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A natureza humana é realmente cruel? Uma reflexão sobre instinto e consciência.

Imagem representativa da passagem de um estado automático para um estado consciente, como uma pessoa diante de dois caminhos, deixando para trás um ambiente escuro e seguindo em direção à luz.
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Escrito por Andrews Rodrigues

O mundo é injusto por fatalismo ou por falta de consciência? Entenda como o nosso instinto biológico de sobrevivência ainda governa a sociedade e por que a capacidade de adaptação consciente é o único caminho para um novo paradigma humano.

Algo comum de se ouvir da boca de muitos é a frase: “Sempre foi assim”. Essa fala geralmente surge após alguma crítica ou questionamento acerca das injustiças que governam nosso mundo e o comportamento humano. E aqui me refiro a esse mundo criado por nossa espécie, e não ao planeta em si, que segue suas próprias leis e movimentos.

Essa fala determinista ignora a realidade de que o mundo é como é não por fatalismo ou por uma força natural que mantém tudo imutável, mas sim porque nunca houve uma intenção consistente e direcionada para uma mudança real.

Nossa história é marcada por conquistadores invadindo territórios e expandindo seus impérios, indivíduos experienciando o estado máximo do fenômeno do ego.

Suas intenções poderiam parecer a eles e aos seus homens nobres e dignas de canções; no entanto, resultaram em atrocidades que levaram povos inteiros à destruição.

A ilusão da natureza humana e o instinto de sobrevivência

O homem é direcionado a satisfazer seus instintos mais básicos. Ainda somos, no geral, movidos pelo instinto de sobrevivência, pelo medo que assume uma postura agressiva de dominação irrestrita. A intenção do ser humano sempre esteve presa a esse padrão de comportamento irracional, no qual usamos nosso intelecto para racionalizar ações atrozes. Nesse sentido, nunca chegamos a nos portar como os seres racionais que adoramos afirmar que somos; apenas passamos a racionalizar decisões movidas por impulsos ainda animalescos.

Por impulsos animalescos, refiro-me ao fato de nosso cérebro ter evoluído ao longo de milhares de anos não para nos fazer felizes, não para termos paz de espírito e nem para crescermos como indivíduos, mas sim para sobreviver. E é sob esse programa de sobrevivência que ainda agimos.

Quando alguém diz que a natureza humana é cruel, pode estar certo de algum modo se levarmos em conta a estrutura biológica do nosso cérebro. Se dependermos totalmente do seu funcionamento mecânico, certamente seremos capazes das mais impensadas barbáries.

A sobrevivência no reino animal parece simples: cada espécie desenvolve um meio para isso, algumas pela agressividade e força, outras pela furtividade, no geral entrando em conflito com as demais espécies que disputam um mesmo território. Como seres com uma complexidade cerebral incomparavelmente maior, nada conosco é simples, e elevamos esse instinto a patamares inimagináveis e absurdos, desde genocídios até a manipulação do senso comum. No fundo, ainda somos nós apenas respondendo a estímulos nervosos adaptados para sobreviver a qualquer custo.

Um cérebro antigo em um mundo moderno

Porém, há aqui um cenário que ignoramos: o homem não mais vive na realidade da sobrevivência selvagem. Há milênios não disputamos espaço com feras. Há milênios dominamos as demais espécies e, nos últimos séculos, passamos a construir o ambiente de acordo com nossas necessidades.

A sobrevivência foi garantida. Nós vencemos.

Contudo, nosso desenvolvimento racional não acompanhou essa realidade e continuamos no mesmo modus operandi. A mecanicidade desse programa colocou o homem como o lobo do próprio homem, e passamos a lutar entre nós mesmos por essa sobrevivência, enquanto a agressividade assumiu o papel central nas conquistas. Continuamos agindo como dois macacos brigando por uma árvore que tem frutos suficientes para alimentar dez deles.

Imagem de uma pessoa observando o próprio cérebro, com elementos que remetam à consciência, reflexão e superação de padrões automáticos.
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Abordo esse assunto para ilustrar a urgência de direcionarmos nossa atenção e intenção, como espécie, à construção de um mundo melhor: um mundo onde possamos minimizar as injustiças, conscientes de que elas sempre ocorreram, mas sabendo que podemos mitigar aquelas que claramente extrapolam todo o senso de dignidade humana.

Trata-se de direcionar nosso foco para construir um ser humano que não mais age mecanicamente preso a velhos padrões instintivos; um ser que não seja meramente reativo, mas ativo; que não apenas ataque, mas questione, pondere e compreenda.

Adaptação, consciência e o verdadeiro livre-arbítrio

Alguns irão reforçar a ideia da natureza humana imutável e de que não há salvação. Mas, sinceramente, a verdadeira natureza humana é a adaptação. A máxima de que “o mais forte sobrevive” é rapidamente derrubada quando estudamos como a vida se desenvolve neste planeta: as espécies mais adaptadas sempre superaram as mais fortes. O próprio ser humano nunca foi o mais forte fisicamente em seu território, mas sempre foi o mais capaz de se adaptar às condições mais severas e desafiadoras.

Essa adaptação se faz necessária mais do que nunca, pois, além dessa característica poderosa, temos outra que é única e essencial para a nossa transformação: a capacidade de agir conscientemente.

Nós somos a única espécie capaz de agir contra o próprio instinto, se assim desejarmos. Somos capazes de agir em vez de apenas reagir. Somos capazes de analisar nosso próprio comportamento e de refletir sobre nossas ações e pensamentos. Conseguimos compreender os padrões que nos impelem a erros e ações danosas. Nós podemos escolher o que desejamos ser. Nenhuma outra espécie tem essa escolha.

Esse é o verdadeiro livre-arbítrio.

Rumo a um novo paradigma humano

Acredito em um mundo no qual direcionamos nossas ações para o desenvolvimento de um ser humano mais equilibrado: indivíduos que questionem e reflitam sobre as verdades instituídas em nossa sociedade e, principalmente, que olhem para si mesmos e para seus impulsos mecânicos, compreendendo o que eles realmente são.

O mundo em que desejo viver é aquele onde o ser humano cresce, e não apenas as suas ferramentas. Onde as crianças desenvolvam não apenas um intelecto superficial voltado à retenção de informações, mas compreendam o funcionamento da sua própria biologia e psique. Onde entendamos que muitas das nossas verdades absolutas são apenas o resultado de seguirmos cegamente os impulsos de uma biologia que evoluiu para sobreviver em um cenário no qual não estamos mais inseridos.

Ter clareza sobre o porquê de agirmos como agimos traz um poder natural, pois passamos a perceber os padrões inconscientes que nos dominam e nos destroem, seja no nível individual ou coletivo. Essa transformação humana é possível, mas, sem uma ação direcionada, ela nunca acontecerá; se apenas seguirmos o fluxo vigente, continuaremos à mercê de uma programação biológica focada unicamente em perpetuar a espécie. Por mais que essa resposta fosse imprescindível no passado, hoje a principal ameaça à nossa existência somos nós mesmos e esse padrão inconsciente. A força instintiva que nos permitiu sobreviver pode se tornar a nossa ruína. Não que ela seja negativa (ela é natural), mas já não se adequa à realidade atual da nossa espécie.

Fica, então, a pergunta: como podemos levar essa visão de um ser humano consciente ao maior número de pessoas, alcançando a massa crítica necessária para uma mudança real de paradigmas? A boa notícia é que muitos já atuam no caminho da consciência, e precisamos nos unir a eles. Precisamos ecoar uma voz uníssona e poderosa, impossível de ser ignorada. Não podemos deixar o nosso destino nas mãos daqueles que se movem apenas pelo ganho pessoal, presos à mentalidade da agressividade e da conquista desenfreada.

É o nosso momento. Essa é uma causa maior do que nós mesmos, e por isso a entrega vale a pena: as sementes que plantarmos atravessarão gerações, de modo que nem o tempo será capaz de apagar esse propósito.

Este texto expressa a visão de quem enxerga os riscos do nosso tempo, mas se recusa a aceitar o fatalismo de que nada pode mudar. Para que o futuro seja diferente, precisamos assumir a liderança das transformações que queremos ver no mundo, começando por compreender por que o mundo é como é e redirecionando a nossa atenção para a construção de um novo paradigma humano.

  • Andrews Rodrigues

    Andrews Rodrigues

    Agente de Transformação
    [email protected]@o_visitante@komorebioficial@conexaocolablinkedin.com/in/andy-creatives-a776a0102serliricoficial

    A vida é algo raro e a gente parece não se dar conta disso apenas porque vivemos em um oásis onde ela é abundante.

    Quero viver em um mundo que garanta a vida no centro de todas as nossas ações. Um mundo onde possamos desenvolver o melhor do potencial humano, superando o comportamento mecânico que tem nos levado a um caminho obscuro e incerto.

    Quero viver em um mundo onde o indivíduo seja sustentado pelo coletivo, tendo espaço para crescer e fortalecer ainda mais a comunidade. Um mundo que respeite o lugar que cada um ocupa, e no qual cada indivíduo seja responsável ao assumir seu papel.

    Quero viver em um mundo possível, mas que, para acontecer, exige transformação: não no planeta em si, mas no nosso modo de construí-lo. Isso requer abandonar os velhos padrões apoiados no mero instinto de sobrevivência e assumir a plena consciência de nossas ações.

    Convido você a fazer parte desse movimento.
    Andrews Rodrigues | Escritor, artista visual e estrategista narrativo.