Quando Antônio Dó saiu de casa, versava uns 17 anos. Era rapaz feito, apesar de franzino e de pouca altura. Antônio Dó nunca tinha sido chegado aos estudos. Nem lê, tem preguiça mental, dizia a professora da quinta série, se a gente não fica perto dele, ele não pensa.
A escola não se fazia questão para Antônio Dó, gostava mesmo era do Botafogo. Costumava contar que, quando nasceu, em 14 de dezembro de 1995, uma quinta-feira, o Botafogo disputava a final do Campeonato Brasileiro contra o Santos. Falava isso com voz ligeira e emendava a escalação do time na época: Wagner; Wilson Goiano, Wilson Gottardo, Gonçalves e André Silva; Jamir, Leandro, Beto e Sérgio Manoel; Donizete Pantera e Túlio. Com o comando do professor Paulo Autuori.
E tem mais, acrescentava sem tomar fôlego, minha mãe diz que meu primeiro choro foi um grito de gol: Botafogo, bicampeão nacional, dois a um no Santos. Podia declamar de trás para frente e de frente para trás todos os 84 principais títulos do time. Do Campeonato Carioca de 1907, ao Torneio de Paris de 63, ou à Taça Guanabara de 97: Botafogo invicto, 12 jogos 12 vitórias: 100% de aproveitamento. Começava a enumerar e a fisionomia mudava, Antônio Dó se iluminava, encorpava, crescia. Sabia a trajetória do clube em detalhes, desde 1892, cento e vinte anos de glória alvinegra, cantarolava, erguendo o braço.
Uma vez, quando perguntado como aprendera tanto, Antônio Dó colocou a mão no queixo, olhou para cima, meio de quina, revirou a memória e trouxe de lá o lembrado: foi quando eu tava na quinta série, lá no grupo, e uma moça bonita, pesquisadora, falou comigo na hora do recreio. Ela perguntou do que eu gostava, respondi: do Botafogo. Depois foi perguntando dessas coisas de escola, se eu já tinha repetido de ano, se eu gostava de estudar.
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Eu disse que não ligava para esses assuntos de escola. Quando acabou a entrevista, ela comentou comigo que eu podia saber a história toda do Bota, lendo sobre ele na internet. Depois da aula, eu fui. Um real a hora na lan do bairro. Gastei todo o dinheiro que tinha e ainda fiquei devendo. Não conseguia parar, fui decifrando as letras, descobrindo as palavras que diziam do Alvinegro, uma coisa de disparar o coração.
