O sol ainda bocejava atrás das colinas quando um jovem cordeiro desceu ao vale. Havia no ar aquele silêncio que só as primeiras horas da manhã conhecem: um silêncio que não é ausência de sons, mas uma promessa de que o mundo, por mais um dia, continuará existindo.
O pequeno aproximou-se de um riacho cristalino. Curvou a cabeça e bebeu com a inocência dos que ainda acreditam que a vida obedece a alguma ordem desconhecida. Mais acima, sobre uma pedra escura, observava-o um velho lobo.
Seus olhos carregavam o cansaço dos invernos e a fome dos séculos. Não era apenas a fome do corpo. Era aquela fome mais antiga, que habita alguns corações: a necessidade de dominar, de se impor, de provar a si mesmos que são mais poderosos.
– Como te atreves a sujar a água que eu bebo? – rosnou o lobo.
O cordeiro ergueu a cabeça, assustado. Olhou para o riacho e depois para o acusador.
– Senhor, perdoe-me, mas a corrente desce da montanha. Estou abaixo de vós. Como poderia eu tornar turva a água que primeiro passa por suas patas?
O lobo estreitou os olhos. Por um instante, pareceu desconcertado pela lógica:
– Então foi no ano passado que falaste mal de mim!
– Senhor, no ano passado eu sequer havia nascido. – disse o cordeiro.
– Se não foste tu, foi teu irmão!
– Não tenho irmãos.
– Então foi algum dos teus.
O cordeiro permaneceu em silêncio. Pela primeira vez, compreendeu que não estava participando de uma conversa, mas de um julgamento cujo o veredicto havia sido escrito antes mesmo de sua chegada ao riacho. O lobo desceu lentamente da pedra:
– Vês, pequeno? – disse, aproximando-se.
– O mundo é um lugar curioso, em que uns chamam suas vontades de justiça, e outros chamam sua impotência de destino.
O cordeiro fitou o céu. Talvez procurasse ali uma resposta, ou apenas guardar na memória a cor daquela manhã.
– Existe alguma defesa que eu possa apresentar? – perguntou, com voz quase inaudível.
Você também pode gostar
O lobo parou por um instante.
– Há uma, mas que historicamente não é aceita pelos tribunais: a verdade. – E, dizendo isso, lançou-se sobre o pequeno.
O riacho continuou seu caminho, indiferente. As árvores permaneceram imóveis. O vento seguiu levando sementes para terras distantes.
Kafka diria a Esopo que o lobo não precisava devorar o cordeiro. Bastava convencê-lo a passar sua vida inteira tentando provar que merecia continuar existindo.
