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A justiça das vontades

Imagem de um lobo observando a sua presa à beira de um riacho ao amanhecer, simbolizando o conceito de justiça e poder.
Johnrandallalves / Getty Images / Canva

A fábula revela que nem toda acusação busca a verdade. Muitas vezes, o julgamento já está decidido antes mesmo da defesa. Quando o poder substitui a justiça, a inocência pouco importa. A maior liberdade está em não gastar a vida tentando provar seu próprio valor a quem já decidiu condená-lo.

O sol ainda bocejava atrás das colinas quando um jovem cordeiro desceu ao vale. Havia no ar aquele silêncio que só as primeiras horas da manhã conhecem: um silêncio que não é ausência de sons, mas uma promessa de que o mundo, por mais um dia, continuará existindo.

O pequeno aproximou-se de um riacho cristalino. Curvou a cabeça e bebeu com a inocência dos que ainda acreditam que a vida obedece a alguma ordem desconhecida. Mais acima, sobre uma pedra escura, observava-o um velho lobo.

Seus olhos carregavam o cansaço dos invernos e a fome dos séculos. Não era apenas a fome do corpo. Era aquela fome mais antiga, que habita alguns corações: a necessidade de dominar, de se impor, de provar a si mesmos que são mais poderosos.

– Como te atreves a sujar a água que eu bebo? – rosnou o lobo.

O cordeiro ergueu a cabeça, assustado. Olhou para o riacho e depois para o acusador.

– Senhor, perdoe-me, mas a corrente desce da montanha. Estou abaixo de vós. Como poderia eu tornar turva a água que primeiro passa por suas patas?

O lobo estreitou os olhos. Por um instante, pareceu desconcertado pela lógica:

– Então foi no ano passado que falaste mal de mim!
– Senhor, no ano passado eu sequer havia nascido. – disse o cordeiro.
– Se não foste tu, foi teu irmão!
– Não tenho irmãos.
– Então foi algum dos teus.

O cordeiro permaneceu em silêncio. Pela primeira vez, compreendeu que não estava participando de uma conversa, mas de um julgamento cujo o veredicto havia sido escrito antes mesmo de sua chegada ao riacho. O lobo desceu lentamente da pedra:

– Vês, pequeno? – disse, aproximando-se.

– O mundo é um lugar curioso, em que uns chamam suas vontades de justiça, e outros chamam sua impotência de destino.

O cordeiro fitou o céu. Talvez procurasse ali uma resposta, ou apenas guardar na memória a cor daquela manhã.

– Existe alguma defesa que eu possa apresentar? – perguntou, com voz quase inaudível.

O lobo parou por um instante.

– Há uma, mas que historicamente não é aceita pelos tribunais: a verdade. – E, dizendo isso, lançou-se sobre o pequeno.

O riacho continuou seu caminho, indiferente. As árvores permaneceram imóveis. O vento seguiu levando sementes para terras distantes.

Kafka diria a Esopo que o lobo não precisava devorar o cordeiro. Bastava convencê-lo a passar sua vida inteira tentando provar que merecia continuar existindo.

  • Luiz Roberto Bodstein

    Luiz Roberto Bodstein

    Reflexões existenciais, filosofia e relacionamento
    [email protected]serindomavel.blogspot.comcivilidadecidadaniaconsciencia.blogspot.comluizroberto.bodstein

    Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.