Vocês as viram? Estão por toda parte. Fazia tempo que não apareciam. Tinham praticamente sumido. Achei que eram as novas vítimas da crise climática. Não sei se foram, mas agora não importa, estão de volta. Não fui a única a sentir sua falta. Outras pessoas com quem reclamei do seu sumiço, também comentaram que não as viam desde há muitos anos.
Para mim elas têm gosto de tubaína litro de garrafa de vidro com tampa de abrir com abridor, lembra? Se você tem mais de cinquenta e ainda tem uma memória razoável deve lembrar. Na época em que elas eram comuns, eu usava uniforme de escola. No recreio, caçávamos libélulas e as prendíamos com uma linha fina. Ficávamos circulando pelo pátio pilotando nossos “helicópteros”, tomando refrigerantes como Seven-up, Grapette ou Teen.
O recreio durava uma eternidade, assim como as férias. Não sei se é impressão minha, mas o tempo era tão durável. A tubaína também tinha um gosto diferente. Não sei se era por causa da garrafa de vidro. Talvez não. Esse gosto deve ser uma nostalgia de alienação, talvez de ingenuidade.
Saudades do tempo em que as libélulas voavam e a gente não sabia que o mundo era terrível e que os refrigerantes faziam mal. Gosto de lembrança é diferente. Parece mais intenso e saboroso. E os cheiros, então? Muito especiais. Eu lembro do cheiro da tampinha da tubaína, acredita? Gosto de fruta do passado é insuperável, indescritível. Lembra do cheiro da colônia da sua avó? Não tem similar em nenhuma perfumaria do presente.
Em vista da riqueza das lembranças do passado, o presente fica pobrinho. Por isso minha alegria ao ver as libélulas voarem seu voo alegre e ligeiro. Estava caminhando, aqui perto de casa, quando um enxame delas me cercou. Fiquei paralisada. Respiração suspensa.
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Dizem que, momentos antes de morrer, nossa vida passa toda como um filme. Pois te digo que isso pode acontecer diante de um ícone do passado reencontrado. No meu caso foram as belas libélulas, mas poderia ter sido com um cheiro ou um sabor. Num instante, voltam à mente todas as lembranças que acompanham aquela vivência. É um momento sagrado. E eu tive a sorte de vivenciá-lo, graças às libélulas, que para mim são um símbolo idílico do passado.
