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Adolescência – por que nunca entendo o que você diz?

comunicação entre pais e filhos
Leila de Sousa Aranha
Reflexões sobre a comunicação entre pais e filhos.

As queixas mais comuns que aparecem no consultório são relacionadas à comunicação entre pais e filhos. Os adolescentes se queixam de não serem compreendidos. Essa é uma reclamação antiga; de geração em geração, ela vem ocorrendo, porque os adolescentes se sentem em um momento muito particular da vida, o que é verdade, e os pais dão a impressão de que, quando adultos, esquecem como foi a fase da adolescência – o que, também, é verdade.

Então, eles não conseguem compreender os filhos, ficam irritados, exigindo deles mais do que podem dar. A comunicação fica truncada. Os parâmetros dos pais não são os mesmos usados pelos filhos. Isso causa muitos conflitos e um deles está relacionado ao desempenho escolar, basicamente às notas.

Uma boa parte dos adolescentes chega a essa fase muito desanimada com o modelo escolar. A gente tem que reconhecer que a maioria das escolas, realmente, não está atendendo às necessidades dos jovens. Elas transmitem conhecimento de forma antiquada, sem criatividade, visando apenas o vestibular, visando o futuro, um futuro que parece muito longe e indefinido para eles.

O jovem, assim como nós todos, precisa viver o instante presente, sentir que está adquirindo um conhecimento para agora, algo útil, no qual possa ver o sentido. A vida do adolescente, muitas vezes, se torna bastante entediante, e eles buscam emoções avidamente.

O que eu percebo, também, é que alguns, não todos, acabam mentindo para os pais, a fim de conseguir um tempinho livre, a fim de se divertirem sem ser perturbados. Isso é preocupante, porque quando eles começam a se habituar com a mentira, normalmente, esse hábito leva a outros comportamentos mais graves, como omitir onde estão ou o que estão fazendo. Isso não é nada bom, se pensarmos que os pais estão trabalhando, ocupados com os seus afazeres, e, muitas vezes, não têm aquele tempo para acompanhar os filhos de forma tão próxima.

comunicação entre pais e filhos

Os pais, quando se veem nessa situação, podem se tornar perseguidores de seus filhos, no sentido de tentar aumentar o controle, acompanhando com a escola todos os movimentos do adolescente, por meio eletrônico, controle de entrada e saída, relatórios minuciosos emitidos pelo colégio sobre o comportamento do filho, etc. Ou seja, a pressão aumenta, pois os pais acreditam que esse controle ajudará, mas só fica pior. Aí é que os filhos se sentem motivados a inventar novas formas de escapar dessa situação. É sofrido para o adolescente e para os pais também.

Na maioria das vezes, esse é o comportamento que se destaca no adolescente médio, aquele que estuda mais ou menos, que quer ter uma vida mais divertida, quer ir a shows, jogar videogame e coisas do gênero. Há, também, aquele adolescente que estuda bastante, que se empenha e busca a aprovação dos pais por meio de um comportamento mais impecável, vamos dizer assim.

A gente também tem que olhar com atenção esse adolescente, pois o nível de ansiedade não deixa de ser alto, uma vez que ele busca dessa forma a aprovação dos pais e acaba reprimindo sentimentos e comportamentos em troca de aceitação, de serem bons filhos e não provocarem problemas. O que acontece? Lá na frente, quando estiver adulto, provavelmente sentirá o peso dessa vida tão reprimida. Também não é bom.

Então, qual é o comportamento saudável do adolescente? Os pais podem perguntar: o que é saudável para o meu filho? Como devo agir? O adolescente saudável é aquele que estuda um pouco, que tem os seus interesses mas, também, tem as suas dúvidas, é curioso. Não vai falar tudo para os pais, porque os pais NÃO SÃO seus amigos. Os pais são PAIS. E os pais precisam se conformar com isso.

Um pai não tem que ser o melhor amigo dos filhos. O melhor amigo tem que ter a mesma idade, tem que ter os mesmos sentimentos, porque, quando nós ficamos adultos, esquecemos como é ser adolescente. Então, realmente, não podemos ser amigos dos nossos filhos. Esse é um fato a ser aceito pelos pais com muita tranquilidade, porque isso não significa que o pai está perdendo o seu filho; significa apenas que ele, o filho, quer uma privacidade, precisa compartilhar algumas coisas apenas com seus amigos.

O que os pais devem fazer? O adolescente espera dos pais a firmeza, a serenidade. Espera dos pais a segurança, o limite, porque o adolescente precisa de limite, sim; isso o deixa seguro de que tem gente que se importa com ele. Um adolescente que é largado, que pode fazer o que quer, não tem horários, regras a seguir, obrigações em casa, tem a impressão de que tanto faz, de que ninguém se importa.

Esse é um sentimento ruim, de abandono, e esse abandono vai fazer com que ele busque outras emoções e outras companhias. Para que a família se mantenha saudável, a iniciativa tem que vir dos adultos. É importante respeitar esse momento da vida do ser humano, a adolescência, onde há muita dúvida e instabilidade.

Um dia ele está feliz, saltitante, amando todo mundo; no outro, não quer falar com ninguém, que ódio profundo! É lógico que não é para todo mundo se mobilizar em torno dele e deixar que dê o tom do bem-estar da família. Não é isso. No dia em que estiver mal-humorado, ok, vamos sinalizar de forma adequada, mostrar que não é legal ficar assim, mas que está sendo respeitado, desde que não atrapalhe o resto da família. Que fique lá, se acalme e recupere-se! Depois, volte para o convívio. No dia em que estiver bem, feliz, muito bom, vamos conviver, vamos aproveitar, até elogiar.

O fato é que a vida tem que ser levada com o máximo de naturalidade possível, entendendo que aquela pessoa está crescendo, observando, aprendendo, e aprendendo principalmente com os exemplos, os exemplos dos adultos que o cercam. Isso é muito importante, e os adultos têm que estar conscientes de que não há como escapar disso. A melhor maneira de educar um filho é pelo exemplo. Não há como fugir. É fundamental ter paz, consciência do próprio papel, a cada dia, a todo momento, em qualquer situação, agindo de maneira assertiva e equilibrada.

Não há receita, mas a gente pode se ajudar, família, escola, psicólogos.

Sobre o autor

Leila de Sousa Aranha

Leila de Sousa Aranha

Sou psicóloga clínica, formada em Jornalismo e com Mestrado em Psicopatologia e Saúde, com o tema de pesquisa sobre o Perdão Interpessoal.
Atendo pessoas de todas as idades em consultório particular há 15 anos e gosto muito do ser humano, de acompanhar o seu desenvolvimento e auxiliar a melhor lidar com as situações de sua etapa de vida.

Sou divorciada e mãe de duas mulheres de 31 e 27 anos. Gosto de arte marcial e treino Aikido. Sou vegetariana, aprecio a natureza e os animais e gosto de encontrar meus amigos com frequência.

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