Todo indivíduo que se levanta contra as injustiças da sociedade, contra os preconceitos, que se coloca contrário ao paradigma vigente, este será visto como um encrenqueiro. Não que Jesus procurasse encrenca, mas essa era, e ainda é, a percepção imediata de todos acerca de quem segue um caminho contrário ao do mundo, questionando crenças e desafiando visões estabelecidas. Essa é a essência da espiritualidade questionadora.
A sociedade vive de maneira confortável, fundamentando sua identidade em crenças arbitrárias, antiquadas, baseadas em preconceitos e uma visão rasa da realidade. Uma visão superficial sobre assuntos complexos da vida, do mundo e da própria condição humana.
Não são conhecimentos de fato, e sim apenas conclusões que vão se acumulando geração após geração sem serem revistas. O famoso “foi sempre assim”. Aprendemos isso no seio de nossa família, nos desenvolvemos em torno desse conjunto entrelaçado de ideias de mundo e isso se torna parte de quem somos, integramos isso à nossa identidade. Por isso, quando essas verdades são contestadas, a reação automática é entrar na defensiva, atacar para proteger essa parte engessada de sua identidade existencial. Desse modo, sempre que questionado, o indivíduo luta ferozmente para defender sua integridade, um movimento típico do ego que se sente ameaçado.
Jesus foi um homem assim: alguém que enxergava a realidade como ela era, para além das crenças que fundamentam a identidade de um povo e seus indivíduos. Ele não distorcia a realidade para caber nos moldes limitados de crenças. Sua identidade não era construída a partir de ideais e conclusões do mundo; sua identidade nem era base de sua existência. Ele fora um homem fundamentado em sua própria verdade, a verdade do Ser, algo que podemos aprofundar em outro momento.
Aqui vale refletir que, de fato, se Jesus voltasse em nossos tempos, ele o faria se posicionando ativamente contra o senso comum, pois este, como já explorado, não tem compromisso com a verdade, mas apenas com o senso de pertencimento pelo qual cada indivíduo anseia, o que é totalmente contrário à postura de um homem como ele.
Nesse caso, o pertencimento funciona como uma cola fraca que precisa ser constantemente fortalecida. Então, num cenário de retorno do tão aclamado Cristo, ele certamente seria “crucificado” sim por seus principais seguidores, pois seria preciso estar disposto a se despojar de suas crenças mais significativas para ouvi-lo abertamente. E hoje é mais claro do que nunca o tamanho da resistência que o indivíduo demonstra para ouvir aquilo que ataca seu senso de verdade, a famosa dissonância cognitiva. Os cristãos, sinto dizer, virariam provavelmente as costas para ele, não apenas estes, mas todo aquele que foge do fogo da verdade, preferindo o conforto da mentira repetida por todos. Nesse contexto, Jesus disse que viera trazer a espada e não a paz.
Mas você, cristão, não se sinta atacado por esse texto. Ele não é para atacar a fé de ninguém, mas para refletirmos sobre nossas verdades interiores, sobre essa tendência humana de buscar cegamente por suporte em crenças herdadas num momento de nossa vida em que não temos capacidade cognitiva de analisá-las, e apenas as aceitamos. Não há culpa nisso; há sim responsabilidade: um cuidado vigilante de questionarmos tudo, ao nível coletivo e individual. Então vale a pena se perguntar: “O que eu acredito que me enraivece quando questionado? E por quê?”
Não é sobre ideologia, mas sobre a cegueira de seguir ideias sem nunca revê-las. Tudo muda, a vida é dinâmica, nada se mantém como era, e não é diferente com nossa percepção de mundo. Então vale a pena questionar o senso comum, questionar as crenças que fundamentam sua identidade e, se preciso for, libertar-se de tudo que deriva do engano e do medo.
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Fica a reflexão. E se você se sentiu incomodado com algum ponto do texto, fique à vontade para comentar, reclamar ou argumentar, só seja gentil. Este texto é apenas um questionamento, e eu não tenho qualquer presunção de me afirmar dono da verdade.
Abraço. No próximo texto, podemos falar de pertencimento, é só comentar aqui, se assim desejar.
