Convivendo

Formigas suicidas – Do desejo

Mulher pensativa olhando para o lado
Pedro Paschuetto
Escrito por Pedro Paschuetto

Uma medida de água na leiteira. Uma colher de açúcar. Leve ao fogo. Mexa por alguns segundos até todo o açúcar se dissolver. Verta todo o líquido no bebedouro para beija-flor (e outros pássaros). Pendure próximo a plantas e árvores. Agora veja formigas ávidas pelo açúcar perderem suas vidas afogadas entrando pelo orifício e não conseguindo sair.

Já ouvi dizer que se o ser humano conseguisse enxergar os ensinamentos da e na natureza, não precisaria de livro algum para aprender, bastaria olhar com uma atenção mais espaçosa e sutil. Desde que a formiga é formiga, ela busca o doce de alimentos (sacarose) para produzir seu alimento (fungos). O que chama a atenção é ver a quantidade que acaba morrendo por querer intensamente esta substância.

A manifestação funciona por dualidade (Yin & Yang) e suas infinitas variáveis entre um extremo e outro: as marés cheias e vazias, o dia e a noite, o claro e o escuro, o alto e o baixo, etc. A mente humana também segue esse funcionamento: avidez e aversão, querer e não querer, gostar e não gostar, apegar e desapegar, etc. Buda dizia que a natureza do sofrimento humano é estar apegado aos prazeres do corpo e da mente, e principalmente a quem ela pensa ser. Mais difícil que perder um objeto é perder a imagem de quem tinha aquele objeto; mais difícil que ser despedido é não ser mais o fulano ou a fulana-de-tal; mais difícil que fazer uma doação é ninguém saber quem doou. (Espero ter conseguido captar a dinâmica da coisa).

Pessoa apoiando com os braços em uma madeira

O ponto aqui é enxergar até onde estamos sendo escravos dos desejos da mente. Até onde estamos conscientes da linha tênue entre o sofrimento e o desfrute. Escrituras dizem para matar a mente, matar os desejos. Mas cabe a pergunta: é possível o sol não mais queimar? É possível a água não mais molhar? É possível o vento não mais soprar? Cada criação com sua natureza, e assim é a da mente: querer e não querer – Você (V maiúsculo de propósito) sendo consciência observadora não tem nada que ver com o que a mente e o corpo desejam.

Existe um espaço a ser criado entre Você e os quereres da mente, e o caminho de autoconhecimento não passa disso: um afastamento de quem você pensa ser para quem (ou o quê?) realmente Você é. Esse afastamento é representado em textos esotéricos como o domínio do espírito sobre a matéria, ou o domínio do eu inferior pelo eu superior. Os desejos existem e não há nada de errado com isso. Repetindo: os desejos existem e não há nada de errado com isso. Que não se crie mais uma negação ao que é natural, caso contrário será mais uma crença que limitará o desabrochar da consciência. Osho diz que “O desejo é a semente e a vida é a sua colheita”. Um quadro profundo de depressão é o esgotamento de desejos. É isso que você busca? Os desejos semeiam e movem o ser humano, a vida deveria ser repleta de prazer e deleite ao colher e saborear estes frutos plantados.

Homem em pé no gramado olhando para o céu

Em certos lugares, para caçar macacos, os caçadores colocam uma castanha dentro de um pote pesado. Sendo o pescoço desse pote mais fino que seu fundo, o macaco não consegue puxar de volta sua mão caso não solte a castanha. Por não soltar, fica preso, e eis que o caçador pega o macaco. Pergunta: o que fez o macaco ser pego pelo caçador? O pote? A castanha? Não. Foi seu desejo pela castanha que o fez ser pego. Bastava que ele desapegasse do desejo pela castanha para abrir a mão, retirar o braço e fugir do caçador. Não que o desejo em comer castanhas deixasse de existir, mas ao menos o macaco se livraria da armadilha e estaria livre para buscar castanhas em outro lugar. O que fez com que as formigas perdessem suas vidas? Foi o açúcar? Se elas abrissem mão do intenso querer pelo açúcar, poderiam ficar ali no orifício por onde o beija-flor bebe água, já seria mais do que suficiente.

A questão é interna, e sempre será. O mundo de Maya (ilusão) existe para que o ser humano transcenda e se reconheça como consciência usando um corpo e mente, não o contrário. Em todo sofrimento existe a chave para a libertação: basta escaparmos das armadilhas da mente, que nos induzem a culpar o que quer que seja do lado de fora, no mundo, nas pessoas. Esse é um ponto extremamente relevante a se considerar e tomar consciência: cada vez que a mente coloca a responsabilidade fora de si mesma, ela se exime da mudança, se mantendo na famosa zona de conforto.

Faça um voto para si mesmo:

“Toda e qualquer reação que brotar do meu ser, independente do que a mente rotule como boa ou ruim, será de total e exclusiva responsabilidade minha, não tendo qualquer relação direta com o que acontece do lado de fora.”

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À medida que você começa a viver cada vez mais por esse voto, os desejos de avidez e aversão se tornarão seus amigos e você caminhará de mãos dadas pela vida apenas desfrutando dos momento:, dos frutos doces e amargos, das flores perfumadas e venenosas, belas e espinhentas, não importando, a priori, a qualidade das experiências – estando em um lugar onde tudo é visto por quem Você realmente é.

Sobre o autor

Pedro Paschuetto

Pedro Paschuetto

Pedro Paschuetto é natural de São Bernardo do Campo, SP. Iniciou sua trajetória em 2010, quando ingressou no curso de filosofia livre na academia, na Escola de Filosofia Livre, onde se formou como professor e orientou aulas de filosofia livre e meditação durante cinco anos.

Em 2011 iniciou sua prática de Tai Chi Chuan pelo Shobu Dojo, arte marcial que ensina desde 2014, ano em que se formou no curso de instrutor de Tai Chi Chuan pelo Espaço Caminho da Luz – professor Laércio Fonseca.

Fortemente identificado com a meditação, experimentou diversas técnicas. Se estabeleceu na Vipassana, tendo concluído seu primeiro curso em 2012.

Admirador das artes orientais, pratica Iaidô (espada japonesa) e Sumi-ê (pintura com tinta preta).

Por sua intensa necessidade de investigação da natureza da mente humana, em 2018 iniciou seus estudos em psicanálise.

CONHECE-TE é um projeto para a extinção do sofrimento por meio de autoconhecimento, consciência e verdade.

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