Autoconhecimento

Autoconhecimento – uma jornada

Homem branco segurando um espelho olhando à si mesmo.
Niels Hariot / 123rf
Juliana Meyer Luzio
Escrito por Juliana Meyer Luzio

O que é autoconhecimento? Ouvimos muito essa palavra e possivelmente acreditamos que nos conhecemos e que sabemos exatamente quem somos.

Por um lado, de fato sabemos algumas coisas sobre nós, temos informações concretas sobre nossa vida, nossa história e portanto sobre quem somos.

Eu por exemplo sou a Juliana, tenho 43 anos, gosto de viajar, ler, trabalhar, sou curiosa e tenho uma vida agitada com dois filhos, três cachorros e um marido. E posso passar um tempo grande falando sobre minha história e o que sei de mim. O mesmo acontece com você.

Sabemos várias coisas sobre nós e podemos dizer que isso é autoconhecer-se. Porém, existem tantas outras que preferimos NÃO saber a nosso respeito ou que estão tão guardadas que raramente acessamos e ainda há aquelas que só descobrimos diante de situações que acontecem em nossa vida.

Encontramos assim uma nuance do autoconhecimento que pede um saber mais refinado, que requer observação, acolhimento e não julgamento. Nesta via o autoconhecer-se é ser íntimo das emoções que sentimos, perceber como cada uma delas nos afeta e como reagimos diante de suas manifestações.

Mulher branca com maiô branco de costas observando a praia
Eternal Happiness / Pexels

Contudo aprendemos a fugir do que sentimos, esconder aquilo que socialmente entendemos como ruim e errado, mas que nos constitui, não tem jeito! Somos seres em evolução, imperfeitos, vulneráveis, impermanentes, inconstantes e nos deparar com isso requer generosidade e compaixão por nós mesmos.

Considero essa nuance do autoconhecimento uma jornada – o que é diferente de uma caminhada, uma viagem ou um passeio. Não é apenas trilhar um caminho que já existe, seguir as placas e chegar ao destino, ela requer observação, exploração, atenção, compreensão do todo ao redor, silêncio, cálculos.

Nos exige esforço, coragem e dá trabalho. Nos pede flexibilidade, disponibilidade, desprendimento, desapego, pois mudanças acontecerão, coisas ficarão para trás, se quebrarão e ainda, sim, precisaremos continuar limpando e removendo os obstáculos.

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Nessa jornada adentramos nossa floresta interior, podamos e às vezes arrancamos grandes árvores, cortamos todo o mato e a erva daninha. Teremos que enfrentar fantasmas, medos, monstros e destituí-los do poder que têm sobre nós. Esbarraremos em pedras, buracos, armadilhas, terra ressecada, plantas venenosas e será imprescindível removê-las e ultrapassá-las.

Somente após um extenuante e doloroso percurso conseguiremos ter vislumbres de luz e clareiras, avistaremos boas raízes, brotos, flores e conseguiremos semear novas sementes.

Conhecer-se não é só um passeio por estradas panorâmicas, planas e com lindos horizontes.

Conhecer-se é também mergulhar no escuro, nadar contra a maré, sentir-se triste, decepcionado e cansado, mas reencontrar-se mais forte, seguro e belo na outra margem.

Autoconhecimento significa conhecer nossa luz e nossa sombra, reconhecer as repetições familiares que vivemos, as máscaras que vestimos, as fantasias e narrativas que construímos no ambiente em que vivemos. Significa saber de nossa singularidade e dar espaço e visibilidade para simplesmente sermos quem somos neste instante.

Quando estamos num processo de autoconhecimento, aprendemos a validar o que temos de diferente, de único, aprendemos a valorizar nossos dons e nossa maneira ímpar de ver e sentir a vida. Sem julgar se somos melhores ou piores do que os outros.

Duas mulheres brancas de costas com braços levantados e olhando para rio
Priscilla Du Preez / Unsplash

Aliás quando entramos nesse processo e topamos percorrê-lo com afinco, descobrimos que justamente por sermos únicos no olhar, no sentir e no expressar entendemos de verdade que somos um a mais no centro e que todos os outros têm seus valores, sua história e forma de ser, sentir, olhar e expressar. Isso nos tira um peso imenso, o peso da ilusão de ter que ser o melhor.

Autoconhecer-se é saber que diante de mim há um outro tão importante, tão singular e tão valioso quanto eu e que ambos, eu e esse outro, nos transformamos diariamente nessa relação e que portanto não corremos risco ao seu lado, ao contrário, a cada dia temos a oportunidade de aprender com ele, aprender mais sobre quem somos diante de cada acontecimento, sentimento e ação que o outro nos provoca.

Essa jornada requer principalmente confiança, uma vez que ao começá-la não sabemos onde é o seu fim nem se é possível chegar até ele.

Afinal, somos seres humanos e estamos em constante transformação. Somos afetados direta e diariamente pelo meio em que vivemos, o que torna nossa jornada de autoconhecimento algo contínuo.

Mulher branca sorrindo meio a cenário caatinga
Candice Picard / Unsplash

Se temos toda uma carga ancestral que num certo grau nos constitui e temos uma história que foi marcando e orientando nosso modus operandi, temos também o agora e o instante seguinte que chamamos de futuro e que gerarão novas marcas, que nos convocarão a novas maneiras de sentir e novas experiências.

Assim autoconhecer-se é algo infinito, contínuo e uma longa jornada!

Mas que vale cada passo porque nos liberta da pequenez e do isolamento que supomos sobre nós mesmos e nos conecta com o mistério da vida, do tempo e do pertencer a esse mistério de forma única e complementar.

Sobre o autor

Juliana Meyer Luzio

Juliana Meyer Luzio

Terapeuta que constrói sua clínica através de um espaço que integra fala, consciência corporal e quietude, tornando possível uma reconexão com o que há de belo, delicado e muito forte em nós - nossa saúde.

Formada em Psicologia, Psicanálise, Terapia de Integração Craniossacral, Transmutation Therapy, entre outros, está sempre em busca de conhecimentos que agreguem, em seu dia-a-dia maneiras, diferentes de olhar a vida.

Atualmente, além de sua clínica, lançou a Îandé, onde tem se dedicado à arte de criar e costurar produtos exclusivos e cheios de carinho.

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