Autoconhecimento Convivendo

Em busca da minha Inspiração…

Essa é a invocação da Musa que Homero faz no início da Odisseia

“Ó, divina poesia, deusa, filha de Zeus, mantenha viva para mim esta canção do homem de múltiplos interesses que depois de ter pilhado o âmago da cidadela da sagrada Troia, foi levado a vagar dolorosamente pelas costas litorâneas de outros povos, vivendo segundo seus costumes, bons ou maus, enquanto o seu coração, ao longo de todas as viagens marítimas, sofria em agonia para se redimir e levar seus homens para casa em segurança. Vã esperança – para eles. Os tolos! Sua própria insensatez os desgraçou. Destruir, pela carne, o gado do mais exaltado Sol, razão pela qual o deus-Sol escureceu o dia à sua volta. Faça com que essa história viva para nós em todos os seus múltiplos significados, Ó Musa…”

E hoje me vejo olhando pela janela de uma cidade interiorana de Minas Gerais, dessas janelas que trazem uma paisagem que seria certamente um convite inspirador para o meu Eu do passado, aquele que vivia com uma caneta e um caderno de anotações, escrevendo e poetizando sem parar… sinto um arrepio com a contemplação da beleza desse Sol que se põe e chego a pensar em Homero naquele mar grego, invocando a Musa… mas há tempos eu não ouço nada… silêncio…

Porém hoje eu decido. Decido que volto a invocar as Musas e Serafins e Pierretes e Bailarinas e Borboletas e Fadas e Bruxas e todos os Seres que misticamente possam me ajudar a fazer o meu papel neste mundo, ou seja, dizer a palavra que me cabe… dar o recado que me foi confiado…

E eu vou fazer, porque eu decido não mais me calar. Decido cuidar da criança interior que ficou escondida no meio de tanta confusão mental nestes anos todos, confusão mental criada porque eu decidi prestar atenção à falta, ao buraco emocional, ao abandono e ao abuso… e essa criança se escondeu porque tinha muito medo de aparecer e de novo não ser olhada por mim. Pois é. Eu deveria ter olhado para ela desde sempre. Não adiantou culpar ninguém pela dor que eu aceitei receber… Cada um sabe de si… Cada um faz suas próprias escolhas… inclusive quem decidiu não amar aquela criança… Não aceito mais me responsabilizar pela incapacidade que os outros tiveram de ver que ela merecia ser abraçada, protegida e olhada… Que ela era muito curiosa… que como sempre estava sozinha, encontrou um jeito de saber o porquê das coisas com Shakespeare, Gibran, com um monte de poeta português de um livro velho que ela não largava por nada nesse mundo. Tinha um poema em especial, o “Navio Negreiro”… e um trecho que a encantava:

“Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…
Quem são, Musa? E de novo a Musa?”

Hoje, mulher madura, eu percebo que o tempo todo fui embalada pela Musa. Que não fui abandonada. A Musa fez o papel de minha mãe e de meu pai. Eu tive uma maternidade e uma paternidade mágicas, sublimes, inefavelmente únicas. O invisível embalou minha criança enquanto ela dormia… e caminhou com ela durante as leituras… sentou-se ao seu lado quando ela balançava as perninhas para observar a Lua e cantar para ela… e hoje me lembro de que ela conversava com alguém… Era com você, Musa? Você que conversou com ela e disse que ficaria tudo bem?

Foi você quem cuidou dela enquanto ela precisou se esconder da confusão da minha mente?

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Com lucidez, hoje agradeço e digo que já posso cuidar dela… Musa, que esteve sempre aqui… agradeço! Reverencio a Poesia. Reverencio minhas mãos que podem voltar a fazer o que deve ser feito… serem intermediárias da intuição das Deusas… Estou de volta. Mas agora estou inteira. Olho para trás e vejo que houve caos. Minha vida não foi o que eu sonhei no início. Não houve um príncipe encantado, Musa. Nunca ninguém me amou como eu idealizei. Nunca nenhum homem me amou como eu pensei que fosse possível. Meus sonhos não se realizaram. Vivo a guerra de todo dia. Mas agora sei que a guerra é minha. Eu devo aprender a me amar. Eu devo aprender a ser meu próprio “príncipe encantado”. Não devo esperar que alguém lute a minha guerra diária e ninguém tem culpa se eu perder alguma batalha. Mas eu também aprendi que devo me apropriar das minhas vitórias e não esperar que outros aplaudam possíveis méritos meus. Vivemos jornadas pessoais nesta Terra. Nascemos sozinhos. Seguimos sozinhos.

Como peregrina da minha própria jornada, oh, Musa de Homero, eu te invoco. Usa-me, inspira-me, leve-me para onde só a Arte é capaz de levar… estou pronta para seguir sem olhar para trás…

Sobre o autor

Andrea Ralize

Escorpiana, professora de filosofia, revisora de textos, mãe de três seres de luz, praticante de yoga, estudante de Vedanta e, nas horas vagas, escritora de fragmentos da vida.

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E-mail: acralize@gmail.com