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A romantização da maternidade – Dia das Mães

Mulher bocejando enquanto segura um bebê no colo, aparentando cansaço durante o trabalho em casa.
Filadendron / Getty Images Signature / Canva

Ser mãe é mesmo um sonho… ou uma ideia que nos ensinaram? Entre expectativas, escolhas e pressões silenciosas, surge uma reflexão que pode mudar tudo. E se o caminho for outro? Descubra mais e continue a leitura!

Eu cresci a vida toda acreditando que queria ser mãe, já tinha planejado tudo na minha cabeça: aos 30 anos eu me casaria, entre os 33 e 37 anos eu seria mãe. Com o passar dos anos, a vida foi mostrando caminhos possíveis para se viver uma vida pela qual eu poderia escolher, até descobrir que eu não queria maternar.

Cresci em uma família da classe trabalhadora que não tinha muitos recursos financeiros, fui priorizando a qualificação dos meus estudos e os anos foram passando. Quando eu tinha 34 anos, durante uma consulta com a ginecologista, ela me perguntou se eu queria ser mãe, primeiro porque eu tinha miomas e seria necessário fazer uma cirurgia e isso poderia comprometer meu útero, e segundo que eu poderia congelar meus óvulos. A essa altura da vida, eu só queria uma carreira estabilizada, fazer o meu mestrado e ter uma vida financeira plenamente estável, ser mãe estava fora de cogitação. Era uma decisão muito importante e que me exigiria certa rapidez para decidir. Anos depois, eu fiz a cirurgia dos miomas e retirei 9 deles, ficando 3 ainda, meu útero foi preservado.

Mas, eu ainda não havia galgado tudo aquilo que eu queria e as pessoas ao meu redor me indagavam: “Você não vai ter filhos, não?” Tenho pacientes que se tornaram mães durante o processo de psicoterapia e passei a ler mais sobre isso, ler mais sobre a realidade da vida materna.

O fato é que a reprodução humana, a maternidade, parte de um pressuposto patriarcal, machista, que controla corpos femininos e, em sua maioria, que geram bebês. Historicamente, o controle dos corpos femininos constituiu um dos principais mecanismos de sustentação do patriarcado, operando por meio de instituições religiosas, jurídicas, médicas e familiares que regularam a sexualidade, a reprodução, o trabalho, a aparência e até mesmo os modos de existir das mulheres. Da perseguição às chamadas “bruxas” à medicalização da sexualidade e da saúde mental feminina, observa-se a produção de normas que transformam o corpo da mulher em território de vigilância, disciplina e punição.

Duas mulheres sorrindo enquanto seguram e interagem com um bebê em ambiente interno iluminado.
Eunice Pais. Produced by PAIS / Diversifylens / Canva

O papel de mãe, tradicionalmente atribuído às mulheres, revela-se ainda mais complexo quando analisamos os dados estatísticos. Segundo a matéria da Fundação Getúlio Vargas (FGV), conforme levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) entre os anos de 2012 e 2022, o número de mães solo no Brasil aumentou 17,8%. Ao aprofundar esse recorte e considerar fatores como raça e classe social, percebe-se que a maioria dessas mães solo são mulheres negras, evidenciando a sobreposição de desafios enfrentados por esse grupo.

Essa realidade estatística dialoga diretamente com experiências pessoais e relatos cotidianos. Por exemplo, tenho uma amiga que afirma amar os filhos, mas não aprecia o papel de mãe. Em atendimentos, costumo refletir sobre como ser mãe representa mais uma atribuição, uma atividade que consome energia e tempo. Como conciliar essa função com uma jornada de trabalho média de 40 horas semanais, responsabilidades domésticas e o cuidado com os filhos? Em que momento essa mulher pode viver para si, cultivar seus sonhos e desejos?

Apesar das dificuldades, muitas mulheres buscam estratégias para equilibrar maternidade e realizações pessoais. Algumas investem em educação, como cursos superiores ou especializações, na tentativa de ampliar oportunidades e garantir autonomia. Outras encontram apoio em atividades culturais, grupos de convivência ou redes de apoio, que oferecem espaços para expressão de identidade além do papel materno. Essas iniciativas revelam o esforço constante de mulheres, especialmente negras, indígenas e de classes populares, para conquistar espaços onde seus sonhos não sejam negados.

A maternidade, portanto, exige não apenas abdicação, mas também resiliência e criatividade para conciliar desejos próprios e responsabilidades. Reconhecer e apoiar essas mulheres em suas escolhas é fundamental para promover uma sociedade mais justa, onde o direito ao sonho e à realização pessoal seja respeitado e valorizado.

Durante este percurso, percebi que meus sonhos eram pessoais e o desejo de ser mãe vinha da pressão social sobre a mulher. Espero que este texto incentive uma reflexão autêntica sobre maternar, sem convencer ou impor ideias.

Referências

https://portal.fgv.br/artigos/maes-solo-mercado-trabalho-crescem-17-milhao-dez-anos

Sobre o autor

Beatriz de Andrade Silva

Psicóloga Clínica, Supervisora Clínica, Escritora, Palestrante, Taróloga, Mestranda em Psicologia Social (PUC-SP), Especialista em Diversidade nas Organizações (PUC-SP), Pós-Graduada em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global (PUC-RS), Pós-Graduada em Psicologia e Desenvolvimento Infantil, Mentora de Carreira (FGV) e Pesquisadora das Relações Étnico-Raciais. Associada à ABPN - Associação Brasileira de Pesquisadores Negros.
Atuei por oito anos no mercado financeiro, na área de gestão de pessoas, com foco em talent acquisition, treinamento & desenvolvimento.

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