sempre.
São espertas, velozes, impressionáveis. Tem gente que já parou de ler esta crônica há horas. Não aguenta nem ver uma lagartixa que arrepia.
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Será que este povo sabe que lagartixa é lagartixa e que grita? Sei não. Se lagartixa já dava calafrio para muitos antes de começar a soltar a voz, imagina agora?
O fato é que o mundo animal tem o poder de nos surpreender sempre. Neste meu longo percurso de vida, ainda nem sabia que lagartixa falava. A vida é uma surpresa atrás da outra…
