Autoconhecimento

Autoimagem verdadeira não é necessariamente funcional

Menina em frente ao espelho com rosto triste
Guilherme Henz Franco

Platão descreveu um princípio de ação em que o bom era ao mesmo tempo justo e belo. A emergência da modernidade fez surgir outros princípios, como o de utilidade, e começamos a questionar que o bom seja mesmo sempre justo e que o belo seja mesmo sempre bom. Chamamos útil aquilo que por vezes não é bom em si, mas somente em virtude de seu efeito. Posso não gostar de limpar o banheiro ou recolher o lixo da cidade, mas certamente gosto de ver meu banheiro ou a cidade limpos. E, por mais que eu aprecie o seu efeito, não consigo me engajar na prática de coração pleno.

Para alguém como Platão, saber a verdade de si era um fim último e admirável.

Mas nem tudo que pensamos ou sentimos a nosso respeito faz realmente bem para nós. Crenças autodepreciativas são incapacitantes e podem gerar sentimentos e avaliações de menosprezo, desajuste social ou incompetência. Pesquisas como as Armor & Taylor (1998), Baumeister (1989), Taylor & Brown (1988) e (Taylor et al. 1992) evidenciam isso.

Menina de costas sem mostrar o rosto com espelho com luzes acesas em volta

Então longe de nos esforçarmos por termos representações e opiniões acuradas e verdadeiras sobre nós mesmos, deveríamos nos esforçar por ter representações e opiniões funcionais. Isso que estou pensando ou sentindo está me ajudando? Essa crença que acabou de ficar clara para mim é adaptativa ou desadaptativa? Responder a questões como essas são um primeiro passo para saber se aquilo que pensamos de nós mesmos e do que fazemos está nos fazendo bem.

Isso significa que o valor de um pensamento ou crença advém mais de como ele nos faz sentir do que de sua correção. Tradicionalmente, o filósofo sempre valorizou a verdade: Aristóteles inaugurou o estudo das leis lógicas do pensamento, Spinoza fez um tratado sobre a correção do intelecto, Kant louvou o saber e a razão. O psicólogo em sua prática clínica advogará antes o bem-estar, sabedor de que uma consciência plena e precisa é impossível. Não que o psicólogo desprezará a verdade, afinal constitui parte do seu trabalho como cientista evidenciá-la. Mas, prestando atenção à sensibilidade dos afetos, procurará antes guiar seus interlocutores pelos mares das verdades suportáveis. E, afinal, trabalhará para tornar a verdade daquilo que é insuportável algo admissível e enfrentável. Não posso dizer que é fácil, mas devo dizer que, em virtude de um bem-estar mais pleno e forte, é necessário.

Bibliografia para consulta:

Armor, D.A., & Taylor, S.E. (1998). Situation optimism: Specific outcome expectancies and self-regulation. In M. Zanna (Ed.), Advances in experimental social psychology (Vol. 30, pp. 309-379). New York: Academic Press.
Baumeister, R.F. (1989). The optimal margin of illusion. Journal of Social and Clinical Psychology, 8, 176-189.
Taylor, S.E., & Brown, J.D. (1988). Illusion and well being: A social-psychological perspective on mental health. Psychological Bulletin, 103, 193-210.
Taylor, S.E., Kemeny, M.E., Aspinwall, L.G., Schneider, S.C., Rodriguez, R., & Herbert, M. (1992). Optimism, coping, psychological distress, and high-risk sexual behavior among men at risk for AIDS. Journal of Personality and Social Psychology, 63, 460-473.

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Sobre o autor

Guilherme Henz Franco

Guilherme Henz Franco

Psicólogo desde 2007, com formação em Antropologia Social na Alemanha (2015), trabalhou por 8 anos em Psicologia Organizacional, tendo também boa experiência em Psicoterapia Adulta e Infantil, e ainda Psicologia Escolar e Avaliação Psicológica. Na área cultural, é editor do site "O Franco Atirador", desde 2016, com produções artísticas e divulgação de material científico e político, e também do Blog "O Auscultador do Invisível", desde 2007, com produção literária (traduções, poemas, aforismos e ensaios).

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