Convivendo Crônicas da Vida

Gilberto acredita no Amor

Sol Felix
Escrito por Sol Felix

É um homem discretamente bonito, o seu Sol está em Libra e a sua Lua está sempre na mesma fase. Cursa o último semestre de Direito. Eventualmente, tem crises de enxaqueca e sabe muito bem lidar com todo tipo de gente. Sua família ficou no interior e ele sempre imagina como seria a sua vida se não tivesse vindo para cá.

Gil sonha em encontrar alguém para amar e ser amado e compartilhar todos os seus dias. Ao mesmo tempo em que acredita no “feliz para sempre”, desacredita. E, por fim, sente vergonha de si mesmo. Tudo isso em segredo.

Todas as quintas-feiras, Gilberto para 15 minutos para fumar um cigarro. São os mesmos 15 minutos que eu paro para olhar pela janela e imaginar se o trânsito estará bom ou se o meu ônibus vai quebrar (sempre rio quando o ônibus quebra). É neste mesmo intervalo de tempo que Seu Claudinho passa com o seu carrinho vendendo pão doce, pão de queijo e quebra-queixo para os escritórios dia sim, dia não.

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Notei recentemente que os 15 minutos de Gil se estendiam um pouco mais. Antes, a sequência era: 1 – Eu ia à janela; 2 – Gil descia e acendia o cigarro; 3 – Seu Claudinho chegava com o seu carrinho e parava na portaria do prédio; 4 – Gil subia; 5 – Eu voltava à minha mesa; 6 – Seu Claudinho seguia com o seu carrinho.

Agora, a nova sequência: 1 – Eu vou à janela; 2 – Gil desce e acende o cigarro; 3 – Bel desce a procura de Seu Claudinho; 4  – Seu Claudinho chega; 5 – Gil, como quem não quer nada, acende um segundo cigarro e troca uns três olhares com Bel (olhares rápidos e tímidos, mas com corações suficientes para serem notados no 8º andar) ; 6 – Bel compra dois pães de queijo e sobe;  7- Gil sobe e tenta alcançar Bel no elevador; 8 – Seu Claudinho prossegue o seu trajeto; 9 – Eu sou convidada a retornar à minha mesa.

Bel é uma mulher discretamente bonita. Adora goiaba, happy hour na sexta-feira e Lurdez da Luz.  Apesar de ter Mercúrio em Aquário, ela é de Peixes. Eventualmente, tem alergia a chocolates e nunca saberemos o que ela sente pelo Beto, embora ela pense que ele não faz o seu tipo. Bel sonha com o amor. Ao mesmo tempo em que acredita no “feliz para sempre”, desacredita. E, por fim, sente vergonha de si mesma. E, claro, tudo isso em segredo.

Hoje é quinta-feira e, numa situação atípica, Gil foi o primeiro a retornar. Bel, Seu Claudinho e eu, estranhamos silenciosamente, cada um em seu posto. Enquanto separava os pães de queijo da menina, Seu Claudinho disse: “Querida, certa vez duas almas gêmeas se encontraram e se reconheceram. Por medo, cada uma pegou uma direção e nunca mais se viram”. O velho vendedor entregou o troco e seguiu o seu trajeto.

Bel apressou-se para alcançar Gilberto, antes que ele entrasse no elevador.

Sobre o autor

Sol Felix

Sol Felix

Atriz formada pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e Designer Gráfico (Universidade Paulista). Nesta vida, resido em São Paulo desde sempre. Não sou viciada em tecnologia e amo chocolate amargo. Acredito, de forma encantada, que o ser humano é, por excelência, Arte e Artista.