Autoconhecimento Convivendo Crônicas da Vida Espiritualidade

A batina do padre

Homem idoso de cabelos grisalhos costurando um tecido com atenção e delicadeza.
CasarsaGuru / Getty Images Signature / Canva
Escrito por Nina Veiga

Um simples rasgo pode esconder lembranças, sonhos e reflexões que atravessam uma vida inteira. O que um velho tecido é capaz de revelar sobre o tempo e as escolhas? Descubra a sensibilidade dessa história e continue a leitura!

Vivia num lugar muito distante, região de panos raros. Cada pedaço de tecido, tivesse sido ele trazido no lombo das mulas dos caixeiros viajantes ou batido fio a fio nos teares dos quintais, era um bem precioso a ser preservado. Ficou pensando nisso enquanto, um pouco mal-humorado, avaliava a extensão do rombo. Logo acima da barra, o rasgo irregular narrava o encontro com um prego. Acarinhou o pano ao redor do estrago, como a pedir-lhe desculpas. Os dedos tatearam o passado e o transportaram há meio século, ao tempo em que, ainda noviço, aprendera a fazer remendos.

Balançou um pouco a cabeça como a espantar as lembranças e caminhou até o armário em busca da antiga caixa de costura. Abriu a tampa e encontrou velhos amigos. Quantos anos, quanto uso, quantos remendos. Uma vida a remendar panos e almas, pensou, ainda a devanear um pouco, mas já com o humor refeito. A perspectiva da costura o animara.

Mãos de um homem idoso costurando um tecido com linha e agulha em close.
Seun Adeniyi / Pexels / Canva

Esforçou-se na tentativa de passar a linha pelo buraco da agulha. Os óculos já não o ajudavam tanto. Teve um assombro ao perceber quão fino estava o tecido, parecia sua própria pele que ia se tornando cada vez mais e mais fina, na medida em que envelhecia. Finalmente, velho como ele, o tecido de lã começara a aproximar-se da textura da casimira, tão sonhada, mas que nunca pudera comprar. Não pode deixar de sorrir ao comparar sua pele com a pele da batina, as duas estavam mais finas com o tempo. Estamos gastos, minha velha. Ficou a unir as bordas esfiapadas do rasgo com pontos miúdos. A vista cansada e a mão um pouco trêmula não afastaram o prazer que sentia na costura.

Cada ponto aproximava mais a mão do pensamento e o pensamento das lembranças. Um portal, concluiu, a costura era um portal para a memória. Foi-se até o tempo em que sua maior ambição, entrar no seminário, parecia-lhe distante e, à noite, antes de dormir, ajoelhado no tijolo, pedia ao céu: uma batina de casimira e um roquete de linho com renda larga. Eis que a persistência e o tempo fizeram da lã grosseira a casimira querida.