Comportamento Convivendo

Estado Islâmico vs Islã: mitos e verdades sobre os muçulmanos

Pessoa com turbante ajoelhada em um tapete, com as mãos estendidas em sinal de oração.
Daniela Schwery
Escrito por Daniela Schwery

Saiba um pouco mais sobre o islamismo com Heloisa de Carvalho e dois famosos ativistas

Dia 21 de janeiro foi o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e mesmo assim há muita gente que confunde o Estado Islâmico com o Islã (islamismo), que é a religião praticada pelos muçulmanos. São coisas totalmente diferentes. Estado Islâmico é uma linha extremada considerada terrorista pelos próprios muçulmanos (Islã), se trata de um grupo fundamentalista insurgente paramilitar.

Você sabia que muçulmanos de diversas partes do mundo protestaram contra os ataques realizados contra Paris que chocaram o mundo? Eles usaram diferentes hashtags para mostrar aversão à linha extremada (Isis = Estado Islâmico), subiram palavras-chaves nas redes sociais que diziam “Não em Meu Nome”, “Estado Islâmico Não É o Islã”, “Terrorismo Não Tem Religião” e “Muçulmanos Não São Terroristas”, e também saíram pelas ruas do mundo afora numa mobilização em que eles se referiam aos ataques como sendo criminosos e praticados por terroristas.

Mulheres jovens muçulmanas protestam contra ataques terroristas segurando placas om a hashtag "not in my name" (não em meu nome).
Créditos BBC: “Jóvenes musulmanas protestan en Torino, Italia, contra los ataques terroristas de París, el sábado 14 de noviembre: “Not in my name” (no en mi nombre), reclaman.”

Pois é! Sabia disso? Tem mais.

Muçulmanos são monoteístas, seu profeta é Maomé, que teria recebido as revelações do Arcanjo Gabriel. Também creem em Deus, por eles chamado de Alá.

Muçulmanos podem ter até quatro esposas. O “Alcorão” (a “bíblia do Islã”) diz que o homem pode se casar com até quatro mulheres, contanto que ele consiga dar atenção e boas condições igualmente a cada uma delas.

E se fosse o contrário? Mulher pode se casar com quatro homens? Continue a leitura.

Sobre o casamento com várias esposas, por exemplo, há quem diga que é promiscuidade. Pelas leis do Brasil, a bigamia é ilegal, pois a premissa do casamento pautado nos costumes da sociedade brasileira é a família monogâmica. Assim a bigamia se configura, portanto, como crime.

Há arranjos por aí, uns dão certo, outros não, mas as pessoas tocam a vida como acham que seja melhor para elas. Aí não cabe aos outros julgarem o estilo de vida adotado pelas pessoas envolvidas naquilo que elas mesmas concordaram. Diferenças existem e devem ser respeitadas. Mas há limite? Vamos seguir adiante, tire suas próprias conclusões e deixe seu comentário. Você acredita que consegue tolerar as diferenças e/ou que há um caminho para isso? Comente.

O que para os cristãos e para outras religiões torna-se muito difícil de respeitar/aceitar nos muçulmanos é a permissão de casamentos de homens com idade avançada (muitas vezes idosos já) com meninas novíssimas. Há notícias de casamento de senhores com idade bem avançada com crianças de 9 anos. Sobre isso, há inclusive uma foto que circula pelas redes sociais de uma fila de homens maduros de mãos dadas com menininhas preparadas para o casamento, o que chocou os internautas. Aliás, há notícias de que para os muçulmanos o casamento com criancinhas é uma espécie de comércio em que levam as menininhas para locais específicos e abusam delas de todas as maneiras mais cruéis e inimagináveis, e depois as jogam de volta para a sociedade como lixo, pois elas não valem mais nada.

Embora o casamento infantil seja uma triste realidade, há muitos mitos circulando pela internet que fazem aumentar o ranço contra os muçulmanos. Um caso é o dessa foto que citei acima. Menininhas estariam numa fila de mãos dados com homens adultos. Segundo o site Checamos, trata-se de um maldoso caso de fake news.

Foto de uma fila de crianças meninas usando vestidos brancos de festa, ao lado de homens adultos com vestes tradicionais de casamento. Sobre a imagem, há a palavra "ENGANOSO" em destaque.
Foto das meninas vestidas de noiva de mãos dadas com os padrinhos. Segundo o site, as meninas acima são damas de honra de um casamento coletivo entre adultos.

Também circulam muito notícias sobre espancamento e linchamento de mulheres pelos atos mais questionáveis, assim como se noticiam muitos casos de estupro e que mulheres/ crianças são violadas e ao mesmo tempo punidas por terem causado tal situação.

Para elucidar algumas questões, a Heloisa de Carvalho, autora do livro “Meu pai, o guru do presidente – a face ainda oculta de Olavo de Carvalho”, concordou em contar um pouco da sua vivência com muçulmanos.

Heloisa é filha de Olavo de Carvalho e narra que seu pai é muçulmano e já foi casado com três mulheres ao mesmo tempo. Olavo era chefe de um grupo de tariqa islâmica, no qual promovia a religião. Não apenas era seguidor, mas era também o mentor de uma seita.

Heloisa, mulher pode se casar com quatro homens?

Não, a poligamia somente é permitida para os homens.

É verdade que homens podem se casar com menores e praticar sexo com crianças (de 9 anos)?

Sim, mas a questão da idade mínima para o casamento islâmico muda de acordo com cada país islâmico; em média, na grande maioria dos países islâmicos, a idade mínima é 16 anos.

O que é país islâmico? Muçulmanos respeitam a cultura de outro país?

São países, ou melhor, Estados confessionais que têm uma religião oficial. No Brasil, por exemplo, o Estado é laico, não tem religião oficial. Eu sempre convivi com muçulmanos da região de comércio em São Paulo, nunca tive nenhum problema, tenho amigos muçulmanos que sempre respeitaram a minha opção religiosa. Quando estive na Espanha, vi alguns muçulmanos em lojas e nas ruas, e não notei qualquer tratamento diferenciado no sentido de desrespeito deles para com as outras religiões.

Você acredita que se omitir diante de um abuso sexual tem a ver com o conjunto de crenças islâmicas?

Não acredito, pois no islamismo o abuso sexual acarreta pena de morte para o abusador e seus cúmplices.

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É permitido aos homens muçulmanos castigarem suas esposas com agressão física e/ou qualquer outra mulher que não seja sua esposa?

Não é permitido castigo físico, mas a violência contra a mulher existe em todas as sociedades, seja ela física ou psicológica. Em países radicais que são islâmicos há violência contra a mulher, mas não é característica da religião. Ou então teria que se afirmar que nos EUA a violência é permitida pela religião… e isso não é verdade.

Você acredita ser possível respeitar as diferenças entre cristãos e muçulmanos? Acredita que há um caminho para isso?

Eu acredito que as pessoas devem ser livres para escolher sua religião ou mesmo serem ateias. Acredito que a harmonia entre as religiões deve existir, sim, o próprio papa prega e defende essa harmonia. Infelizmente o radicalismo católico de certos grupos que se equiparam a seita não aceita essa harmonia e propaga a islamofobia, comportamento que eu combato e abomino.

Heloisa, em seu livro você fala bastante sobre a questão de Olavo de Carvalho e o islamismo. Você não acha que passa a impressão de ser intolerante com os muçulmanos ou com o islamismo?

Primeiramente, eu falo sobre essa relação do Olavo de Carvalho com o islamismo por ele ter sido muçulmano, por ter sido ajudado pela comunidade islâmica e por hoje ser um islamofóbico. Olavo tem dois filhos muçulmanos, duas noras e quatro netas islâmicas. Acredito que se ele ama essas pessoas, deveria respeitar a opção religiosa delas. Mas não, desrespeita, ofende e ainda fala atrocidades sobre os povos muçulmanos. Nunca devemos generalizar, pois como já foi explicado aqui, o Estado Islâmico é bem diferente do que é ser um muçulmano. Quem convive comigo sabe que eu não sou intolerante religiosa, tenho amigos de todas as religiões e amigos ateus também, a religião ou a falta dela não torna a pessoa má, o que torna a pessoa má é o fanatismo cego, sempre acreditando que só determinada religião é boa e presta. É o fanatismo que torna a pessoa intolerante com a religião do outro.

Fotografia de Heloisa de Carvalho.
Heloisa é filha de Olavo de Carvalho. Em 2017, a partir de uma carta aberta viralizada pelas redes sociais, travou uma verdadeira batalha contra a propagação do olavismo.

Desde as grandes manifestações políticas e grandes adventos, como a Lava-Jato, as discussões ficaram muito polarizadas e acaloradas, como se todas as questões se resumissem a “direita vs. esquerda”, quando, por vezes, os assuntos são bem mais complexos ou bem mais simples. Mas não é de hoje que sabemos que a religião é usada em tramas políticas em que o pano de fundo é quase sempre de caráter econômico. Por isso, foram feitas perguntas a outros dois ativistas do Espírito Santo, Yngrid Pinto e Gustavo Peixoto, com viés político diferente, para nos explicarem seu entendimento acerca do assunto.

A notável feminista Yngrid Pinto, da região de Serra/ES, responde a um paradoxo ideológico. Feminismo é considerado uma prática da esquerda política e a esquerda tem como bandeira o combate à intolerância religiosa e o respeito da sua prática. Não raro, as feministas são questionadas sobre onde estão quando o assunto é agressão contra as mulheres entre os muçulmanos. Perguntamos à ativista Yngrid como ela encara essa questão.

Yngrid, como você vê o islamismo?

O regime do islã, além de cunho político-religioso, é autoritário em relação aos direitos sociais da mulher. É preciso combater a retirada desses direitos. Entretanto, gostaria de esclarecer que, na minha visão, o feminismo não é uma prática exclusiva da esquerda e sim cultural. Na hora que a mulher precisa de pensão alimentícia para seu filho ou tomar providências contra agressão, não vejo nenhuma mulher dizer “sou direita, não vou fazer”, nem vi nenhuma mulher recusar aumento de salário porque é da direita. Então não é correto afirmar que feminismo é esquerda, conforme vem sendo erroneamente propagado para nos dividir, para conquistar, mas é, sim, um desdobramento natural da evolução humana.

Como as feministas enxergam o casamento entre crianças muçulmanas e senhores de idade bem avançada? Como você encara?

É especialmente problemática a tentativa dos fundamentalistas de controlar a reprodução, a sexualidade e o corpo da mulher. Deve ser repudiado com veemência.

Como as feministas enxergam as agressões de homens muçulmanos contra as mulheres? Como você encara?

Agressões contra mulheres devem ser combatidas e repudiadas em qualquer lugar do globo. Infelizmente, mulheres muçulmanas não possuem a quem recorrer. O Estado promove reformas que são calculadas, lentas e inconsistentes. Manda a lei do “Alcorão”, em que as mulheres devem ser submissas e jamais abandonar seu lar. Isso cria uma cultura de abusos, que pouco é combatida.

Você acredita ser possível respeitar as diferenças com relação aos muçulmanos ou acredita que há um caminho para isso?

Obviamente há caminhos para promover os direitos das mulheres muçulmanas. Nem sempre foi assim. Até 1979, as mulheres dessas regiões usufruíram de sua liberdade e poder de voz. Portanto, há, sim, caminhos para que essas mulheres se “modernizem” sem perder sua integridade cultural.

O ano de 1979 se refere à revolução islâmica, na qual as mulheres começaram a ser questionadas sobre o cabelo e o que vestiam. Em 1980, autoridades muçulmanas impuseram o código de vestimenta obrigatório.

Yngrid Pinto, moradora do bairro de Valparaíso, Serra/ES. Ativista cujas prioridades são: atendimento segmentado das mulheres com qualidade, combate à desigualdade, fortalecimento da participação dos jovens na busca da formação de qualidade e primeiro emprego, efetivando a participação do cidadão de maneira concreta. Finalista dos prêmios “Mulheres do Amanhã” e “Boas Práticas” (Amunes). Yngrid abriu processo administrativo para os secretários de Obras e de Desenvolvimento Urbano para facilitar o acesso de mulheres à delegacia. Também abraçou a iniciativa da “Mulheres por Elas” para arrecadar kits de higiene para mulheres vulneráveis com o apoio do grupo “Maria Vamos Juntas”.

Outro entrevistado: dr. Gustavo Peixoto, cirurgião pioneiro na realização de transplante hepático e referência em cirurgia bariátrica no Espírito Santo. Ficou ainda mais famoso por ser também ativista político liberal bem presente e atuante nas manifestações. Gustavo também atravessa um paradoxo ideológico e, portanto, muito questionado, pois o liberalismo é avesso à intervenção estatal, e religião e liberdade são assuntos polêmicos até mesmo entre os liberais.

Dr. Gustavo, como você vê o islamismo?

O islamismo é uma das principais religiões do mundo, a crença no Deus Alá deve ser respeitada, assim como exigimos respeito ao cristianismo.

Como os liberais encaram o casamento de crianças muçulmanas e senhores de idade bem avançada? O Estado deve intervir ou existe alguma outra maneira de lidar com a questão? Como você encara?

O casamento de crianças deve ser repudiado e combatido, independentemente de religião. Lugar de criança, seja cristã, muçulmana ou ateia, é na escola. E a criança deve curtir esse desenvolvimento da infância e adolescência. Não acredito no Estado como “um ser”; penso que uma sociedade devidamente representada em instituições fortes deve combater absurdos, como o casamento de crianças. A percepção de que se trata de uma anomalia biológica e social deve ultrapassar qualquer segmentação religiosa. Isso esbarra em questões culturais locais e daí a importância da atuação de organismos internacionais, como a Unicef e outros.

Como os liberais encaram as agressões de homens muçulmanos contra as mulheres? Como você encara? O que pode ser feito?

Agressões de homens contra mulheres não são exclusividade dos muçulmanos. Talvez o que nos deixa chocados é que em algumas comunidades a violência é mais explícita e as vítimas não têm a quem recorrer. No Brasil, país que se diz laico, mas tem a maioria da população cristã, o índice de homicídios de mulheres é superior a 4/100 mil (4 por 100 mil), sendo mais frequente em negras. De forma surpreendente, o número de homicídios de mulheres DENTRO DE CASA é superior ao número de mortes de mulheres fora da residência, ou seja, a cultura da violência contra a mulher está fortemente presente em nosso meio. O estado do Espírito Santo tem posição de destaque negativo no ranking de violência contra a mulher, estando entre os estados mais violentos do país. Isso é uma vergonha gigante para nós! O principal mecanismo de combate à violência contra a mulher é a punição exemplar dos envolvidos. A impunidade é o maior combustível ao aumento desses crimes.

Você acredita ser possível respeitar as diferenças com relação aos muçulmanos ou acredita que há um caminho para isso?

Sim, claro, respeitar as diferenças faz parte de nosso desenvolvimento civilizatório. Num mundo globalizado, com informação em abundância, a luta pela conquista das liberdades individuais será uma luta da humanidade. Como liberal, acredito que cada um deve ter suas crenças e religião respeitadas, obviamente preservando os direitos fundamentais de cada indivíduo, seja mulher, criança, homem ou idoso.

Gustavo é referência em cirurgias de redução de estômago; recebeu o título de excelência em cirurgia bariátrica internacional. Apenas oito médicos no Brasil possuem tal selo. Seu sucesso está no pós-procedimento, o que é chamado de educação continuada. Para ele, mais do que ser técnico no procedimento em si, o sucesso consiste no acompanhamento do paciente. Gustavo, além de ser reconhecido no Espírito Santo por ter feito do Hospital Cassiano Antonio Moraes (Hucam) recordista em cirurgias realizadas com mortalidade zero (já são mais de 1.200 intervenções sem nenhum óbito), ficou mais famoso por ser ativista liberal e candidato em 2018 recordista na captação por crowdfunding, sem recorrer a nenhuma verba partidária, posicionando-se veementemente contra e sendo notório influencer do combate ao fundão partidário.

Sobre o autor

Daniela Schwery

Daniela Schwery

Daniela Schwery é produtora do livro “Rejuvenesça com Beleza e Espiritualidade”, de Jurandy Leite. Escreveu artigos para Rogério Sanches Buso, do Espaço Antahkarana, e para dra. Renata Franco. É pioneira em mix de tratamentos dermatofuncionais, conteudista da Horta em Casa, bacharel em direito, analista político, analista de gerenciamento de redes sociais, articulista do Meu Brasil Verde e Amarelo, Divergente, Canal do Torto, conteudista do Juca Chaves, e da dra. Jéssica Polese, tendo trabalhado para a campanha política de Aridelmo Teixeira (Fucape) e do dr. Gustavo Peixoto (premiado médico em cirurgia bariátrica) – recordista em arrecadação crowdfunding.

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